18 de fevereiro de 2018

Capítulo 39: O Confronto

18 fevereiro Escrito por Eliude Santos , , 6 comentários
Do mirante da grande nave, os arcanjos governantes assistiam a tudo e consultavam-me vez ou outra acerca de detalhes mais precisos, já que todos os pormenores me eram reportados pelas sentinelas que haviam sido espalhadas pelos quatro cantos do novo mundo a fim de registrarem cada detalhe do que se passava lá embaixo, fosse na esfera mortal ou nas dimensões mais finas da matéria.

“O que pensas sobre isto que acabaste de nos relatar, Udiel?” Yahweh aproximou-se de mim apoiando Sua mão sobre meus ombros e consultando-me a alma.

“Percebo que a mulher amadureceu grandemente, meu Senhor. Enquanto o homem parece estar sempre se escondendo atrás de muralhas e escudos, como se esperasse pela orientação de oráculos ou por um sinal dos céus para saber que direção deve tomar; ela age, a despeito de todos os riscos que corre, pois compreende que, se não estamos intervindo, é porque está entregue à sorte de suas próprias escolhas.” Respondi.

“Ainda assim, sugeres que intercedamos em favor dela.” Gabriel me interrompeu. “Não percebes as implicações que recairiam sobre todos nós?”

“Sim, meus Senhores, sei que somente nos é permitido soltar os nós que o homem não for capaz de desatar por si próprio. No entanto, como esperais que este nó se desate sozinho? 

Adão e seus filhos seguem na direção do bosque como cordeiros correndo para o matadouro. Eva arrastou-se com dificuldade até a fenda de uma rocha em busca de abrigo e chora por ter tirado a vida do beremoth na esperança de que, saciando a fome das bestas selvagens, elas se detivessem por ali um pouco mais, dando-lhe tempo de voltar ao Vale a fim de convencer o esposo e filhos a procurarem algum outro lugar seguro para habitarem.

No entanto, viu-se encurralada e, ainda que tenha conseguido esgueirar-se até um esconderijo, não tarda a ser encontrada pelos dragões que se espalham pelo bosque.

Quem dissuadirá Adão de prosseguir com o ataque? Como haverá de triunfar se não intervirmos de algum modo? 

Caim e Nod seguiram para as terras do Oriente e ocupam-se ali de sua própria prole. Hapi e sua comitiva seguem os passos de Lilith, que ora chama-se Pandora e padece ao lado de Abul na caverna dos Nephilins. E bem sabeis que em favor destes últimos há muito clamo por vossa intercessão. 

No entanto, ainda que fossem libertos e alertados, não chegariam a tempo de socorrer a mulher ou de impedir que o homem pusesse em risco a todos os que ficaram no Vale diante desta repentina ameaça.

Não há mortal algum que possa livrar os filhos da aliança de um fim iminente.”

“E o que sugeres que façamos?” Perguntou Gabriel. “Não há nada de iminente nesta ameaça, meu irmão. Lúcifer tem sido diligente em sua obra e seduziu os filhos de Adão para que transgredissem as leis de sua casa e fossem dispersos. Ele insuflou de ódio o coração das bestas selvagens para que se levantassem contra os homens com grande fúria. E um exército de Nephilins se ergue contra aqueles que desceram para as terras do oriente. E tudo isto ele fez porque sabia que em tal situação, seríamos compelidos a intervir; e bem sabes o alto preço que pagamos por nossas intervenções.”

“Sim. Conheço as leis que regem nossa conduta.” Respondi, “Assim como conheço as leis da compensação universal que estabelecem os limites de nossas leis, de modo que cada intervenção nossa será futuramente cobrada nas gotas do sangue do Cordeiro que hão de ser derramadas em decorrência das transgressões dos filhos dos homens. 

Gotas que serão arrancadas uma a uma, não pelas mãos de homens, mas pelas mãos violentas dos espíritos decaídos que se sentirem vilipendiados por nossas ações. 

Como abutres sanguinários, enfiarão suas garras imundas e afiadas nas carnes imaculadas do Cordeiro, chafurdando-lhe as entranhas com toda sorte de flagelos, de modo que os pregos, lanças e chicotes usados mais tarde pelos homens que se opuserem ao Seu ministério em nada se compararão à tortura que Ele terá sofrido pouco antes de ser levado por eles em cativeiro. 

Sentindo-se sozinho, tremendo de dor, e temendo fracassar sob tão pesado jugo, o Seu sangue escorrerá de cada um de seus poros como se fosse suor, enchendo a taça de Perdição, para que com este sangue os espíritos decaídos possam garantir a sua herdade e estabelecer seus domínios além do alcance da influência do Criador, como foi feito em outros mundos.”

“E, diante de tudo isto, ainda acreditas que devamos intervir?”, indagou Gabriel. “A escolha é do homem. Havendo equívoco, haverá adversidade. As consequências de tais equívocos, ao contrário da culpa, não recaem somente sobre os ombros de quem cometeu o erro; elas respingam sobre todos. Amenizar tais consequências seria agir contra o próprio curso da natureza. Não podemos roubar do homem a oportunidade de perceber a miséria que más escolhas podem ter causado e, usando seu próprio poder e influência, redimirem-se no sacrifício ou na própria renovação promovida pelo ato redentor.” 

“Gabriel está certo.” Yahweh aproximou-se da orla do mirante. “Assim como está Udiel.” Disse voltando-se para nós. “O preço para escoltarmos Eva em segurança de volta ao Vale, ou para engrossarmos as fileiras do exército de Adão com querubins e espadas flamejantes que derrotem seus inimigos é de fato muito alto. Não podemos correr este risco. 

No entanto, assim como Lúcifer tem sido diligente em sua obra, também nós temos nos precavido desde o princípio dos tempos. De todas as bestas que criamos, a carne do beremoth é a que mais causa a sensação de saciedade, de modo que sendo ingerida, pesará nas entranhas das bestas selvagens, de modo que cairão num sono profundo. 

E, se Eva tem atentado para as palavras de seu marido, nesta hora de grande aflição, dobrará seus joelhos em busca de instrução divina. No próprio ato da meditação, encontrará a calma que precisa para tomar a decisão mais acertada.

Na súplica, perceberá a situação com clareza e seu coração pulsará mais forte quanto ao que lhe cabe fazer. Correrá de volta pelo mesmo caminho que veio e encontrará seu marido antes que ele alcance o bosque de ciprestes e desperte as bestas enfurecidas, de modo que uma intervenção divina direta sequer será necessária.”

E assim foi. Em meio ao alvoroço, Eva dobrou seus joelhos e abriu seu coração de modo que sua alma ficou leve. E enquanto clamava ao seu Senhor, houve silêncio no bosque.

Ela espiou na direção da carcaça do beremoth e viu que as serpentes aladas se retorciam umas sobre as outras ao redor do grande touro.

Eva caminhou sorrateiramente por entre as serpentes e seguiu em frente até deixar o bosque sem ser percebida. 

Quando avistou Adão e seus filhos armados com lanças e escudos, fundas e arcos, vindo em sua direção, como se aquelas armas pudessem causar qualquer dano àqueles dragões enfurecidos, ela acenou para que parassem e correu até o seu esposo.

Não havia tempo de voltarem ao Vale. Ela contou-lhes o que vira no bosque e explicou-lhes o perigo que corriam se ficassem ali. 

Adão não queria abandonar tudo o que haviam erguido com o suor de seu rosto, mas percebeu que não havia outra opção.

Contornaram o bosque e seguiram na direção do sol nascente.

Eles não estavam preparados para aquela viagem. Haviam ajuntado armas e não provisões. Mas usaram os arcos e lanças para caçarem pelo caminho. 

Já estavam longe quando viram os dragões levantarem voo e seguirem na direção do Vale.

Encontraram abrigo em um monte. Adão deu ao lugar o nome de Shiloh, que era o nome de sua filha mais nova. E naquele monte ergueu um altar.

Ao lado do altar, construiu uma palestra, ainda maior que aquela que construíra no Vale. E ao redor dela, levantou 33 casas para habitação, uma para cada casal dos filhos que lhes haviam restado.

No monte, Eva concebeu e deu à luz um único filho, e chamou-o de Seth. Havia muito tempo que Eva não tinha filhos, e este não veio acompanhado de um igual como os demais. 

Quando as parteiras entregaram o rebento em suas mãos, Adão o ergueu diante do altar e chorou.

“Por que choras, meu esposo?”, aproximou-se Eva com dificuldade e tomou o bebê em seus braços.

“Eu menti para ti, eu menti para nossos filhos. E destruí nossa casa com minhas mentiras.”, chorou Adão.

“Do que estás falando?”, preocupou-se Eva.

“Eu só queria proteger-vos. E vos fiz acreditar que o Altíssimo falava comigo no topo dos montes, quando na verdade, tudo o que vos disse sair de Sua boca, saía de fato da minha própria.”, confessou Adão.

“Não te preocupes com isso agora, meu querido. Fizeste o que precisava ser feito para pôr ordem em nossa casa.”, Eva procurou acalmá-lo.

“A que custo? Olha o que sucedeu a nossos filhos. Tudo isto é minha culpa. Construí um altar longe dos vossos olhos porque precisava que tivésseis confiança em minhas palavras, afinal, que experiência tinha eu como pai antes de sê-lo de fato? Eu temia que não confiaríeis em mim se me vísseis dobrar tantas vezes os joelhos diante de uma oferta que aos vossos olhos pareceria não ser aceita.”, reclamou Adão.

“Se o Altíssimo não se apresentou diante de ti nem te enviou mensageiros todo esse tempo é porque confia em tua capacidade de tomar decisões pelos teus. 

És um bom pai e um bom esposo. Não te culpes pelas transgressões de teus filhos.”, disse Eva com firmeza.

“Que transgressões cometeram eles? E contra quem? Eu sou o grande transgressor. Sobre mim deveriam ter recaído todos os julgamentos do Altíssimo. 

Quando deixamos Sua presença, recebemos Dele somente três mandamentos, no entanto, enchi nossa casa de regras que brotavam do meu medo de que nossos filhos sofressem neste mundo escuro e triste que habitamos. O meu medo me cegou. E o que colhemos destas regras cegas, senão ainda mais pranto e tragédias?”, queixou-se Adão.

“Mas agora teus olhos estão abertos, e é isto que importa.”, Eva o confortou. “Este rebento será o primogênito de um novo patriarcado, um patriarcado de verdade e justiça. Deixaremos para trás a cegueira e o medo e nos guiaremos pelas veredas da verdade.”

Segurando o bebê em seu colo, Eva deu ordem às filhas que lhe haviam ajudado no parto de que fossem buscar seus outros irmãos e disse ao esposo que pusesse a lenha sobre o altar.

Adão não tinha um cordeiro para ofertar ao Altíssimo, como fizera por ocasião do nascimento de todos os seus outros filhos.

“O que haveremos de colocar sobre o altar?  Não há cordeiros nem cabritos, nem pombas nem bezerros em nosso aprisco.” Disse ele à sua esposa.

Eva entregou o bebê em suas mãos e disse, “Há algo ainda mais valioso para ofertar, meu esposo. Nossos corações ainda batem em nosso peito, bombeando vida para este amontoado de carne e ossos que cobre nosso espírito. Ainda que quebrantado pelas adversidades que temos enfrentado, nosso coração é o símbolo maior de nossa força; e não ofertaremos somente o coração, ofertaremos também o nosso espírito, esta essência pensante cujas vibrações transformam pensamentos em ações; e, no brilho de nossos olhos, reflete quem somos de verdade. Ainda que contrito pelas falhas que cometemos em nossa ignorância, nosso espírito é o símbolo maior de nossa vontade.”

“Como pretendes arrancar de nosso peito o coração e de nossa alma, o espírito, para os dispormos em sacrifício sobre o altar?” Disse Adão ainda confuso.

 “Acabaste de fazer isto quando verteste tuas lágrimas sobre o altar. Eram lágrimas sinceras de um homem que se percebeu tolo e inadequado como uma criança indefesa. Era um choro honesto de um bom pai que se percebeu intolerante e orgulhoso. Era a lamentação genuína de um governante que se percebeu perdido e amedrontado. Ofereceste uma oferta maior que qualquer cordeiro branco e sem manchas, ofereceste as lágrimas de tua fraqueza diante do altar Daquele que te fortalece.”, disse Eva.

“Ainda assim, os céus não se abriram nem anjo algum desceu para aceitar tal oferta.”, reclamou Adão.

“Mas na disposição de tuas fraquezas sobre o altar, percebeste em que deves aplicar a tua força e vontade a fim de mudar o curso de teus dias. Se foi o Altíssimo que te disse em silêncio o que deves fazer, ou se foi tua própria razão que fez-te ver com clareza o que te fará mais feliz, não importa. 

O que importa é que sabes o que precisa ser feito para que teus dias como homem, pai e governante de teu povo sejam melhores do que tem sido.”, disse Eva.

Adão colocou sua mão erguida em ângulo reto sobre o ombro de sua esposa, enquanto segurava no outro braço o rebento. Rodeados pelos filhos que também se dispuseram de mesmo modo, cada irmão apertando com a mão direita a mão de sua irmã ao seu lado esquerdo e erguendo o braço esquerdo sobre o ombro de quem estava à sua esquerda, ajoelharam-se em um círculo ao redor do altar vazio, cujo fogo subia aos céus com um cheiro diferente.

Aos abrirem os olhos, viram uma coluna de luz descendo sobre o altar.

Pairando no ar, três mensageiros desceram em grande esplendor até pisarem levemente a soleira de seus pés sobre o altar em chamas.

“Eu vos conheço,” disse Eva.

“Sim, visitamos a ti e a teu esposo em outra ocasião, mas não vos tínhamos então revelado a nossa glória.” Disse o primeiro arcanjo. “Eu sou Sanvi, e estes são Sansanvi e Semanguelai. Somos mensageiros enviados da presença do Altíssimo e temos acompanhado vossos passos neste mundo escuro e triste, desde o dia em que fostes expulsos do Jardim.

Vimos que o Filho da Manhã e seus ministros infiltraram-se em vosso meio e vos ensinaram toda sorte de falsas doutrinas, distorcendo a verdade que o Altíssimo plantou em vossos corações na tentativa de vos corromper.” 

Sansanvi aproximou-se de Adão e Eva e disse-lhes, “Em um tempo distante para vós mas muito próximo para nós, quando o Cordeiro do Altíssimo descer entre os homens, nós também haveremos de habitar um tabernáculo mortal como este que ora reveste a vossa essência eterna. Para que isto aconteça, no entanto, deveis cumprir o que o vosso Pai vos ordenou, multiplicando-vos e espalhando-vos pela Terra.”

Ao que Sanvi completou, “Naquele tempo, nosso conhecimento será embotado pelo véu do esquecimento e, como vós, andaremos errantes até sermos resgatados de nossa ignorância por Aquele que tudo sabe. 

Apesar dos nossos erros e da fraqueza que pesará sobre nossos ombros e nos puxará para as profundezas quando procurarmos acompanhar os passos de nosso Senhor, seremos escolhidos como testemunhas do grande milagre da redenção.”

Semanguelai pôs-se no meio dos dois arcanjos e disse, “Confiai em nós, pois vasculhamos as paredes do tempo e vimos o que há de vir. Naquele tempo, Sansanvi e eu nasceremos do mesmo ventre que trará ao mundo o nosso Salvador. Mas, por acharmos ser menos amados que o Filho da promessa, fugiremos da presença de nossos pais. Lavaremos o pó de nossa infância nas águas de nossa mocidade, como que querendo nascer de novo.”

“E nasceremos,” completou Sansanvi, “pois o nosso Irmão mais velho nos resgatará das águas fétidas de nossa ignorância e colocará sobre nossos ombros um manto novo. Ele perdoará nossas ofensas e nos apontará como governantes em seu reino.”

“E eu,” disse Semanguelai, “que na infância de minha mortalidade sofrerei ao sentir-me rejeitado por ser fruto da semente que maculou o ventre santo daquela que trouxe à luz um Filho sem conhecer homem algum, serei de todos o mais amado, de modo que as visões que receberei do Altíssimo assombrarão a muitos.”

“Por isto, sabei, que não é de homens perfeitos que é feito o reino.” Disse Sansanvi. “Nossas falhas são martelo e cinzel ferindo o mármore bruto de nossa essência até moldarem-nos em peças únicas e imensamente valiosas.”

Ao que Sanvi completou, “O Altíssimo conhece vossas falhas e transgressões, ainda assim escolheu a vós para iniciar a grande obra de colonização deste novo mundo.” 

Os filhos de Adão, que nunca haviam visto algo tão assombroso, tremiam e estremeciam e haviam caído por terra. 

Os mensageiros, percebendo tamanha comoção, andaram por entre eles, acalmando seus corações e dizendo-lhes que se pusessem de pé.

“Ouvi, portanto, as boas novas e recebei esta nova lei que vem do Altíssimo a fim de que possais fazer de vossa casa uma casa de ordem. E se fizerdes conforme vos dissermos, Satanás e seus anjos não terão lugar em vosso meio e vivereis em paz.” Sansanvi ergueu sua voz no Monte Siloh.

“O que vos une a todos? Talvez penseis que seja o sangue, que tornou férteis os vossos vasos e vos fez semelhantes ao Altíssimo, o sangue que vos faz Criadores de vida como Ele é. Mas eu vos digo que não. 

O que vos une é o amor. E amor é conhecimento. Pais amam seus filhos quando se permitem enxergar o mundo pelos olhos deles. Filhos amam seus pais quando se permitem fazer o mesmo. Enxergar com os olhos do outro é o que gera conhecimento.

Eis que esta é vossa primeira lei, e a maior lei de todas: enxergai a tudo com os olhos de vosso Pai que está nos Céus. Ele vos criou e vos colocou neste mundo para que possais amadurecer na escuridão.”

“E a segunda lei, maior do que esta, é”, disse Semanguelai, “enxergai a tudo com os olhos de vossos irmãos, sejam eles vossos amigos ou inimigos, pois nisto consiste a verdadeira sabedoria, que é o amor perfeito.”

“Se estas duas leis maiores guiarem os vossos passos e iluminarem as vossas decisões, tudo irá bem convosco.”, disse Sanvi.

“Também vos advertimos a agir com seriedade em todas as coisas. Não caçoeis das fraquezas alheias nem façais, do que vos é estranho, motivo de risos escandalosos e frivolidades. Não aponteis o dedo do escárnio para aqueles que são ou agem diferente de vós.”, advertiu Sansanvi.

“Uma nação que zomba daquilo que não conhece, logo transita do riso para o medo, e do asco à violência. O amor murcha e a paz foge como um pássaro assustado.”, completou Semanguelai.

“Nações são governadas por homens falhos. E suas falhas serão um espelho das brechas abertas pela maioria daqueles que por eles são governados, de modo que, se fordes honestos, tereis governantes honestos; mas se vossas mentes e vossos corações não se compadecerem dos aflitos, também não se compadecerão as mentes e os corações daqueles que portam entre vós o cetro da justiça; e se apontardes as falhas desses que vos haverão de governar, estais somente apontando a falha da maioria daqueles a quem eles governam, e de nada vos adiantará tal compreensão se não vos empenhardes como um todo em fechar tais brechas. Então, não procurai ao Altíssimo inutilmente, porquanto Ele não se moverá de Seu lugar santo para livrar-vos da cova que cavastes para vós mesmos. Antes, buscai conhecimento e endireitai vossas veredas a fim de que vos abstenhais de qualquer prática impura e mundana.”, disse Sanvi.

“E por prática impura e mundana, deveis entender, tudo aquilo que vos faz sofrer ou faz com que outros sejam diminuídos em vossa presença. Pois a vossa paz está naquilo que vos traz alegria e união.”, completou Semanguelai.

Palmas foram ouvidas na escuridão, onde a luz da fogueira e dos mensageiros celestes não alcançava. As palmas foram seguidas de um riso seco.

“Eu sabia que vos conhecia.” Disse a voz daquele que falava das trevas. E voltando-se para o outro que estava ao seu lado, disse, “Sabes quem são estes homens? Eles dizem ser apóstolos do Cordeiro.”

“O que são apóstolos?”, disse o personagem que estava ao seu lado.

“É uma palavra que ainda há de ser inventada pelos homens quando estiverem atirando pedras sobre as águas.”, disse Lúcifer, aproximando-se da luz.

“Como assim?” disse o pregador que o acompanhava.

“Já atiraste pedras contras as águas e viste-as quicando três ou quatro vezes até afundarem à distância?”, perguntou Lúcifer.

“Não, meu senhor.”, disse o pregador.

“Se fosses um pescador, saberias do que estou falando. Pescadores costumam fazer isso de um lado do rio para espantar os peixes a fim de que outros pescadores lancem suas redes do outro lado do rio e os capturem.”, explicou o tentador.

“O que isto tem a ver com estes homens, meu senhor?”, disse o pregador.

“Aquele ali é a pedra e os outros, os pescadores. Aprenderão a fazê-lo com um homem mais sábio que eles e se tornarão seus discípulos, aos verem as suas redes cheias de peixes.”, disse Lúcifer.

“Sois apóstolos do Cordeiro?”, perguntou o pregador.

“Sim, somos.”, disse Sanvi.  “Eu sou Pedro, a pedra sobre a qual será alicerçada a igreja do Cordeiro, a pedra que quicará sobre as águas e espantará os peixes que encherão as redes dos pescadores. E estes são Tiago e João, e outros serão chamados para pescar com eles. Somos os mensageiros do Altíssimo, enviados para iluminar o caminho dos errantes com profecias e palavras de sabedoria.”

“Fui instruído a não dar crédito a revelações e profecias, mas se sois quem dizeis ser, por que não cortais um braço ou uma perna e fazei-os crescer novamente diante dos olhos de todos, a fim de que saibamos que tendes de fato algum poder?”, disse o pregador.

“Em que isto vos beneficiaria?”, indagou Semanguelai. 

“Satisfaria a nossa curiosidade.”, disse o pregador.

“Não costumamos agir com este propósito. O homem deve usar sua curiosidade para coisas mais produtivas.”, disse Sanvi. “Sabeis quem é este em cuja mansão encontraste abrigo e cujas palavras tem sido luz para o teu caminho?”

“Sim. Ele é um dos iluminados, é o próprio senhor deste mundo.”, disse o pregador.

“Ele foi de fato, dos anjos de luz, o mais brilhante de todos. Mas foi expulso da presença do Altíssimo e tornou-se o grande opositor do plano de felicidade do Criador.”, disse Sanvi.

“Deves estar enganado, meu senhor. Este é o homem mais cordial e sensato que eu conheço. De certo que é um dos iluminados.”, insistiu o pregador. “O opositor do Altíssimo já me foi mostrado em sonhos e visões, ele usa uma coroa pontiaguda sobre sua cabeça e o salto de suas alparcas faz o barulho de casco de cavalo quando anda. Quando fala, sua voz pode ser ouvida à distância, como quando ruge um leão. E grande é o rastro de sangue por onde passa, pois sua espada é afiada e pesada como as garras de um urso.”

“O que viste foi, na verdade, um, entre os muitos governantes da terra que se erguerão entre os filhos dos homens com grande poder e autoridade. E só ocuparão tais posições por receberem apoio dos próprios governados. Eles se apresentarão como salvadores, mas são de fato aves de rapina. Ainda que se oponham à liberdade e felicidade do homem comum, eles garantem grandes benefícios àqueles que lhe servem. No entanto, ainda que grande seja seu poder e domínio na Terra, diante do fio da espada de um opositor mais forte que eles, tornam-se tão vulneráveis quanto qualquer outro. Este ao teu lado está acima de todos eles. Sua rixa não é com os homens, mas com o próprio Criador.”, explicou Sansanvi.

“E diabo é apenas um dos nomes pelos quais atende.”, completou Sanvi. “Ele te mostrou tais coisas a fim de te confundir. Volta para os de tua casa e aguarda em paz o tempo de teu nascimento.”

“Os de minha casa andam errantes pelo mundo, esperando o dia de sua partida. Eu fui resgatado da ignorância pelo meu senhor e tenho servido entre os desgarrados a fim de mostrar-lhes a luz do conhecimento que me libertou. Servindo ao meu senhor eu sou coparticipante de todas as suas riquezas. Se eu deixar a sua casa e sua companhia, o que será de mim?”, disse o pregador.

“Quando chegar a hora, conhecerás a luz deste mundo através da posteridade de Adão e receberás um conhecimento ainda mais perfeito que este que teu mestre te revelou.”, disse Sanvi.

“Parece um bom negócio.”, observou o pregador. “Quanto me pagarias para servir ao vosso lado? Meu mestre me disse que servos sem salário são escravos. E não quero deixar todos os benefícios que já alcancei para servir como escravo de quem quer que seja.”

“Comunica ao teu mestre a tua escolha e conversaremos sobre tua recompensa quando chegar a hora.”, disse Sanvi.

O pregador estendeu a mão para o seu mestre que observava a tudo com um cinismo ímpar.

“Estou pronto para receber o meu salário por todo o tempo que servi ao teu lado.”, disse o pregador ao seu senhor.

“Teu salário?”, Lúcifer deu uma gargalhada. “Nosso acordo era de que levasses minha palavra aos confins da Terra, libertando os que andam errantes de sua ignorância. Mas diante do primeiro contra-argumento, foste facilmente convencido. Não és um bom pregador e não mereces nem mesmo o que já te dei, de modo que estão confiscadas todas as tuas propriedades e não tens mais lugar em meu reino. Não quero esta espécie mesquinha de homem sujando a honra de meus domínios.”, disse Lúcifer.

O pregador lembrou-se de tudo o que havia lucrado até então com aquele acordo e correu na direção dos portões da grande cidade antes que o decreto de seu senhor fosse levado a efeito, mas não mais encontrou o tal portão, nem tampouco o caminho de volta à casa de Adão. E vagou errante até o dia em que deixaria aquele limbo em que vivia para ser trazido, de fato, à luz deste mundo, sem lembrança alguma de nada que lhe ocorrera.

“E vós, o que fazeis em meus domínios?”, disse Lúcifer num tom de afronta.

“Não queremos nada contigo.”, disse Sanvi.

“Decerto que vistes a grandeza e glória dos meus domínios e viestes para vos apossar do que é meu por direito.”, disse Lúcifer. “Mas digo-vos algo. Se quaisquer destes filhos de Adão que tudo isto testemunharam no alto deste monte titubearem em obedecer quaisquer acordos assumidos convosco neste dia, deles me apossarei e nenhum poder sob o sol ou acima dele haverá de livrá-los de meu domínio.”

“Satanás, nós ordenamos que partas deste monte e não mais voltes aqui. Este lugar está reservado aos servos do Altíssimo e ninguém há de maculá-lo.”, disse Sanvi.

Lúcifer, percebendo o grande poder que emanava dos mensageiros, partiu sem demora.

Adão, que a tudo observara em silêncio, perguntou, “Como posso saber que sois mensageiros verdadeiros enviados pelo Altíssimo?”

“Conhecereis os mensageiros verdadeiros pelo modo como eles te cumprimentarão. Pelo nomes e sinais atribuídos a tais cumprimentos e pelos acordos assumidos em decorrência da revelação que tais mensageiros haverão de te apresentar.”

Os mensageiros então cumprimentaram a todos que estavam no círculo e abençoaram o infante recém-nascido a fim de que fosse o sucessor de seu pai no poder e autoridade que lhe haviam sido por aquela ocasião concedidos.

Novos mantos foram trazidos pelos mensageiros, como aqueles que o Filho do Altíssimo havia presenteado a Adão e Eva quando deixaram o Jardim. E todos foram vestidos com os novos mantos.

Uma nova ordem havia sido estabelecida entre os filhos dos homens e Satanás havia sido expulso de seu meio, de modo que grande foi o seu progresso, desde então.


6 comentários:

  1. Emocionante os atos e cuidados da mãe Eva, bem como a humildade de Adão, e a esperança renovada com o nascimento de Seth. O pregador... Lembrei-me de Corior e todos os anticristos enganados pelas promessas vazias do inimigo. Este livro com certeza reúne a seleção das melhores histórias do mundo pré-moderno, com descrição e diálogos extremamente legíveis e reais. Parabéns!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pelas palavras, minha amiga. Espero algum dia que mais pessoas tenham acesso a essas "melhores histórias" do passado, para que quem sabe tenhamos uma "melhor história" para contar sobre nosso futuro!

      Excluir
  2. Não pude deixar de pensar na íntima compaixão de Udiel pela humanidade que errante. Como Prometeu durante a partilha dos dons.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. No começo do livro Udiel é apenas um registrador imparcial dos fatos, mas à medida que o tempo vai passando, ele vai se envolvendo com a narração e sendo afetado pelo que ele testemunha.

      Excluir
  3. A evolução dele é feita com maestria.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Queria ter mais tempo pra escrever com mais frequência!

      Excluir

Compartilhe esse artigo em suas redes sociais e aproveite este espaço para registrar seus pensamentos sobre esta postagem.