11 de julho de 2018

Cena 4: O Silêncio do Louzinol



CÔLO: O Impeladô valente
        Fez cumplí sua sanção
        Pala a moça, a colente
        Pala o moço, a plisão.
        E o pássalo amoado
        Ficou de bico calado.
        Que tliste situação.
[Entra o imperador]

IMPELADÔ: Vamos Louzinol, cante. Pleciso fazê um vídeo pla postá no Instaglam. Todos plecisam vê que agola eu possuo o pássalo do canto mais belo da terra. [o pássaro permanece calado] Poquê ele não canta?

AZUDANTE: Solte a moça, Impeladô, e o pássalo cantalá. Ele tá tliste, mazestade, pois ama a moça e não qué vê-la nesta plisão.

IMPELADÔ: Zamais! Se eu soltá a moça, ela sailá colendo e levalá o Louzinol com ela.

SOBLÍNEA: Solte o Azudante, mazestade. Eu tô tliste poquê eu amo o Azudante e não posso vê-lo nesta plisão. Se ele fô solto, ficalei feliz. O pássalo velá mínea felicidade e cantalá pla todo o palácio.

AZUDANTE: Não faça o que ela diz, mazestade. Solte a moça e eu convencelei o Louzinol a cantá.

IMPELADÔ: Calem-se os dois! Ninguém diz o que o Impeladô Wu deve fazê. Guádas! Tilem-no daqui e açoitem-no até que a Móte apalêça pla buscá-lo, pois ousô pensa que pode dá ódens ao Impeladô.

SOBLÍNEA: Não!

ZEFE DA GUÁDA: Vamos homens, ouvilam o Impeladô. Tilem daqui o Azudante.
[A guarda tira o ajudante da prisão. O ajudante tenta beijar a moça, mas os guardas agarram-no e conduzem-no para fora do palácio. Ouvem-se chicotadas.]

IMPELADÔ: Mas poquê você continua tliste? O Azudante za não tá mais na plisão. Não é isso que você quelia?

SOBLÍNEA: Se continuá azindo desta manêla, o Louzinol nunca vai voltalá a cantá. A clueldade emudece os pássalos.

IMPELADÔ: Guádas, palem de açoitá o moço! [Os sons das chicotadas cessam] E agola? Poquê ele não canta? Ele não se agladou do meu ato de miselicódia? [Prepara-se para dar ordens para que a guarda imperial volte a açoitar o ajudante]

SOBLÍNEA: Mazestade! Ele sabe que sua miselicódia foi movida polintelêsse. Pássalos sentem essas coisas.

IMPELADÔ: E daí? Só polisso ele não vai cantá? Que ação nesta vida não é movida polintelêsse? O homem bom faz o bem pla í plo céu. Se não tivesse intelesse no céu, nem fazia nada e diliam que ele é um homem mau. O mundo se move polintelêsse.

SOBLÍNEA: O Louzinol celebla a zentileza da vida com seu canto. Onde não há zentileza, não há motivo pla ele cantá.

IMPELADÔ: Está dizendo que não sou zentil?!

SOBLÍNEA: Mazestade, um homem zentil açoitalia um homem inocente?

IMPELADÔ: Não é zentil respondê a uma pegunta com ôtla pegunta.

SOBLÍNEA: Todos sabem que vossa mazestade aze como se o mundo zilasse ao seu redó. Pessoas assim não conseguem sê zentis.

IMPELADÔ: Mas o mundo zila ao meu redó! E eu posso sê qualqué coisa que eu quisé. Sou o Impeladô da Zina. Ezizo que me ensine a sê zentil.

SOBLÍNEA: Uma pessoa zentil não ezize nada de ninguém. Ela pede com calíneo.

IMPELADÔ: [falando mansamente] Você me ensinalia a sê zentil, honolável Soblínea do Zadinêlo?

SOBLÍNEA: A zentileza não tá só no zeito de falá. A zentileza tá nas ações e no colação de quem aze. Uma pessoa zentil não mantém plisionêlos, polezemplo.

IMPELADÔ: Mas se eu soltá você, que motivos telá pla ficá aqui? Fuzilá pla lonze e levalá consigo o meu Louzinol.

SOBLÍNEA: Uma pessoa zentil confia na ôtla. Ela sabe que a ôtla também pode sê zentil. E, como vossa mazestade mesmo disse, o Louzinol é seu; se eu o levasse, estalia loubando o palácio. E não é nada zentil me samá de ladlona.

IMPELADÔ: [chora] Eu não sou uma pessoa zentil! O Louzinol nunca vai cantá pla mim.
[A moça limpa as lágrimas do imperador. O imperador permite que ela olhe pra ele nos olhos, levantando o rosto da moça com as mãos]

SOBLÍNEA: Faça uma só zentileza
Pla que qualqué fotaleza
Desabe bem aos seus pés
E velá que ao invés
D’um colação colompido
Tinha somente esquecido
Como que é fazê o bem
Pois uma só zentileza
Basta pala que a beleza
Entle na vida de alguém.
[O rouxinol começa a cantar. O imperador, chorando, solta a moça.]

IMPELADÔ: Vá pla o seu azudante. Não posso plendê-la aqui. Saia.
[A moça sai. O pássaro pousa no ombro do imperador e continua cantando. O coro entra.]

CÔLO: Tão podeloso e tão flaco
Este é nosso impeladô.
No seu colação, o bulaco
Palece que zá fezô.
Não folam suas liquezas
Ou seu podê sobelano
Mas a sua zentileza
Que o deizô mais humano.
O canto do Louzinol
Zeio de tanta beleza
Tal como o nascê do sol
Fez mudá sua natuleza.
[O coro assusta-se com a chegada da Morte, cala-se e foge. O rouxinol voa assustado.]


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