6 de maio de 2018

Capítulo 40: O Fosso


Desde que Hapi fora expulso do arraial por ter seduzido as filhas e filhos de Adão, levando três deles consigo, Samael acompanhava cada passo do primogênito de sua amada com um cuidado quase que paterno.

O anjo caído estava por perto quando Hapi encontrou os templos erguidos por aquela que lhe dera à luz e decidiu ali levantar acampamento.

Cânticos e os tambores deram vida nova àquelas rochas há tanto abandonadas, e Samael alegrou-se ao ouvir a voz do filho de Pandora recitando os rituais gravados por ela no mármore frio. 

A pedido de seu esposo, Luluwa arrancou o mato que crescia no terreiro e sufocava as ervas de cheiro que a primeira mulher havia plantado ali com tanto cuidado. Samael observou as ervas daninhas murcharem aos pés da bela filha de Adão, enquanto ela colhia ramos das ervas de cheiro para preparar as oblações e o incenso que seriam usados nos rituais, conforme gravados nas paredes do velho templo.

Através dos lábios da grande imagem sobre o altar, Samael manifestou-se ao filho de Pandora que, tingido de azul, ajoelhou-se e abriu seu coração após tragar o fumo das ervas que sua esposa trouxera ao altar.

O filho das águas dançou em volta do fogo, banhou-se em água de cheiro e deitou-se com suas esposas sobre o altar ao som de tambores e chocalhos tocados por seu amado Inu, que num frenesi ritualístico, pulava e uivava ao redor dos amantes.

Samael assistiu o momento da concepção e ouviu o choro dos rebentos que nasceram na primeira primavera depois da fuga, e dos que vieram nas primaveras seguintes, até que destes nascessem outros filhos e filhas, enchendo de fiéis os átrios do velho templo.

Manifestando-se como um mensageiro de luz, Samael dava-lhes instruções de tempos em tempos e apossava-se de seus corpos a fim de satisfazer suas concupiscências.

Após o nascimento dos primeiros rebentos, Luluwa e Aklia perceberam que Hapi passara a preferir a companhia do mancebo à delas so bre o altar, e conspiraram em segredo contra a vida de Inu.

Como não há segredos para quem vê através das paredes, Samael fez saber a Hapi o que intentavam suas esposas e disse-lhe que lhes oferecesse uma infusão de ervas amargas para que seus olhos espirituais fossem abertos e enxergassem o fosso escuro para o qual a maldade de seus corações arrastaria a todos de sua casa.

Quando estavam tomadas pelo efeito das ervas, Samael mostrou-se à Luluwa e Aklia e disse-lhes que abrandassem o seu coração, pois o amor de seu esposo haveria de esfriar se chegassem a levar a efeito os seus torpes intentos.

Ambas despertaram aos prantos e correram aos pés do mancebo para confessarem sua fraqueza. Inu acalmou seus corações aflitos e foi ao campo buscar seu amado.

Samael estava por perto quando os quatro deitaram-se juntos sobre o altar; e, juntos, expurgaram com carícias e beijos o veneno que lhes corrompia a alma, de modo que a lei de sua casa já não era mais a lei da casa de seus pais.

Inu passou a cobrir seu corpo de azul, como fazia o filho das águas, de modo que haviam-se tornado um. E todos os seus filhos eram filhos de Hapi e todos os filhos de Hapi eram seus filhos. 

Luluwa e Aklia já não eram mais suas irmãs: cobertas com flores de lótus, elas eram, para eles, duas deusas da fertilidade, e grande tornou-se a sua prole.

E Samael acompanhou cada passo dos patriarcas e matriarcas daquela casa, e de seus filhos e dos filhos de seus filhos, instruindo-os sempre que procuravam o templo em busca de mais luz e conhecimento.

E assim foi até que um tremor abalou as estruturas da dimensão etérea na qual Samael existia e fez com que o arcanjo caísse por terra atordoado.

Ao levantar-se sem saber ao certo o que havia acontecido, olhou em derredor e percebeu-se envolto por uma grande névoa de escuridão que parecia cegar-lhe para tudo o que se passava entre os mortais. Ouvia suas vozes distantes, mas já não podia enxergar com clareza nada ao seu redor. O próprio entorno etéreo escurecera como num dia de tempestade.

Ele projetou-se na direção do estrondo e num piscar de olhos alcançou as margens do Kibaranun, onde seu mestre contemplava o horizonte cinzento.

“O que houve, Lúcifer?”, perguntou Samael.

“Os portões de Havilah foram fechados e todas as estrelas da manhã lançadas de volta à escuridão. Já não temos mais onde recostar a cabeça e a miséria há de ser nossa recompensa até o final dos tempos.”, disse o Filho da Manhã com grande cólera.

“O que dizes, meu senhor?”, assustou-se Samael.

“Abel, o pastor de ovelhas, infiltrou-se em nosso meio como um lobo vestido em pele de cordeiro, e arrebanhou os espíritos dos que haviam sido trazidos a esta esfera etérea após terem passado pelo véu do esquecimento a fim de aguardarem entre nós pelo seu nascimento na carne. Revelando-lhes a ínfima porção de verdade da qual é conhecedor, ele lhes convenceu de que seu poder excedia o nosso, e incitou-lhes a levantarem-se contra nós.

Juntos, eles se apossaram de nossas casas e de nossos bens, e expulsaram todas as estrelas da manhã da grande cidade de Havilah, cujos portões foram cerrados e selados a fim de que não mais pudéssemos voltar. E o fosso que circundava nossos domínios foi alargado e virou um grande abismo, e as pontes que nos conduziam da cidade das luzes ao mundo escuro e triste dos mortais caíram em suas profundezas.”,  lamentou Lúcifer.

“Mas a luz, mesmo lançada às trevas, sempre encontra uma fresta para resplandecer.”, disse Samael, na tentativa de animar seu mestre, “Assim como Abel se infiltrou em nosso meio e usou sua influência para dar poder àqueles que nos serviam, podemos também nos infiltrar em seu meio e usar nossa luz para tomar de volta o que é nosso.”

“Ele é apenas um peão no tabuleiro do Criador.”, disse Lúcifer. “O abismo entre o Paraíso que construímos e esta Prisão aonde eles nos colocaram há de perdurar sem passagens ou pontes até o Meridiano dos Tempos, quando o Filho do Homem descer a esta esfera para realizar a segunda barganha. Dessa vez, eu serei a Velha Serpente, e terei arrastado muitos dos que se ajuramentarem com o Filho do Cordeiro, a fim de que desçam às profundezas de nossa miséria e sofram conosco de todo o tormento que a indiferença do Criador nos causa. Eles se sentirão sozinhos e sem esperança, e tamanha será a sua angústia, que desejarão nunca ter existido.”

Samael sabia que seu mestre não descansaria enquanto não levasse a efeito os desígnios de seu coração, e ajuramentou-se com ele, oferecendo-lhe todo o seu poder, mente e força até o fim de seus dias.

E juntos fizeram reunir uma legião dos espíritos que haviam sido atirados àquela prisão escura e desoladora com o intuito de planejarem toda sorte de armadilhas e artimanhas que usariam para ludibriar os filhos dos homens a fim de que, chegado o momento de sua passagem do mundo dos mortais para e esfera etérea de onde haviam saído, tornassem-se prisioneiros de sua própria consciência, de modo que não conseguissem mais encontrar o caminho de volta àquela cidade das luzes, sufocados pela escuridão de seus próprios pensamentos, palavras e ações.

“Farei desta Prisão um inferno, um fosso de agonia e desespero, onde os espíritos de todos os que morrerem em corrupção serão torturados por seus próprios medos e culpas. Plantaremos dia a dia a semente da iniquidade no coração dos filhos dos homens e a nutriremos como nunca antes fizemos, e grande será o pesar daqueles em que esta semente encontrar um terreno fértil.”, disse Lúcifer em sua fúria.

“Como faremos isso, agora que esta névoa de escuridão desceu sobre nós?”, indagou Samael.

“Os fumos e os licores, os vinhos e o levedo da cevada, o manjares feitos com raízes fortes, o cheiro suave das oferendas em decomposição, os pequenos cristais das misturas alquímicas, o sumo de tudo o que afeta a mente do homem e acelera ou desacelera seu funcionamento natural abrirá espaço para que plantemos nela a nossa semente, ou nos comuniquemos mais diretamente com eles, tal qual fizemos com Pandora e, mais recentemente, com os filhos das águas, e os filhos da terra.”, explicou Lúcifer.

“E o que lhes diremos?”, perguntou Samael.

“Aos medrosos, alimentaremos seu medo; aos questionadores, responderemos suas perguntas; aos enfermos, seremos sua cura; aos sadios, sua doença; aos covardes, sua fuga; aos corajosos, seu desafio; aos crentes, reforçaremos aquilo em que acreditam; e aos descrentes, daremos provas que reafirmem seu desapego sem que sequer deem-se conta de nossa influência; e a todos eles distrairemos com ocupações que desviem seus passos daqueles que foram traçados para eles pelo Criador quando para cá os enviou.”, disse Lúcifer. “E chegado o dia em que seu corpo astral se desprenda do corpo físico, seguirão cheios de culpa pelo tempo que perderam em vida e se tornarão presas fáceis que capturaremos e arrastaremos para esta prisão aonde fomos todos lançados. E este fosso será um lugar de pranto e ranger de dentes. E seus gritos de desespero e de dor serão música para os nossos ouvidos, porque serão a celebração de nossa vitória.”

“Como eles engrossarão nossas fileiras, se seremos os seus algozes? Na primeira oportunidade, não te parece que eles escolheriam fugir desta prisão?”, perguntou Samael.

“Algozes? Nós não lhes faremos mal algum. Eles mesmos chicotearão uns aos outros com a falsa ideia de poder e domínio que será sua maior distração. Os que recebem o chicote não saberão que o receberam de nossas mãos; a eles lhes parecerá que o receberam por mérito próprio. E os que forem chicoteados não nos culparão pelas chibatadas. Culparão a si mesmos ou ao Deus que lhes deu tão miserável vida. E tamanha será sua culpa, que sequer perceberão que bastava levantarem-se em grande número para destronarem aqueles poucos que possuem suficiente poder para lhes afligir. E ainda que alguns se levantem, ao derrotarem seus algozes, segurarão o chicote em suas mãos e se tornarão opressores ainda mais ferozes daqueles que lhes ergueram a tão cobiçada posição.”

“Mas se nos mantivermos ocultos, como faremos com que tomem o nosso lado quando a grande batalha final for travada?”

“Não nos materemos ocultos, Samael. Quando estiverem no ápice de seu sofrimento, nós iremos ao seu encontro, como seres de luz, e lhes mostraremos toda a abrangência de sua miséria e lhes ofereceremos a mão, e eles nos estenderão a sua. E suplicarão para que os tiremos daquele fosso escuro para o qual foram lançados.

Naqueles dias, já teremos recuperado a cidade das luzes, pois o Cordeiro terá descido entre os seus e reerguido as pontes sobre o fosso que separa esta Prisão do Paraíso que aqui erguemos. E aos oprimidos anunciaremos as grandes novas de que a salvação está ao seu alcance e que somos os Deuses que eles tanto buscaram. E, por não saberem o que é um Deus, nem conhecerem a natureza de um Paraíso, sentir-se-ão seguros ao nosso lado.

E quando os filhos de Miguel vierem com seu evangelho, falando de deuses de carne e ossos, e de céus em astros distantes, e dizendo que todos que os seguirem podem ser deuses naqueles céus que foram preparados para eles por um Pai que nunca viram, eles apontarão para mim e dirão: ‘Blasfêmia! Este é nosso Pai e este é nosso Céu, não há nenhum outro. Quando estávamos no fosso de nossa miséria, Ele nos resgatou e nos mostrou a verdade, que é clara como a neve. E a Ele prestaremos reverência para sempre.’ E, se os filhos de Miguel quiserem levantar-se com espadas para salvarem seus irmãos de nossos domínios, eles voluntariamente pegarão em espadas para nos defender. E assim, arrebanharemos um outro terço dos filhos do Altíssimo. E com poder e grande glória, nos assentaremos triunfantes em seu trono.”


4 comentários:

  1. E bem dizer que os indivíduos no “Fosso” viviam com Deus sem o véu do esquecimento e tinham conhecimento perfeito de Seu Plano, e, mesmo assim, o desejo de seus corações foi a rebelião, e por isso nunca terão uma segunda chance porque escolheram, mesmo assim, acreditar nas ilusões de Lúcifer, que levou uma parte, mínima se considerarmos a eterna criação. Descrição incrível de um plano destinado a fracassar tamanha as lamúrias da escolha inconsequente. Muito bom!

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  2. Tudo começa com pequenas e inofensivas escolhas: a escolha de ser, a escolha de estar, a escolha de experimentar, a escolha de ficar, a escolha de permanecer... No fim, cada um recebe exatamente o que procura. Aos olhos de terceiros, certas escolhas podem parecer loucura. Aos olhos de insensatos, as próprias escolhas podem parecer loucura. Mas aos olhos Daquele que tudo sabe, todas as escolhas eram previsíveis. E por serem previsíveis, tudo foi arquitetado para que no final, cada um recebesse exatamente aquilo que procurava e sentisse que teve algum êxito em sua jornada, até mesmo os loucos! Afinal, sua loucura é que permite que haja oposição, um ingrediente essencial para que alguns poucos se iluminem ao ponto de compreenderem a mente divina.

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  3. Sim, afinal a preocupação máxima do Onipotente eh justamente manter o arbítrio, enquanto de Lúcifer eh receber a glória que somente Ele tem no momento, por isso suas tentativas estão fadadas ao fracasso, pois não existe sucesso sem virtude, já que o que vem da corrupção não dura.

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  4. Exato, o êxito sem virtude, ainda que seja de fato êxito, é efêmero.

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