11 de julho de 2018

Cena 3: O Louzinol



IMPELADÔ: #LouzinolIsso, #LouzinolAquilo... Só se fala nesse tal de Louzinol. Tlagam zá o Sábio Zinês. Pleciso de seus consêlios.
[O chefe da guarda faz sinal para que a guarda busque o sábio, mas ele chega antes.]

SÁBIO: Zamô, mazestade?

IMPELADÔ: Veza só todas estas fotos no Instaglam, veza os comentálios no Feisse e as postazens no Tuíti. Todos mencionam o tal pássalo. Zá não sei o que fazê.

SÁBIO: Vezamos o que diz aqui no livlo da sabedolia zineza, “O pássalo do Instaglam do vizíneo é semple mais bonito que o nosso.”

IMPELADÔ: Mas o pássalo em questão não é do meu vizinéo. Se ele está no meu zadim, deve sê meu, né? Poquê nunca sôbe de tal pássalo antes? Pelos comentálios que li, a música que ele canta faz tudo ao seu redó palecê pequeno e sem impotância. Se alguma ôtla nação se apodelá do Louzinol, o meu zadim palecelá pequeno e sem impotância. Eu pedelei meu plestízio, as pessoas palalão de visitá a Sina. Ficalei sem seguidoles no Instaglam! Não posso deizá isso acontecê. Tlagam zá esse pássalo aqui. Se o pássalo não apalecê em tlês dias. Zicotealei a todos pô tlaição.

SÁBIO:  Se o tal pássalo tá no zadim, não selia mais pludente zamá o Zadinêlo? Ele deve sabê do paladelo desse Louzinol.

IMPELADÔ: Uma ideia inclível me ocoleu agola. Se o pássalo tá no zadim, com certeza o Zadinêlo deve sabe de seu paladêlo. Tlagam zá o Zadinêlo.
[O chefe da guarda faz sinal para que a guarda busque o jardineiro, mas ele chega antes.]

ZADINÊLO: Não plecisa í atlás de mim poque eu zá tava vindo. Mazestade, temos um ploblema?

IMPELADÔ: Novidade! Você semple vem pla tlazê ploblemas. Quando você vai apalecê aqui tlazendo uma solução? O que foi desta vez, Zadinêlo?

ZADINÊLO: Uma confusão no zadim, mazestade. Depois que postalam aqueles vídeos do Louzinol no Instaglam, agola válios caçadoles de válios países invadilam o zadim pla caçá o passalim. Estão queblando tudo pô lá!

IMPELADÔ: Plepalem a guáda impelial pla defendê o zadim destes caçadoles. Não podemos pemití que o Louzinol caia no podê dos meus inimigos. Zadinêlo, você sabe onde o tal pássalo se esconde?

ZADINÊLO: Não sei, mazestade. Mas meu azudante semple tá assobiando as canções do Louzinol. Azo que ele sabe onde encontlá o tal passalim.

IMPELADÔ: Guádas! Ezpulsem os caçadoles do zadim e tlagam o Azudante do Zadinêlo à mínea plesença.
[Guardas formam batalhão. Enquanto marcham, o cenário desloca-se e o palácio dá lugar ao jardim. Em primeiro plano, o ajudante encontra-se com a sobrinha do jardineiro. Guardas marcham ao fundo.]

AZUDANTE: Está ouvindo?
SOBLÍNEA: Selá que tá tendo manifestação de novo? Selá que é uma nova gleve? Toda essa confusão é culpa do Impeladô. Ele só pensa nele. O povo zá cansô de sê deizado de lado.
AZUDANTE: O Impeladô semple foi uma cliança mimada. Agola aza que pode tudo. Clianças sem limites vilam adultos cluéis. Mas não te zamei aqui pla falá do Impeladô. Te zamei aqui poquê quelia que ouvisse algo. E não tô falando da máza da guáda.
[O som da marcha diminui e o Tema do Rouxinol é ouvido.]

SOBLÍNEA: O que qué que eu ôça?
AZUDANTE: Sinta o seilo da flô.
Mais simples deste zadim
E se enselá de amô.
Um amô que não tem fim.
Basta palá pla ouví
O canto do passalim
Que vai começá a sentí
O amô que vem de mim.
E este amô que eu sinto
É maió que toda a Zina
Nada o abala, menina
Cleia em mim, pois não minto

SOBLÍNEA: E a tal nadadôla da fonte? Aposto que diz isso pla todas.

AZUDANTE: Vênia, ólie! [mostra o reflexo da moça na água da fonte] Quem você vê? Quem é a moça da fonte? Quem é mínea plincesa? [olham-se e beijam-se. O rouxinol rodeia o casal, cantando.]

AZUDANTE e SOBLÍNEA: Sinta o seilo da flô.
Mais simples deste zadim
E se enselá de amô.
Um amô que não tem fim.
Basta palá pla ouví
O canto do passalim...
[Os caçadores invadem o jardim e prendem o rouxinol. A guarda chega ao local. Lutas marciais são travadas entre guardas e caçadores. Os caçadores são expulsos. O ajudante e a sobrinha do jardineiro seguram a gaiola e soltam o rouxinol. A ave voa e pousa no ombro da sobrinha e volta a cantar. Os guardas prendem o ajudante, com a gaiola vazia nas mãos. A moça foge.]

AZUDANTE: Soltem-me! Eu não fiz nada!
[Em marcha, os guardas levam o ajudante ao imperador]

ZEFE DA GUÁDA: Aqui tá o meliante, mazestade.

AZUDANTE: Soltem-me! Eu não fiz nada! Que clime há em cantá ao lado de um passalim? Mazestade, eu nem tava na manifestação, deve havê um engano.

IMPELADÔ: Manifestação? Que manifestação? Onde tá o Louzinol, Zefe da Guáda?

ZEFE DA GUÁDA: O Louzinol? Mas as ódens não folam pla expulsá os caçadoles e tlazê o Azudante do Zadinêlo.

IMPELADÔ: Imbecis! [Chicoteia o chefe da guarda] Saiam za daqui! [Para o ajudante] Onde tá o passalim?

AZUDANTE: Mazestade, eu tava com mínea amada na fonte...

ZADINÊLO: A nadadôla?

AZUDANTE: ...Quando os caçadoles invadilam o zadim e plendelam o pássalo. Conseguimos recupelá-lo, ablimos a gaiola e ele ia voá pla lonze. Mas palece que apleciou tanto nosso zesto, que pousou no omblo da mínea plincesa e começou a cantá. Daí a guáda zegou e me plendeu. Mas eu não fiz nada, zulo.

IMPELADÔ: Quem é essa nadadôla? Diga, Azudante. Onde ela tá?

AZUDANTE: Não posso dizê, mazestade.

IMPELADÔ: Como ousa desobedecê uma ódem do Impeladô?

AZUDANTE: Se eu não digo, sou açoitado por vossa mazestade. Se eu digo, o Zadinêlo me mata. Entle morrê e levá zicotada, plefilo levá zicotada, ué!

ZADINÊLO: Agola também eu fiquei culioso.
[Entra a sobrinha do jardineiro com o pássaro no ombro. Escoltada pelos guardas do palácio.]

ZEFE DA GUÁDA: Tlouzemos a meliante.

IMPELADÔ: Meu Louzinol!

ZADINÊLO: Mínea Soblínea!

AZUDANTE: Meu amô!

ZADINÊLO: Amô? Qué morrê, Azudante?
[Moça abraça o ajudante]

ZADINÊLO: Azo que vou tê um tloço! E a moça da fonte, a nadadôla?

IMPELADÔ: Palem zá de lenga-lenga. Tilem o Louzinol do omblo da moça.

ZEFE DA GUÁDA: Ouvilam o Impeladô? Tilem o Louzinol do omblo da moça.
[Guardas tentam pegar o pássaro, mas ele voa]

IMPELADÔ: Peguem-no, peguem-no.

ZEFE DA GUÁDA: Peguem-no. Peguem-no.

SOBLÍNEA: Mazestade, o Louzinol é flázil. Os guádas vão mazucá-lo.

IMPELADÔ: Palem todos.

ZEFE DA GUÁDA: Estátua!
[Guardas param e o rouxinol pousa no ombro da moça]

SOBLÍNEA: Fale com ele, mazestade.

IMPELADÔ: Louzinol, le dalei todas as zóias que quisé e conseguí segulá com essas asíneas pequenas cinzentas e sem glaça que você tem se decidí ficá no meu palácio cantando pla os meus visitantes.

SOBLÍNEA: Mazestade, ele é um pássalo, pássalos não ligam pla zóias.

IMPELADÔ: Mandalei fazêlem uma gaiola doulada, com poleilos de zifle de elefante pla você, passalim, se quis é ficá polaqui.

SOBLÍNEA: Gaiolas também não agladam os pássalos, né mazestade. Eles gostam de libedade.

IMPELADÔ: Mas como posso tê algo que é livle? Se é livle, pode escoliê não sê mais meu a qualqué momento. Pla que eu tênia algo, ele tem que sê meu, somente meu.

AZUDANTE: Se me pemite, mazestade. Posses são ilusões. Eu amo a Soblínea do Zadinêlo e polisso não coloquei correntes ou anéis pla plendêla a mim. Ela é livle pla ficá ao meu lado ou lonze de mim. Mas poquê ela também me ama, ela plefele ficá comigo. Assim é com o passalim, se plendê-lo, ele ficalá tliste e sua música definialá.

IMPELADÔ: Como ousa dizê que posses são ilusões. Está dizendo que todos os meus domínios são melos devaneios? Que eu não possuo nada? Plendam zá este mentiloso.
[Guardas colocam o ajudante do jardineiro na prisão]

IMPELADÔ: Se não posso plendê o pássalo, plendelei a Soblínea do Zadinêlo. Assim, o pássalo que semple canta em seu omblo cantalá pla todo o impélio dia e noite sem palá. Guádas, plendam a moça.
[Guardas acorrentam a moça ao lado do ajudante]

ZADINÊLO: Mazestade, implolo que deize mínea Soblínea livle. Plenda somente o Azudante. Foi ele que causou toda esta confusão.

IMPELADÔ: O que eu disse está dito e não voltalei atlás na palavla do meu podê.
[Todos saem. A moça e o ajudante ficam ao centro. O coro entra.]



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