11 de julho de 2018

Cena 2: O Zadim


CÔLO: Este é o zadim
Mais belo que há na terra
Pefumes de rosa e zasmim
Se espáliam po toda a serra
No centlo, um bosque zigante
E lagos pla todo lado
Po-londe o bom viazante
Zá zêga à Zina assomblado
Pois nunca viu tal beleza
Nas terras de onde veio
E quando se vê bem no meio
De tão rica natuleza
Ele zola emocionado,
Um zôlo que mata a tlisteza.
E dizem que este zôlo
Não é só pelo zadim.
Mas sim po-lum passalim
Cuza voz é um tesôlo.
[Sai o Jardineiro. O rouxinol começa a cantar o Tema do Rouxinol atrás das árvores. O coro continua.]
Tão rica e tão sinzela
É a voz da cantolia
Que até a ávole mais bela
Sua beleza escondia.
De um simples pescadô
Que pêlos lagos pescava
Ao plíncipe ou ditadô
Que po-lalí passeava
Todos em um só côlo
Que a voz divina ouviam
Pla toda zente diziam:
“Nas terras do Oliente
Não há maió tesôlo
Nem nada nos deiza contentes
Como a voz desse cantôlo
Que as ávoles de lá escondiam”
[As árvores se abrem e o rouxinol entra no palco. O Tema do Rouxinol é cantado com mais força. Ele ouve alguém aproximar-se e esconde-se entre as árvores donde continua cantando baixinho. Entram o Jardineiro e seu ajudante.]

ZADINÊLO: Tila a ávole daqui, coloca a tlepadêla acolá, zá não sei mais o que fazê pla agladá o Impeladô. Todo dia ele qué algo difelente. Selá que ele não entende que as ávoles não gostam de ficá saindo de um lugá pla ôtlo? Ávole plecisa fincá a raiz na terra pla ficá contente e clescê bonita. Ela plecisa se sentí segula.

AZUDANTE: Ah, Zadinêlo! Mas isso é fácil de entendê. É que o Impeladô nunca amô nada na vida, seu colação nunca se entlegô a ninguém. Vive sozíneo naquele palácio. Quando a zente não ama ninguém, fica flio e sem raiz. [mostra uma planta arrancada da terra ao jardineiro e planta-a novamente]

ZADINÊLO: [surpreso] E o que você sabe soble o amô, Azudante?

AZUDANTE: Sinta o seilo da flô.
Mais simples deste zadim
E se enselá de amô.
Um amô que não tem fim.
Basta palá pla ouví
O canto do passalim
Que zá começo a sentí
Esse amô dentlo de mim.

ZADINÊLO: Deize de bobazem, Azudante, e vênia zá me azudá aqui.
[O rouxinol se assusta, pára de cantar e voa]

AZUDANTE: Você zá amô alguém, Zadinêlo?

ZADINÊLO: Só tênio tempo pla cuidá do meu zadim. Não dá pla palá pla pensá nestas bobazens, né? Se o Impeladô, em seu passeio matinal de amaniã, encontlá as mesmas floles nos mesmos lugales que viu no passeio matinal de hoze, levo cinco zicotadas! Polisso, pale de pensá bestêla e me azude aqui. [tentando mover um dos vasos]

AZUDANTE: O Impeladô se pleocupa demais em exibí tudo o que tem. Ele vem ao zadim e tila fotos das floles pla postá no Instaglam. Ele tá diante da flô mas não vê a flô, não sente seu zêlo, ele vê somente a imazem da flô. E imazem não é nada, Zadinêlo. Ele fica contando os seguidoles do Instaglam e do Feisse, mas não coniece neniúm deles.
Polisso gosto do que fazemos. Pegamos na terra, sentimos os flescô da água, o seilo da flô... Somos muito mais ricos que o Impeladô.

ZADINÊLO: Mas semple foi assim. Quando o Impeladô ela cliança, zamava ôtlas clianças pla blincalem com ele no palácio. Mas quando elas zegavam lá, ele não quelia blincá com elas; só quelia exibí seus blinquedos.
Se elas gostavam de algum, ele queblava o blinquedo na flente delas e ablia o berrêlo. E zolava e zolava até ganhá ôtlo blinquedo.
Um dia, meus pais me delam um blinquedo novo feito de madêla. Ela um cavalíneo tão bonitíneo. Ninguém tínea um igual. Quando zegamos ao palácio, o Impeladô viu meu cavalíneo e deu um zeito de tomá o blinquedo de mim. Eu zolei, zolei. Até que meu pai zegô peto de mim e me disse:
“Meu quelido, vênia cá.
Ouça agola este segledo
Tome na mão esta pá
E faça dela um blinquedo
Então podelá blincá
E ganiá o seu sustento
Pois nem semple vou está
Ao teu lado, meu rebento.”
E quando as outlas clianças me zamavam pla í pla o palácio blincá com os blinquedos queblados do Impeladô, eu dizia que tínea que azudá o meu pai no zadim. E ficava aqui blincando sozim com a mínea pazínea mázica.
Quando você tlabália com o que gosta, Azudante, seu tlabálio vila uma blincadêla que ningém pode queblá ou tomá de você.
O Impeladô ficava espelando as clianças zegalem com seus blinquedos novos, só pla vê se os que ele tínea elam melióles ou pióles que os deles. E se fossem pióles, odenava que os inventoles do palácio fizessem blinquedos melióles pla ele.

AZUDANTE: [desolado] Cliança assim clesce sem colação, né? Quem não ama o que tem é como se não tivesse nada.

ZADINÊLO: Você tá falando muito em amô, azudante. Azo que tá apaizonado.

AZUDANTE: Tô namolando a moça mais linda do impélio.

ZADINÊLO: E ela sabe disso?

AZUDANTE: Ainda não. Mas em meus sônios ela zá sabe. E até zá me beizô. Ai, ai.

ZADINÊLO: E não pletende contá pla ela?

AZUDANTE: Até que eu quelia, mas ela tem um tio supe plotetô que me matalia se descoblisse que tô apaízonado polela.
[Entra a sobrinha]

ZADINÊLO: Mínia Soblínea quelida! [abraça a sobrinha, o ajudante fica sem jeito]

SOBLÍNEA: Olá titio! Tlôxe Sina-in-box e flutínias pla vocês. Devem tá com fome depois de tlabaliá o dia todo neste sol, né?

AZUDANTE: [suspira] Ai, ai, meu sol!

ZADINÊLO: Nem fale, Soblínea. Tava aqui comentando com o Azudante. Pleciso tilá félias! Essa mania do Impeladô de quelê sê melió que os ôtlos semple sobla pla zente, né? Tem que plovidenciá flô nova, todo dia. Tem que decolá o pátio com pocelana e clistal. E se uma coisínea fica fola do lugá, a zente ainda leva zicotada pla não deizá isso acontecê de novo.

AZUDANTE: E eu tava aqui dizendo plo seu tio que o ploblema do Impeladô é falta de amô, você não aza? O Impeladô só aze assim poque o colação dele tá vazio. E ele fica quelendo enzê esse vazio com coisas ainda mais vazias que seu colação.

SOBLÍNEA: Que bonito, Azudante!

ZADINÊLO: Este meu azudante é um filósofo, né?

AZUDANTE: Pense comigo, Zadinêlo. Se a flô tá na planta, ela dêza a planta mais bonita, né? [Colhe uma flor] Mas se a flô é tilada da planta, ela zá não vê mais motivo pla existí, tadínea, poque ela nasceu pla embelezá a planta. E a coitada da flô sofle calada até azá um lugá pla embelezá novamente [coloca a flor no cabelo da sobrinha do jardineiro]. Plonto, agola você diminuiu a dô da flô e ela dezô você mais bonita. Você não possui a flô, nem a flô possui você, mas uma deiza a ôtla mais bonita, mais livle, mais seia de vida. Isso é amô.

ZADINÊLO: [ri] Essa tal moça tá mesmo vilando sua cabeça, Azudante.

SOBLÍNEA: Que moça? [com medo de que o tio tenha percebido]

ZADINÊLO: O meu azudante tá apaizonado poluma moça aí, mas tá com medo de se declalá pla ela. Esse azudante não é de nada. Se fosse eu, za tínea me declalado.

SOBLÍNEA: E quem é essa moça, azudante? [com ciúmes]

AZUDANTE: Se você fosse colendo agola até a fonte e olhasse pla água, velía ela na água. Ela é linda!
[A sobrinha do jardineiro não entende]

ZADINÊLO: Ah, então essa moça é uma nadadôla! Polisso o Azudante vive saindo escondido, né? Deve fica escondido de lonze admilando a beleza dessa nadadôla lá na fonte.

SOBLÍNEA: Ah, deve sê uma dessas nadadôlas que usam esses bikinins de tilínias pla fica tomando sol. Esse seu azudante é um assaniado, meu tio. [diz enciumada]

AZUDANTE: Ela é uma plincesa! Ai, ai!

SOBLÍNEA: Então fique aí pensando na sua plincesa enquanto ela fica mostlando bikinin lá na fonte que eu tênio mais o que fazê. [sai irritada]

ZADINÊLO: O que deu nela?
[O ajudante faz sinal de que não sabe. Eles continuam movendo as plantas de lugar no jardim. O coro de visitantes entra com câmeras, tirando fotos e postando comentários sobre o rouxinol]

CORO: Este é o jardim
Mais belo que há no mundo
Perfumes de rosa e jasmim
Envolvem-nos em um segundo
No centro, um bosque gigante
E lagos pra todo lado
Por onde nós viajantes
Chegamos já assombrados
Nunca vimos tal beleza
Nas terras por onde passamos
E quando nos deparamos
Com tão rica natureza
Choramos emocionados,
Um choro que mata a tristeza.
Mas a razão deste choro
Não é só este arrebol.
O que comove este coro
É o canto do Rouxinol.
[O rouxinol surge cantando entre as árvores]
Tão rica e tão singela
É a voz da cantoria
Que mesmo a árvore mais bela
Seu encanto invejaria.
Todos em um só coro
Que a voz divina ouviam
Pra toda gente diziam:
“Nas terras do Oriente
Nada deixa mais contente
Do que a bela voz de ouro
Do nosso maior tesouro
O Rouxinol, certamente.”
[Saem todos. O rouxinol canta mais um pouco e sai. O imperador no centro observa as hashtags publicadas pelos visitantes]


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