11 de julho de 2018

Cena 5: A Visita da Móte



IMPELADÔ: Quem é que se aploxima?

MORTE: Não sente uma certa pressão no peito, majestade? Sua vista não está meio embaçada?

IMPELADÔ: Sim. O que tá acontecendo?

MORTE: Vim dar uma olhada no ajudante do jardineiro, mas ele parece ter suportado bem as chicotadas que levou. Então, pra não perder a viagem, decidi passar no palácio para ver o tal do pássaro que todo mundo anda falando. Onde ele está, mesmo?

IMPELADÔ: Fique lonze do meu passalim, assomblação.

MORTE: Tão bonitinho este sotaque de Cebolinha que vocês têm por aqui! Mas não pega bem pra um imperador falar assim. Especialmente um imperador que sempre pisou em todos que cruzaram seu caminho. Que sempre quis estar acima de todos.

IMPELADÔ: Devo tá delilando. Pleciso de um enfemêlo pla tilá mínea plessão.

MORTE: Delírio ou realidade, a verdade é que você não tem sido um bom menino. Ganancioso, orgulhoso, egoísta... Ih, a lista de reclamações de pessoas que já passaram para o outro lado é bem grande. [aproxima-se do imperador, tira-lhe a coroa e coloca na cabeça, toma também sua espada e cetro]

IMPELADÔ: Guádas!

ZEFE DA GUADA: [entra] Zamô, mazestade?
[O imperador tenta dizer o que está acontecendo mas perde a voz. O guarda se aproxima, vê que ele está ardendo em febre e chama os médicos. Os médicos avaliam o imperador e balançam a cabeça, indicando que não há o que fazer.]

MORTE: É, majestade! Parece que sua hora está chegando! Possivelmente, os rumores da sua iminente morte já devem ter se espalhado pelo palácio e os líderes do império já devem estar pensando num sucessor. Sempre quis saber como se sente alguém que vive em função da posição social, das posses e do prestígio ao ver que está prestes a perder tudo. A maioria chega do outro lado ainda dando ordens. [ri] Coitados! Vivem para acumular poder e quando morrem são forçados a ver que esse acúmulo todo de nada lhes serviu.

AZUDANTE: [entra] Mazestade, ouvi os rumoles pelo palácio. Sei que ela tá aqui. Ela apaleceu pla me assomblá quando fui tilado da plisão. Não dê ouvidos a ela.

MORTE: Tem gente que nasceu pra ser mandado mesmo. Levou várias chicotadas agora há pouco e já vem defender o autor da crueldade.

ZADINÊLO: [entra trazendo a sobrinha pelo braço] Que histólia é essa de namolá mínea Soblínea sem o meu consentimento, seu pilantla? E a tal nadadôla? Ela ôtla de suas mentilas!

MORTE: Ihhh, pelo jeito, vou levar mais de um para o outro lado hoje!

SOBLÍNEA: [correndo para abraçar o ajudante] Titio, eu amo o Azudante.

AZUDANTE: E eu amo sua Soblínea.

MORTE: E, de repente, todos esqueceram do moribundo. [Debruça-se sobre o imperador que se contorce]

IMPELADÔ: O Louz... O Louzinol!

ZADINÊLO: Mazestade! O que você fez com o Impeladô, Azudante?

AZUDANTE: Eu não fiz nada. Quando zeguei ele zá tava assim. Azo que ele recebeu a visita da Móte. Ela apaleceu pla mim quando eu tava levando as zicotadas, mas eu não me entleguei e ela foi embola.

ZADINÊLO: Zicotadas? Que zicotadas?

AZUDANTE: Isso não faz difelença agola. Plecisamos azudá o Impeladô.

SOBLÍNEA: Mas o que você suzele?
[A Morte toca o peito do imperador com a espada e ele grita de dor]

IMPELADÔ: O Louz... O Louzinol!

SOBLÍNEA: É isso. O canto do Louzinol enze nosso colação de amô. Se ele voltá, podelá cantá e espantá a Móte.

AZUDANTE: Não temos tempo pla espelá o Louzinol apalecê. Vocês coniecem a histólia dos 1000 tsulus? Diz uma antiga lenda que se uma pessoa lecebe 1000 tsulus de pessoas que gostam muito dela, pode se lecupelá de uma situação glave ou até mesmo combatê a Móte. Essa lenda é lá do Zapão, mas se funciona pla eles, deve funcioná pla nós também, afinal, também temos ôlio puzadim.

ZADINÊLO: Mas onde vamos encontlá 1000 tsulus agola? Mais fácil ploculá o Louzinol no zadim. [corre em busca de ajuda]

MORTE: Os mortais são engraçados, mesmo! Sempre se apegam a estas crenças absurdas para evitar seu encontro comigo. Eles deveriam me agradecer por vir visitar-lhes de vez em quando. Afinal, eu uno as pessoas. Olhem o Jardineiro e o Ajudante, por exemplo, até esqueceram suas diferenças para apoiar o moribundo.

AZUDANTE: [para a plateia] Sei que vocês estão nos vendo, sei que podem nos azudar.

SOBLÍNEA: Com quem está falando, Azudante?

AZUDANTE: Com os que estão do ôtlo lado. Eles podem nos ouví. E sei que eles podem nos azudá. [para a plateia] Plecisamos de tsulus pla combatê a Móte. Sei que esses tsulus folam dados a vocês e podem leva pala casa se quiselem. Mas se fizelem a zentileza de doá os tsulus, podemos zuntos salvá o Impeladô.

MORTE: Não ouçam o ajudante. O presente é de vocês. Guardem este tsuru. Levem pra casa. Brinquem com ele. A vida do Imperador não vale um tsuru.

AZUDANTE: Atilem os tsulus na Móte. Cada tsulu é um desezo de vivê.
[A morte levanta a espada e pula diante do ajudante, ameaçando-o com ela.]

MORTE: Como ousa me desafiar? Você me escapou uma vez. Não me escapará novamente.

SOBLÍNEA: Azudem-nos. Lancem os tsulus na Móte. Vamos ezpulsá a assomblação.
[A este ponto algumas crianças já terão lançado alguns tsurus. Cada tsuru fará com que a Morte sinta dor e enfraqueça]

MORTE: Parem seus tolos! Parem agora!
[A Morte abraça o ajudante, cobrindo-o com sua capa. Balões brancos de diferentes tamanhos são liberados por dentro da capa e voam, simbolizando a morte do ajudante. Ele cai.]

SOBLÍNEA: Não!
[A moça corre e abraça o ajudante. O imperador acorda. O jardineiro volta com o rouxinol. Ele voa e canta ao redor da Morte. Ela foge.]

SOBLÍNEA: Meu amô!

IMPELADÔ: [Corre e abraça a moça.] Vênia comigo! Não sole.
[O jardineiro recolhe os tsurus e coloca-os sobre o ajudante. O rouxinol, cantando, pousa sobre ele]

ZADINÊLO: Desculpe-me Azudante. Eu fui egoísta como o Impeladôlo. Quelia que você se declalasse pala a nadadôla poquê sabia que você selia um bom malido. Mas quando descobli que a moça que você amava ela mínea Soblínea, me enfuleci, poquê plometi aos pais dela que cuidalia bem dela e polisso azi como se fosse dono dela. Mas ninguém é dono de ninguém. [para o imperador] Não temos 1000 tsulus, o que falemos?

IMPELADÔ: O valente azudante deu sua vida pla me salvá. A zentilêza dos que se desplendêlam dos tsulus e o belo canto do Louzinol ensêlam o meu palácio de amô e espantalam a Móte. O Azudante me ensinou que plecisamos nos desplendê daquilo que azamos que é nosso. Daquilo que azamos que tem que ficá do nosso lado somente poquê quelemos que os ôtlos vezam.

SOBLÍNEA: Ele adolava ouví as histólias dos viazantes. Ela apaízonado pelas floles e tínea tanto amô no colação que tlansbodava. Ele me ensinô que somos todos viazantes. E em nossas viazens pelo mundo plecisamos apleciá cada zesto de calíneo que a vida nos dá.

IMPELADÔ: Sim, somos todos viazantes. E em nossas viazens pelo mundo plecisamos apleciá cada zesto de calíneo que a vida nos dá. E, como o Azudante, plecisamos sê a mão estendida pla todos que plecisam de azuda. Pois alguém me ensinou que um ato de zentileza pode mudá a vida de alguém. [Abraça a moça] Vamos plepalá uma festa bem bonita no zadim pla nos despedí do Azudante.
[Todos saem. O rouxinol começa a cantar e a voar sobre o ajudante. Entra a Morte. Vai até o ajudante, beija-o no rosto e ele levanta. Ela apoia a mão do ajudante em seu ombro gentilmente].

MORTE: Ainda acham que eu sou o vilão desta história? Depois da morte do ajudante, o Imperador passou a dar mais valor para as coisas simples da vida, como sentir o cheiro das flores de seu jardim, conhecer os viajantes que visitavam seu império e contar para eles a história do rouxinol e do ajudante do jardineiro. Ele continua postando fotos no Instagram e tem muitos seguidores. Mas já não faz mais isso para mostrar para os outros o que ele possui. Ele faz porque não quer esquecer os bons momentos que está vivendo ao lado de sua amada. Sim, a sobrinha do jardineiro passou a acompanhar o imperador em todos os seus passeios e acabaram se apaixonando. E o ajudante, lá do outro lado, ficou muito feliz por ela finalmente ter encontrado alguém que a amasse tanto quanto ele poderia ter amado. O Rouxinol continuou visitando o palácio de vez em quando para cantar para o Imperador. Ele teve muitos filhotinhos e hoje você pode encontrar rouxinóis em vários jardins enchendo o mundo de amor com suas belas canções. Ah, o jardineiro foi promovido a ministro do turismo da China. E passou a tirar férias duas vezes por ano. Em uma de suas viagens, conheceu uma mulata e casou-se com ela. Bem, eu apenas faço o meu trabalho.
Era a hora do ajudante. Não havia o que fazer contra isso. Mas, quando eu vim buscá-lo, vi tanto amor nessa história que decidi esperar um pouco. Afinal, teria sido bem frustrante que o herói desta história tivesse morrido com uma mera chicotada.

[Sai a Morte]

2 comentários:

  1. Nossa! Muita coisa boa nesta peça! Evoluiu bem e os personagens em momentos engraçados, dramáticos e trágicos. Bravo!!!

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    1. Espero que as criancinhas não saiam traumatizadas heheheheheheheh

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