27 de maio de 2018

Capítulo 42: Segredos e Mentiras


“Quem és tu, estrangeiro?”, perguntaram os mancebos que haviam sido postos por atalaias à frente dos portões da grande cidade de Nod, que, banhada pelo Mahanun, era, dos quatro cantos da Terra, o de mais vasta abundância. 

“Sou Seth, filho do Ancião de Dias, e tenho andado pela Terra a fim de mapear seus arredores e guardar um registro dos povos que nela habitam. Muito se ouve falar sobre a industriosidade de vossos artesãos e a boa fama de vossos governantes.”

Ao que um dos atalaias comentou, “Igual fama tem o vosso povo, Seth, filho de Adão. Aproxima-te para que te escoltemos ao trono de Usir, o senhor destas terras.”

Usir era o nome pelo qual Caim era agora conhecido entre os povos do sul. Após o assassinato de Abel, temendo que qualquer que o reconhecesse procurasse tirar-lhe a vida, o malfeitor deixou de atender pelo nome que lhe fora dado por ocasião de seu nascimento. Aquele nome fora amaldiçoado pelos Céus e nem mesmo ele ou sua esposa ousavam pronunciá-lo. 

Aliando-se a mensageiros que não haviam sido enviados pelo Altíssimo e dando ouvidos aos seus conselhos, passou a chamar-se Mahan Usir; e, à sua esposa, chamou Isis. 

Para não esquecer sua origem, Isis dera àquelas terras o seu antigo nome. E a seus filhos instruía em todo o conhecimento que recebera no Vale de Adão, ainda que nas terras do sul norteassem suas vidas por princípios diferentes daqueles que antes haviam conduzido seus passos.

Na bela cidade de Nod, Usir e Isis tiveram muitos filhos e filhas, e deitaram-se muitas vezes com todos eles, de modo que grande foi a sua descendência; e suas filhas e filhos deitaram-se uns com os outros e com os próprios filhos e filhas, de modo que multiplicaram-se rapidamente sobre a Terra.

Ao ver o seu irmão do norte adentrar o salão do trono, Usir lembrou-se da promessa que o adversário do Criador há muito lhe fizera, e sorriu. 

“Levantarei para ti uma grande nação, de modo que os filhos de Adão viajarão grandes distâncias para provarem dos teus manjares e para conhecerem as majestosas construções que erguerás em nome do Altíssimo.”, prometeu Lúcifer naquela ocasião.

“Meu senhor, é uma honra estar em tua presença.”, disse Seth ao apresentar-se diante do monarca.

“A que devo a honra desta inesperada visita?”, respondeu Usir, ainda sentado em seu trono.

“Tenho visitado os filhos dos homens e feito alianças entre os povos, meu senhor. Após um início conturbado, em que a inexperiência de nossos pais causou tamanha dispersão, nada mais justo que parta dos remanescentes daquela casa a determinação de abrir fronteiras a fim de que sejamos expostos às diferenças que a princípio nos separaram, mas que por fim nos deram identidade como povos e nações que hoje se espalham pela Terra, conforme era e sempre foi a vontade do Criador.”, explicou Seth.

“Nada mais justo.”, concordou Usir. “Ainda que tardia, tal aliança há muito tem sido aguardada por nosso povo. Quisera Caim estivesse ainda em nosso meio para ouvir de teus lábios tão sábias palavras.”

Isis franziu a testa ao ouvir o que o seu esposo dissera. Seth estava tão encantado com as palavras do monarca que não percebeu o desconforto da rainha.

Levantando-se de seu trono e abraçando sua esposa, Usir continuou, “Mas imagino que não seja somente isto que vos moveu a tomar tão altruística atitude. Por acaso esta aliança não tem algo a ver com o surgimento desta nova raça da qual muito se tem falado: os tais homens-macacos, que se escondem em cavernas escuras e, cujas lanças de obsidianas podem derrubar curelons e cumons de um só golpe?”

“Os nefilins? Sim. De assaltos a viajantes, passaram à pilhagens de vilas inteiras. E se os rumores não mentem, estão se organizando em um grande exército que logo há de se levantar como uma grande ameaça às nações da Terra. E não somente eles, mas também as serpentes aladas e os símios que tomaram o Vale de Adão. 

De fato, há muitas ameaças que nos rodeiam, mas não foi o medo de nossos inimigos comuns que nos moveu a procurar-vos.”, disse Seth.

Usir sorriu e aproximou-se do estrangeiro, selando seus lábios com um beijo de boas-vindas. E deu ordem para que trouxessem seu melhor vinho e preparassem os melhores manjares a fim de celebrarem aquela aliança.

“Disseste que lamentavas por Caim não estar aqui para ouvir as minhas palavras. O que sucedeu ao pai de teu povo, meu senhor? E tua mãe, Nod, onde está?”, perguntou Seth, presumindo que Usir fosse o filho do infame assassino.

Os olhos de Isis lacrimejaram. Usir abraçou-a ainda mais forte.

“Não nos convém trazer más lembranças a uma mesa tão bela e farta como esta.”, disse Usir.

Seth desculpou-se.

“Eu sou o que habita a casa mais elevada deste reino,” explicou Usir, “e, dia após dia, os que bebem da taça da morte e que se assentam nas terras de minha herança apresentam-se diante deste trono para que os julgue. Todos buscam algum tipo de reparação, e apreciam as palavras de meu julgamento porque encontram nelas a restituição que procuram.

Mas que palavras sábias de reparação poderia eu dizer àqueles cuja taça já foi de todo esvaziada, e que agora seguem por outras veredas, muito além do alcance dos meus domínios.”

“Sim, meu senhor.”, concordou Seth, “Teu pai cometeu o mais grave dos crimes e já recebeu do Altíssimo a sua sentença.  A nós, cabe somente corrigir injustiças cuja reparação ainda esteja ao nosso alcance.”

Isis levantou-se e deixou a mesa. As concubinas levantaram-se após ela e acompanharam-na à sua habitação.

“Perdoe minha esposa. Ela não se agrada destas lembranças, pois estava lá quando eles partiram. Uma das serpentes aladas que há pouco mencionaste atacou-nos enquanto estávamos ceifando no campo. Não lembro exatamente o que aconteceu, pois fui arrebatado por sua cauda, caindo no rio e sendo levado por sua correnteza. Acordei tempos depois nos braços de minha irmã, que enchendo meus pulmões do sopro de vida, trouxe-me de volta para ser seu esposo e senhor destas terras. Só então soube que Caim, meu pai, fora ferido de morte pelo dragão; e Nod, minha mãe, levada em suas garras para além das nuvens. 

De fato, não tivesse sido por Isis, eu teria sucumbido ao mesmo destino que os acometeu.”, explicou Usir. “Conforta-me saber que meu pai, a quem o cheiro da terra molhada agradava mais que o mais perfumado unguento, tenha voltado ao barro de onde fomos todos criados, para desse barro gerar nova vida, redimindo-se assim daquela que, num momento de descontrole, inoportunamente ceifara.”

“Sinto em saber de tão triste passagem.”, disse Seth. “E por teres visto de perto o rastro de destruição que estas bestas aladas tem causado, deves compreender a apreensão de nosso povo.”

“Sim. Não pouparemos esforços em ajudar-vos.”, garantiu Usir.

O regente deu ordem aos mancebos da guarda que fossem em busca do mestre artesão. 

Mahan Usir era um homem alto e forte, de pele escura e brilhante, como eram todos os homens em seu reino. No entanto, o mestre artesão que ele mandara chamar era ainda mais alto e mais forte. Ao entrar no salão do trono, abaixou-se para não bater com a cabeça nos umbrais de bronze batido que ele mesmo adornara.

“Este é Tubalcain.”, disse Usir ao recebê-lo com um beijo de boas-vindas, “Possui uma habilidade inigualável na arte de moldar quaisquer estruturas de ferro ou bronze. Todos os adornos que vês nas paredes e colunas deste edifício ou mesmo este trono do qual delibero sobre os atos daqueles que nestas terras me servem foram esculpidos com grande esmero por este talentoso filho de Lamech.”

“Honras-me com teus elogios, meu senhor.”, disse o artesão.

“Recentemente ele vem trabalhando em um metal que é mais forte que qualquer outro do qual se tem notícia.”, acrescentou Usir.

“Ziph é o nome que demos a essa preciosidade, pois sua lâmina tem um corte tão preciso que poderia partir em dois um fio de cabelo que acidentalmente caísse sobre ela.”, disse Tubalcain enquanto desembainhava sua espada e entregava-a nas mãos de Seth, orgulhoso de sua industriosidade.

“Obviamente, tão apurada engenhosidade tem um preço.”, explicou Usir. “De fato, para tudo neste reino estipulamos um preço a fim de que os filhos de nosso povo entendam o valor do esforço de seus irmãos, e é isso que tem mantido a ordem e industriosidade dos que habitam estas terras. 

Certa vez ouvi dos lábios de um sábio, ‘Se ensinares aos teus súditos os princípios de lealdade e fores um exemplo público de tuas palavras, todos confiarão em ti.’ É isto o que tenho procurado fazer desde então. 

Vês este barrete feito com penas de avestruz, e esta barba adornada que desce à altura do peito? Eles são emblemas de minha autoridade. Quando um povo é ensinado a respeitar seus emblemas, esse povo ganha propósito. A leveza das penas em meu barrete representam o mundo etéreo donde vem a sabedoria que rege minhas decisões e julgamento; e a barba atada em lilases e dourados representa o alcance e extensão de minhas palavras. 

Vês também este bastão e este chicote? Eles são os símbolos de meu poder e domínio. O bastão é minha palavra, que se apoia em minha conduta aos olhos dos homens; e o chicote, o preço cobrado aos que não cumprem com o que lhes é imposto por tributo. 

Pois tudo o que meus filhos de mim exigem, lhes concedo conforme sua necessidade, mas somente a porção que lhes compete; e por esta porção, demando uma retribuição justa. E se deles cobro altos tributos é porque elevados são os benefícios que eles comigo pleiteiam. E se não cumprem com sua palavra diante dos homens; diante dos homens recebem a punição própria de seu delito.

Pois aquele que tudo dá e nada exige em troca eventualmente perde até o que tinha. Um governante que não entenda tais princípios está certamente fadado ao fracasso.”

Seth pensou um pouco nas palavras que ouvira de seu anfitrião e disse, “Temos costumes um pouco diferentes nas terras de onde venho. A nós nos parece que o maior bem que alguém pode ter é seu conhecimento. O conhecimento é fruto da experiência, e, portanto, uma dádiva concedida aos mais atentos. E nossa atenção reside naquilo que nos agrada, de modo que a cada homem cabe uma diferente ciência. Guardar tal ciência somente para si, ainda que fosse ínfima a porção, seria tornar mais pobre toda a sua nação. De modo que, ao invés de vendermos tal conhecimento, nós o compartilhamos em palestras construídas para instrução e benefício de nosso povo, assim partilhamos da industriosidade uns dos outros, pois todos sabemos o que podemos ofertar para aliviar o fardo de nossos irmãos. Afinal, o que é de um é de todos.”

“Diz-me, Seth, filho de Adão,” perguntou Usir, “o vosso Deus prontamente vos revelou tudo o que Ele sabe agora e sempre; e nada vos ocultou, de modo que vosso conhecimento se iguala ao Dele em toda a Sua extensão?” 

“Não. Ele nos revela a porção que nos cabe de acordo com as medidas de nossa necessidade.”, respondeu Seth.

“E exige Ele algo em troca?”, perguntou Usir.

“Nossa obediência, somente.”, respondeu Seth.

“E vossa obediência não consiste em fazer de bom grado coisas que façam crescer o reino Dele aqui na Terra?”, perguntou o regente daquelas terras.

“Sim”, respondeu o filho de Adão.

“Parece-me que teu Deus é bem mais parecido comigo como governante do que com o teu pai.”, comentou Usir.

“Compreendo a necessidade dos tributos que estipulas em troca de teu auxílio e, por isso, voltarei às terras de minha herança e me reunirei em conselho com os de minha casa, reforçando a necessidade deste acordo.”, assegurou Seth.

Usir despediu-se de seu irmão, que voltou às terras de seu pai.

Naquela noite, Usir chamou novamente o mestre artesão à sua presença.

“Tubalcain, envia mensageiros às grutas dos nefilins com armas como estas que mostraste ao filho de Adão. Leva também algumas virgens contigo. Soube que eles têm grande apreço pelos de nossa raça. Faz com que firmem conosco aliança a fim de que se defendam dos filhos de Adão que têm-se armado para atacá-los.”

“Pensei que havíamos nos ajuramentado com Seth e os de sua casa.”, retrucou Tubalcain.

“Nunca disse que seríamos leais somente aos daquela casa. Se ambos firmarem aliança conosco, de ambos os lados do conflito teremos lucro; um conflito que, à propósito, nem existiria se eu não tivesse providenciado que rumores se espalhassem nas terras do norte de que tal ameaça era iminente. 

Atenta, no entanto, para que ninguém te veja ou saiba de teus negócios escusos com os filhos daquela terra. Tudo o que fizermos, faremos em segredo, de modo que as portas de ambas as nações estarão sempre abertas para nós.”, explicou Usir.

Assim Tubalcain ajuntou uma comitiva de homens de sua confiança e ajuramentou-se com eles por meio de rituais que haviam sido revelados ao mestre Mahan por mensageiros do mundo etéreo a fim de que guardassem em segredo os atos que aquele bando estava prestes a levar a efeito. 

Em troca, Tubalcain compartilharia de sua maestria e engenhosidade na manipulação e forjamento de metais a fim de que se tornassem tão bons artífices como ele, com a promessa de que, se cumprissem sua parte no acordo, gozariam de uma vida de luxo e riqueza como jamais haviam sonhado.

Ora, Mahan Usir era o grão-mestre do alojamento dos mestres de obra, que há muito já existia naquelas terras.

Devido aos acordos escusos daquele bando, cujas reuniões se davam em segredo e sem candeias, a fim de que a identidade dos participantes fosse dalguma forma protegida, Usir havia conseguido fazer de Nod a nação mais proeminente de toda a Terra. 

Os atos escusos do bando de Mahan eram o fermento do progresso daquelas terras; mas também, o tormento daqueles que não gozavam dos laços fraternais que protegiam os participantes do bando. 

Usir aprendera que o bem mais precioso do homem é o seu tempo e que se fizesse com que os filhos dos homens desejassem maior conforto em sua vida, teriam que pagar com seu tempo pelos objetos de seu desejo. Trabalhando dia e noite por um punhado de moedas, os filhos daquelas terras trocavam o tempo de sua vida por confortos que em outros lugares jamais encontrariam. No entanto, porque haviam trocado o tempo por conforto, não lhes sobrava tempo para aproveitarem-se de suas aquisições.

De modo que não havia pobres entre eles, mas tampouco havia homens felizes. Pois mesmo os que haviam-se ajuramentado ao bando temiam que seus atos escusos fossem descobertos e perdessem tudo o que tinham.

Lamech era o conselheiro do mestre Mahan e era responsável por levar a efeito todas as decisões do bando, de modo que quanto mais prosperasse aquele povoado, tantas vezes mais prosperaria a sua casa e os que houvessem se ajuramentado à ela. 

Lamech tinha setenta e sete filhos e, destes todos, somente três foram feitos conhecedores e participantes de seu segredo. Entre eles, Jabal, que foi instruído nas práticas criminosas que permitiam que seus rebanhos dominassem todo o mercado de couro, lã, carnes e leite que eram vendidos naquelas terras. 

Sob a proteção de Usir, que cobrava altos impostos dos mercadores e pequenos produtores, mas que aliviava os encargos dos que haviam-se associado a seu bando, Jabal prosperava entre os que habitavam em tendas, e tinha os rebanhos mais bem cuidados de toda a Terra.

Um outro filho de Lamech que fora introduzido às obras secretas do bando de Mahan fora Jubal, que foi instruído nas práticas criminosas da distração. Afinal, um povo que vende seu tempo pela ilusão de conforto precisa ser distraído para que não perceba que o conforto que buscam não lhes tem trazido felicidade. Uns poucos momentos de contentamento fazem com que esqueçam das agruras do dia e sigam sua vida árdua sem reclamações ou revoluções.

Para alcançar tal façanha, Jubal promovia orgias regadas a muito vinho, canto, drama, flauta e lira. Havia as orgias em campos abertos, nas épocas dos festivais de fertilidade da terra, dos quais o povo participava livremente, ainda que indiretamente estivessem custeando aqueles festivais com o tempo de suas vidas, que eram revertidos em moedas pagas em forma de tributos aos seus governantes, que por sua vez repassavam parte desses tributos a Jubal para que promovesse as tais festividades. Havia também os bacanais privados, que aconteciam em tavernas espalhadas nas periferias da cidade, ao som de cítaras e címbalos, onde virgens de famílias menos abastadas eram ofertadas em troca do abatimento de tributos a fim de serem defloradas por homens de alta estirpe na tentativa de tornarem-se suas concubinas, garantindo assim alguns privilégios aos de sua casa.

O último filho de Lamech a ajuramentar-se com o bando foi Tubalcain, que foi feito grão-mestre do alojamento de ferreiros e, como já se sabe, era mestre na arte da guerra e na produção de armas e escudos cuja fama havia atraído povos vizinhos que agora haveriam de pagar tributos aos governantes de Nod pelo uso dos armamentos que produziam.

Irad era um dos homens que Tubalcain havia chamado para sua comitiva e que havia-se ajuramentado com ele como guardador do grande segredo. Mas Irad fracassou em sua tarefa de manter sua boca fechada e pagou pela indiscrição com sua própria vida.

Em uma turba, com os rostos cobertos com barretes que desciam sobre o rosto em forma de caretas de bestas selvagens, o bando invadiu sua habitação e arrancou-o de seu leito, cortando-lhe a garganta com o mesmo ziph afiado que ajudara a forjar. 

Naquela noite, Tubalcain e seus homens raptaram duas das filhas mais jovens de Irad, levando-as consigo em sua comitiva às grutas dos nefilins.

Por sua incomum estatura, mesmo tendo usado um barrete de chacal ao invadir a habitação de Irad, Tubacain foi reconhecido pela esposa do ancião, que declarou seu crime diante do povo. 

Lamech, para proteger o filho, disse que Tubalcain já não estava na cidade na noite do assassinato, pois havia subido às terras do norte com sua comitiva, e assumiu a culpa pelo assassinato de Irad, que era pai de seu pai, dizendo que o ancião andava espalhando falsos rumores sobre seus negócios e os negócios de seus filhos.

Lamech gozava de boa reputação aos olhos do povo, mas por admitir sua culpa diante de todos, foi condenado ao exílio e deixou aquela cidade e seus setenta e sete filhos e suas duas esposas para não mais retornar a vê-los.

Quando Lamech deixava os portões de Nod, Tubalcain chegava ao seu destino.

Os homens-macacos, como o povo do sul os chamava, haviam já se espalhado por todo o oriente, e alguns já ocupavam cavernas às fronteiras de Nod. De modo que não demorou para que Tubalcain os encontrasse. Ele foi recebido com curiosidade por uns poucos que faziam campana fora das cavernas. Embora estivessem armados, não pareciam perigosos. Andavam nus e quando muito, carregavam uma lança com ponta de obsidiana ou um tacape.

Embora compreendessem tudo o que os estrangeiros lhes diziam, os nefilins tinham a língua pesada, de modo que nem sempre conseguiam se fazer entender. A aproximação foi lenta e cheia de percalços, mas por fim, Tubalcain e sua comitiva foram recebidos entre os filhos da terra.

As filhas de Irad foram entregues como oferta de paz. E, em troca, toda a comitiva de Tubalcain se serviu das virgens que habitavam a gruta dos filhos da terra.

Houve choro e gozo e um início de entendimento entre as raças.

Tubalcain fez com que os nefilins acreditassem que corriam perigo, pois os filhos de Adão se armavam contra eles, e disse-lhes que traria mais espadas e lanças como aquelas se eles escavassem as grutas nas quais habitavam em busca de ouro e outras gemas preciosas, além dos recursos brutos para o forjamento das armas que precisavam.

Assim, os povos do sul subjugaram os filhos da terra e fizeram deles seus servos, e em troca forneceram-lhes, a preço de altos tributos, o armamento que necessitavam para que um conflito que se estenderia por muitas gerações tivesse início.


6 comentários:

  1. Interessante como se dá a ascenção social das pessoas por meios desonestos. Fiquei pensando nos dias atuais...

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    1. Enquanto as pessoas acharem que sucesso é sinônimo de posse, serão sempre escravas das próprias ambições.

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  2. E assim o pai de todas as mentiras envolve seus seguidores em suas tramas malignas e engana os inocentes que muitas vezes, quando o percebem, estao ja arraigados em suas artimanhas. Eu que achei que sabia o fim, agora com esse suspense todo, mal posso esperar pelos proximos capitulos! Vai ter continuacao? Preciso muito! Ate os fins do juizo final!

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    1. Estamos na mesma... eu também achei que sabia como ia terminar... mas esses personagens me dão umas rasterias de vez em quando... heheheheheh

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  3. A história da criação do mundo baseada na Bíblia nos mostra que, mesmo sendo uma criação divina, que pressupomos perfeita , pode gerar dúvidas. Adão e Eva, seres imaculados, transgrediram as ordens recebidas.
    Aí é que está, a meu ver, a perfeição. O livre arbítrio. Inerente a natureza humana.

    No decorrer de sua narrativa, Eliude, acompanhamos, além da história em si, magnificamente contada por você se utilizando adequadamente de todos os recursos de seu excelente banco de dados, o nascimento das virtudes e dos pecados. como a rebeldia dos filhos, a traição, o assassinato, a aparição do mal encarnado na figura de Lúcifer, o mea culpa de Adão, a racionalidade de Eva, enfim, o desabrochar da natureza humana nos primórdios dos tempos.

    Na caminhada de cada personagem, o confronto com o bem e com o mal, com o poder, com o domínio e com tantas outras características humanas.

    A explicação dos seres espiritualizados que, em dado momento descem à terra, que não poderiam interferir e mudar o rumo dos acontecimentos por que em tudo há causa e efeito, ação e reação se manifestando em alguma hora.

    Mas ensinam sobre a importância do amor e sobre as duas leis mais importantes que, nos dias de hoje seriam traduzidas como "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo" .

    Discorrendo sobre as diferenças entre as famílias de Seth e de Caim, você nos mostra raízes que vingaram até os dias de hoje.
    Entre outras coisas, a de Caim estabelecendo tributos para compartilhamento de bens materiais;
    A de Seth, tendo como filosofia o compartilhamento do conhecimento.
    Os beneficiários da primeira, ao endeusarem os que lhes proporcionavam a pseudo riqueza, não se davam conta de que, na verdade, transformaram-se em prisioneiros.

    Então, meu amigo escritor, você é um ser privilegiado por que soube usar todos os seus recursos intelectuais pra contar uma história que já foi contada, mas que com suas roupagens diferentes tornou-se inusitada, nova, surpreendendo a cada capítulo.

    Parabéns! Como disse alguém, o mundo precisa conhecer Eliude Alves Santos!

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    1. Obrigado, Chris! O que tenho tentado fazer com esse livro é dar um caráter pessoal a essa história que parece tão distante e inverossímil. O mito perde a roupagem de mito e ganha uma cara de possibilidade quando você olha pra ele como algo familiar. E como os gregos faziam muito bem no passado, as alegorias passam a nortear o modo como enxergamos as coisas ao nosso redor com mais clareza, pois no fundo, a história é cíclica, e a humanidade sempre comete os mesmos erros e cai nas mesmas armadilhas. Mas a consciência disso pode fazer-nos pelos menos apreciar a beleza de toda essa engrenagem.

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