13 de maio de 2018

Capítulo 41: Os Filhos da Terra

13 maio Escrito por Eliude Santos , , 6 comentários
Talvez fosse a constante e fresca lembrança da vida que tiveram naquela gloriosa Esfera de onde haviam caído que tornava a experiência em cativeiro daqueles pobres demônios ainda mais miserável. Talvez fosse a consciência perturbadora de todas as promessas e expectativas frustradas por escolhas infelizes que os haviam conduzido àquele ponto de onde já não havia retorno. Por vezes chegavam a invejar a ignorância inocente daqueles que haviam sido abençoados com a senilidade dos anos.

Sim, por causa do véu do esquecimento que não somente apaga toda a memória dos espíritos que deixam a presença do Altíssimo para viverem sua experiência mortal, mas que também aos poucos vai esvanecendo sua lembrança das experiências e fatos que vivenciam aqui na Terra, seja no corpo ou fora dele, os filhos dos homens adaptam-se com mais facilidade às mais hostis circunstâncias.

Pandora e Abu haviam há muito sido capturados e mantidos em cativeiro por um bando de símios que assim o fizeram instigados por uma legião de espíritos dissidentes que procurava malograr os desígnios do Criador.

Esses anjos, por não terem passado pelo véu do esquecimento, tinham uma lembrança infalível e um conhecimento perfeito de todas as coisas como haviam sido, como eram e como seriam. E, por isso, sabiam que, se tudo seguisse conforme os planos de Ahman, por terem-se rebelado contra Ele, sua recompensa seria um reino sem glória nas profundezas das Trevas Exteriores, um lugar sobre o qual nada sabiam ou lembravam, senão que dali suas essências há muito haviam sido trazidas para a luz do Cosmos pelo Criador. E para seres que tudo sabem, e cujo poder reside no próprio conhecimento, não há maior punição que ir aonde seu conhecimento não lhes alcança.

Sob o comando de Lúcifer, e com o intuito de frustrar os planos de Elohim, esses anjos haviam-se comunicado com as bestas-feras, convencendo-as a misturarem sua semente com a semente dos filhos dos homens a fim de reclamarem para si uma glória maior do que aquela que a vida silvestre lhes poderia proporcionar.

Muito antes, utilizando-se do veneno do fruto proibido, o próprio Lúcifer expandira a consciência da primeira mulher fazendo com que se rebelasse contra tudo o que tinha experimentado no Jardim, tornando-se senhora de sua própria carne.

Sob o efeito de ervas e infusões, Lilith tornou-se Medusa. E como Medusa explorou cada sensação que a carne lhe permitiu experimentar, compartilhando sua mente e seu corpo com aquela legião de espíritos que, por sua vez, compartilharam com ela de um conhecimento que estava muito à frente daquele que os homens de seu tempo haveriam de possuir. E grandes e assombrosas foram as obras que ela realizou enquanto esteve sob a influência daqueles anjos decaídos.

Foram esses mesmos anjos que guiaram seus pés até o assentamento dos símios, onde ela foi recebida como uma deusa, cuja visita há muito havia sido prometida àqueles primatas.

Mas, despertando do efeito das ervas e infusões, a mulher percebeu-se manipulada por deuses e por anjos, e cortou fora as suas madeixas, tingiu-se de negro e, com ervas e unguentos, mudou a constituição de seu próprio corpo, até que não sobrasse um vestígio sequer daquela que havia sido. E vagou para longe, deixando para trás tudo o que havia tido por certo até então. 

Misturando sua semente com a semente dos filhos dos homens, voltou à caverna dos símios como uma estrangeira.

É comum que animais se lembrem do cheiro daqueles que lhes prestam cuidados, mas o cheiro de Pandora havia mudado. 

Seu cheiro agora era o mesmo do homem que eles haviam há pouco capturado, o mesmo homem que maculara o ventre puro de Pandora com a sua semente. 

Ela já não era uma deusa entre os símios, era um vaso sujo que carregava um broto de vida igualmente sujo dentro de si.

Nascidos os seus rebentos, foram arrancados de seus braços e atirados nas águas como se fossem despojos.

Tão logo seu ventre transbordou em pureza carmesim novamente, foi visitada em seu leito pelos símios mais parrudos do bando.

Seu leito tornou-se seu cativeiro.

O mesmo sucedeu a seu amante, que era visitado pelas fêmeas férteis do bando a fim de que depositasse nelas a sua semente. Embora ele resistisse bravamente, e ficasse ainda mais perturbado quando a mulher ao seu lado era submetida às mesmas investidas, Pandora sempre tivera a impressão de que Abu não se sentia tão violado quanto ela.

Por resistirem, eram tratados com ainda maior violência. Suas carnes eram rasgadas pelas presas e garras afiadas, e seus ossos quebrados pelos socos truculentos dos que queriam impor sua vontade a qualquer custo.

No começo, Pandora e Abu ainda se falavam, planejavam fugas, compartilhavam lembranças do mundo lá fora. Mas o tempo foi-se encarregando de embotar sua memória, talvez para amortecer seu sofrimento.

A cegueira de Pandora tornava todos os seus outros sentidos ainda mais aguçados, assim como suas sensações. E, naquela escuridão, nem mesmo a luz da esperança conseguiu manter-se acesa por muito tempo. 

Os olhos de Abu acostumaram-se à penumbra da caverna, de modo que nada ali lhe escapava. Por vezes, observava as sombras que se projetavam na rocha ao fundo e contava histórias de gigantes e dragões, como aquelas que contava aos seus irmãos ao redor da fogueira.

Mas agora já não era ele o herói de suas histórias. As sombras nas paredes da caverna não contavam histórias de heróis. Elas eram tão cruéis quanto a sua imaginação lhes permitiam ser. Talvez para conformar-se de que, com todas as agruras que ali experimentavam, aquela masmorra era ainda mais segura do que lá fora.

E, aos poucos, foram esquecendo como havia sido lá fora.

Se, no começo, eram levados à força para o tronco ou lançados com violência nas valas da caverna, agora, seguiam como cordeiros obedientes aonde quer lhes mandassem.

Os filhos dos símios eram agora seus filhos.  Pandora e Abu já não eram mais estrangeiros entre eles. 

Na verdade, à medida que aquela nova raça foi enchendo a imensidão da gruta, tendo crescido ouvindo as histórias de seu pai Abu sobre as sombras da caverna, cresceu também a animosidade entre eles e os símios que os haviam trazido à vida.

E tamanha era a força e poder dessa nova raça, que levantaram-se contra os símios e fizeram com que fugissem de sua presença, de modo que os símios deixaram as cavernas e passaram a habitar as copas das árvores de bosques distantes, enquanto os nefilins tomaram a terra.

Quando os nefilins deitavam-se com Pandora, sua mãe, por maior que fosse sua força e violência, ela já não abria a boca, pois eles eram seus filhos e ela acostumara-se à sua rudeza.

Aquela mulher forte e destemida de outrora fora domada sem piedade. Despida de toda a sua humanidade, ela tornara-se tão selvagem quanto aqueles que a haviam domado.

Abu não tinha a mesma relação com os nefilins. De fato, não os chamava de seus filhos; chamava-os de filhos da terra, pois eram para ele uma abominação, um descuido feito possível por um erro da própria natureza. 

Ele era apenas o sultão das que haviam nascido de sua semente, e mestre dos que buscavam suas instruções. 

Aos poucos foi ganhando poder dentro do bando e privilégios na caverna. E já não desejava fugir, pois ali encontrara um séquito fiel, que o venerava, e alimentava os seus delírios de grandeza.

Aquele homem a quem Pandora outrora admirara por sua beleza e vigor, agora lhe causava asco. Não suportava ouvir seus desatinos, nem tampouco saber que a seus filhos encantavam aqueles contos fantásticos sobre criaturas que só existiam na imaginação fértil e perversa de Abu.

Pandora estava farta de trazer novos filhos às penumbras daquela caverna. Estava farta da vida em cativeiro. Estava farta de ser usada por deuses e por demônios, e por homens e por bestas. Estava farta da rudeza de seus filhos e da indiferença de Abu.

Em um momento de fúria e desespero, ela furtou a lança de um de seus filhos que viera deitar-se com ela, e com a obsidiana afiada, arrancou fora o falo ereto do nefilin que caiu por terra gritando de dor.

Seu grito assustou a todos. E houve grande alvoroço na caverna. Pandora atravessou-lhe o peito com a lança, deitando com cuidado a sua cabeça sobre a rocha.

Com lágrimas nos olhos, ela usou a mesma obsidiana ensanguentada para arrancar fora os seus próprios seios, lançando-os aos pés do filho mutilado.

Neste momento, todos já se haviam acercado do lugar de seu cativeiro. Ela, no entanto, concentrou-se na voz de Abu, e correu na direção daquele som que agora lhe parecia tão odioso, alcançando-o rapidamente. 

Com a mesma lança, feriu-lhe a garganta, e usou seu corpo como escudo contra as lanças que os nefilins já atiravam contra ela.

Pandora enfiou-se em uma fenda e usou a lança para defender-se dos filhos da terra que cercavam-na aos montes.

Abu agonizava aos seus pés. Ela queria comover-se, mas já não conseguia. 

O sangue de seus seios dilacerados descia por sobre o ventre. E era como se tivesse centenas de adagas perfurando-lhe continuamente o peito. A dor era tamanha, que já não podia concentrar-se em desviar das lanças que eram atiradas contra a fenda onde havia-se enfiado.

Uma das lanças acertou-lhe a cabeça, e ela sentiu um tranco que lançou-a para trás.

Caiu num rio raso de águas brancas e espantou-se por estar enxergando novamente.

Levantou-se apressadamente e olhou em derredor. Não havia ninguém ali. Nem nefilins, nem a caverna, nem Abu, caído aos seus pés, apenas uma névoa branca e uma ramagem rasteira, molhada pelas águas brancas do rio.

Ela olhou para suas mãos e viu que ainda segurava o falo enrijecido. Mas a ferida aberta em seu peito parecia já não doer.

Ela estava zonza e andava como se não sentisse os próprios pés tocarem a relva.

Alguns passos à frente, dois homens aproximaram-se dela.

“Quem és, estrangeira?”, disseram de longe.

Pandora olhou para o falo em sua mão e para a ferida em seu peito e disse, “Meu nome é Eshu”.


6 comentários:

  1. Que incrível descrição das profundezas da perdição onde as almas desembocam quando se afastam da fonte da vida! Chega a doer a tristeza somente em imaginar. Surpreendente capítulo! Keep ‘em coming!

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  2. O pior que esse inferno é bem real em algumas famílias, muitas Pandoras caladas sofrendo o abuso de trogloditas desrespeitosos. Mulheres quebradas por dentro e por fora das formas mais cruéis.

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