22 de novembro de 2017

Capítulo 38: A Natureza da Mãe

22 novembro Escrito por Eliude Santos , , 2 comentários
Adão a olhava com admiração e desejo. Para ele, nenhuma dádiva ou conquista mereceria maior apreço. 

Embora ela gostasse de se sentir desejada e admirada, por vezes, se punha inquieta diante das expectativas do esposo.

Também se esforçava para cuidar de seus filhos com grande zelo. Para eles, ela era uma fonte inesgotável de leite e mel. E tão acostumada estava com aqueles olhares famintos e suplicantes, que ela já se antecipava a todos eles.

Era sedutora e afetuosa, provedora e diligente; sob as demandas da ocasião, aguentava calada os infortúnios do dia; apaziguava os corações aflitos; alegrava-se no êxito dos que estavam à sua volta; ocupava-se em detalhes que eram imperceptíveis aos olhos dos demais, e não se gabava por assim fazer.

Quando muito, o que recebia em troca era um olhar de gratidão — olhar esse que agora se tornava cada vez mais escasso, já que todos ali haviam de tal modo se acostumado a tais gentilezas, que, caso não as recebessem prontamente, tomavam o descuido por descaso e exigiam reparação.

Aprendera a ser forte, pois todos esperavam isso dela. No entanto, o pranto havia consumido suas forças e ela se espantava com fragilidades que jamais pensara ter. 

Agora, tudo o que ela precisava era enxergar nos olhos de alguém o mesmo cuidado que sempre tivera — um olhar que visse além do que é feito ou dito. O fato é que sentia falta de uma mãe, de um colo no qual pudesse recostar a cabeça e chorar sem sentir-se vulnerável.

Ela, que sempre cuidara de todos com grande zelo, agora precisava que cuidassem dela. Mas sabendo que ninguém atentaria para aquele seu momento de fragilidade, continuava executando seus labores sem descanso.

Era ela que conduzia os filhos menores pela mão a fim de que dessem seus primeiros passos. Era ela que lhes levantava quando caíam, beijava-lhes os joelhos ensanguentados, e dizia que a dor logo passaria. Era ela que usava ervas e unguentos para banhar os pés dos que voltavam do campo a fim de aliviar-lhes o cansaço. Eram suas palavras mansas que acalmavam os corações daqueles que iam ao seu encontro em busca de consolo.

Mas agora que era o seu coração que estava atribulado; quem o confortaria? Agora que sua mente estava inquieta; quem lhe daria calma? Agora que sua alma se sentia vazia; quem haveria de restaurá-la?

Às vezes, sentava-se à beira do rio olhando para o nada e uma de suas filhas se aproximava, recostava a cabeça em seus seios, e ela deixava escapar uma lágrima sem que a pequena percebesse. 

Outras vezes, irritava-se com tarefas corriqueiras, quebrava cântaros e vasos; e, quando qualquer de seus filhos vinha saber o que tinha acontecido, ela gritava aborrecida e saía de perto. 

Queria que o mundo fizesse silêncio, que os pássaros cessassem seu canto, que o sol não se demorasse tanto no céu. Mas tudo ao seu redor teimava em exalar vida.

Ela havia visto os Criadores com seus próprios olhos e, andando com Eles no Jardim, ouvira diretamente de Seus lábios as palavras vivas que respondiam com clareza as dúvidas mais sagradas daqueles que em algum momento se dão conta de sua própria existência. Sabia de onde viera e o que estava fazendo ali, e aonde iria quando o sopro de vida que comandava seu corpo se desprendesse dele e fosse levado pelo vento para os braços de seu amado filho.

Mas tudo o que sabia não lhe impedia de se incomodar com o fardo pesado que tinha de levar sobre os ombros; com o desconforto, o cansaço, as dores.

Ela olhava para os filhos menores e caía de joelhos em súplica aos Céus para que a levassem antes deles, pois não suportaria a dor de um novo luto.

Mas, ao mesmo tempo, pensava o que lhes sucederia se fosse ela repentinamente tirada de seu meio.

Aquela sensação de impotência diante da fragilidade da vida tirava-lhe o sono e o ânimo.

Ela não costumava subir ao altar. 

Embora compreendesse a necessidade dos sacrifícios, não se agradava no derramamento de sangue. Deixara que seu esposo se encarregasse das ordenanças de redenção.

Com o roubo dos rebanhos, agora nem ele mais subia o monte com tanta frequência. Ocupava seu tempo no cuidado dos poucos novilhos e cordeiros que haviam restado no Vale, a fim de que se multiplicassem e voltassem a encher os pastos. 

Também se ocupava da instrução de seus filhos menores para que crescessem em sabedoria e verdade, e não se deixassem levar por veredas tortuosas como acontecera com os que vieram antes deles.

Tão envolvido estava em seus muitos afazeres que mal percebera a névoa de escuridão que tomava conta da alma de sua esposa.

Quando a noite chegava e eles se deitavam juntos, Adão estranhava que Eva já não lhe recebia com beijos e carícias como sempre fizera. Mas supunha que fosse apenas cansaço. Recostava a cabeça dela em seu peito e dormia.

Ela, sem querer prolongar-se em explicações, confirmava, esperava que ele adormecesse, virava para o lado e procurava dormir.

Mas nem sempre o sono vinha. E quando vinha, sonhava com cordeiros ensanguentados e labaredas nos lugares altos, e acordava assustada.

Num desses sonhos, viu-se correndo por um desfiladeiro com alparcas que não eram suas e um manto que não era seu.

Perturbada com sensações estranhas e lembranças que não eram suas, tropeçou e desceu rolando para uma vala estreita que dava para uma caverna espaçosa, onde símios rodeavam dois espectros desnudos e maltrapilhos, acorrentados a troncos de ébano fincados na rocha igualmente escura. 

Esgueirando-se, aproximou-se dos troncos. 

Sabia que o homem que estava sendo mantido em cativeiro era Abu, seu filho, ainda que não reconhecesse aquele rosto sofrido que parecia implorar por ajuda.

Acordou com um aperto no coração.

Nunca antes tivera um sonho tão vívido.

Ouviu um ruído que tomou todo o vale. Levantou-se apressadamente e correu para o pátio. Adão já estava lá, com arco e flecha, lanças, tacapes e escudos. E seus filhos alinhavam-se atrás dele.

“O que houve?”, perguntou ela assustada.

“Não sabemos.”, disse Adão. “Ao que parece, serpentes aladas espalharam-se pelos arredores.”

No horizonte, sobre a floresta de cedros, criaturas aladas se erguiam contra o sol da manhã com suas gigantescas asas furta-cor.

“O que pensas fazer colocando armas nas mãos de nossos filhos?”, disse Eva assustada.

“Uma ameaça se levanta no horizonte e não posso ficar de braços cruzados esperando que nos ataquem e destruam-nos a todos. Estou apenas defendendo nossa família.”, respondeu Adão.

“Não permitirei que mais sangue inocente seja derramado nesta casa.”, objetou Eva, confrontando seu esposo de um modo que nunca antes fizera.

“O único sangue que há de ser derramado é o daqueles que nos afrontam.”, defendeu-se Adão.

“Todo esse tempo no altar oferecendo holocaustos fez-te insensível à dor dos cordeiros. 

Nenhum sangue deverá ser derramado, nem dos nossos, nem daqueles que se levantam contra nós.” Eva saiu recolhendo as armas de seus filhos pelo acampamento.

Adão veio atrás dela, “Talvez se tu estivesses subindo comigo ao altar para tomares parte em tais holocaustos não terias ficado tão abalada com a morte de nossos primogênitos.”

Eva parou de repente e jogou as armas aos pés do esposo, “Talvez se tu tivesses ido menos ao altar e ficado mais ao lado de teus filhos, nosso primogênito não teria desaparecido, nem tampouco um irmão teria tirado a vida de outro.”

Desta vez, Adão segurou-a pelo braço, “Não te lembras o que nos disse o Filho do Altíssimo, quando Ele mesmo imolou um cordeiro diante de nós sobre o altar que ergui no Éden? Eu estou somente fazendo o que nos foi ordenado por Ele. E instruirei nossos filhos a assim procederem a fim de que não esqueçam do grande sacrifício que o Cordeiro de Deus haverá de fazer por todos nós — um sacrifício que se tornou necessário em decorrência de nossa própria transgressão.”

Em um solavanco, Eva soltou-se das mãos firmes do esposo, “Nossa transgressão foi necessária. Sem sangue correndo em nossas veias, não teríamos nos tornado férteis e jamais teríamos obedecido às leis maiores do Altíssimo. Tua sede de obediência te cega para a essência das leis que recebes.”

“Embora a transgressão fosse necessária, seu preço era a morte.” Queixou-se Adão. “E porque tu comeste do fruto, estamos morrendo todos. Nossa pele está enrugando, nossos olhos ficando fracos, nossos cabelos perdendo o viço e a cor. Logo chegará o tempo em que todos nós desceremos à sepultura.” 

“Não comi do fruto sozinha.” Retrucou Eva, “Se sinto algum pesar pelos efeitos nocivos decorrentes de nossa transgressão; experimento um regozijo ainda maior pelas bênçãos advindas do mesmo ato, de modo que, para sempre bendirei o fruto que fez do meu ventre uma fonte de vida, assim como a transgressão que me deu clareza para enxergar nossa experiência mortal com um olhar divino.

E, chegando o momento, voltaremos ao pó confiantes, pois, como disseste, temos um Salvador que se oferecerá em sacrifício por nós a fim de nos resgatar da morte e ressuscitar nossos corpos em perfeição e esplendor. 

Por isso, compreendo a necessidade do altar e da imolação dos cordeiros. Não disse que deves suspender os sacrifícios. O que espero é que, ao tomar parte de tais cerimônias, sintas a dor da oferenda e sofras com ela a ponto de ouvires, no berro do cordeiro, o clamor de teus filhos.

Se teus rituais são movidos apenas por um senso de obediência, de que te servem? O rito torna-se o fim e não o meio, tomas gosto pela obra do cutelo, e passas a adorar o instrumento de tortura como símbolo de tua fé.

Neste momento, em que te diferes dos torturadores do Cordeiro? No que isto te faz diferente do assassino que com semelhante cutelo, feriu a garganta do próprio irmão?”

“Mas como esperas que eu defenda nossos filhos caso as criaturas aladas que rodeiam o arraial se levantem contra nós?”, perguntou Adão incomodado com as palavras que ouvira.

“Queres defendê-los colocando-os frente à frente com o inimigo?”, indagou Eva.

“Não te lembras que o Criador nos deu ordem de exercermos domínio sobre todas as criaturas viventes?” esbravejou Adão.

“Exercer domínio não é o mesmo que exercer controle.” Corrigiu Eva, “Não fazemos parte dos domínios do Criador porque Ele exerce Sua força sobre-humana sobre nós e nos obriga a fazermos Sua vontade ou a nos subjugarmos a ela; fazemos parte de Seus domínios porque escolhemos assim fazê-lo.

Exercer domínio é inspirar admiração e respeito.

Se temes um ataque inimigo, já perdeste qualquer domínio que pensavas ter sobre eles.”

“Como inspirar obediência em criaturas selvagens como estas?” Clamou Adão. “Armados com garras e dentes afiados, andam em bandos e à espreita, prontos para descerem sobre nós com grande violência. Não há segurança alguma no Vale, e muito menos fora dele. Cercados, tornamo-nos prisioneiros em nossa própria casa. Precisamos responder a esta ameaça com rapidez, antes que eles ganhem ainda maior força.”

“E pretendes responder a esta violência usando nossos filhos como carrascos de seus ofensores? Estes são os valores que queres que eles espalhem para as gerações que haverão de vir? 

Nunca paraste para considerar as razões pelas quais esses animais já não falam mais conosco? Será que foram eles que perderam esta habilidade ou nós que esquecemos como se dava nossa comunicação antes da queda? Afinal, o que faz um leão ter-se tornado tão diferente de um bichano; ou um lobo, de um cordeiro? Por que uns ouvem a nossa voz, enquanto outros escondem-se de nós ou aprontam-se para atacar-nos com tamanha ferocidade?”

“Decerto que pararam de falar conosco porque são obstinados.” Queixou-se Adão. “Nunca lhes fizemos mal algum.” 

“Nossas línguas foram confundidas; e, por não haver diálogo, há contenda.” Explicou Eva. “Não há um modo fácil de resolver este conflito. Agora que ele já se estabeleceu entre nós, um dos lados precisará mostrar-se razoável em suas respostas às investidas do outro.

A violência é fruto do medo. Quantos zizes ariscos já não cederam ao teu comando quando perceberam que não lhes farias mal algum? Em que são os zizes diferentes destas criaturas aladas que nos rodeiam?

Se te levantares com armas e escudos contra estes que estão perdidos na escuridão de sua ignorância, só alimentarás ainda mais o seu medo e a nossa insegurança.”

“O que sugeres que eu faça?” Perguntou Adão, confuso.

“Tua mente está tomada pelo medo e insegurança, meu querido. Sem estas espadas e escudos, o que seria de teu exército? Afinal, o que podem cinquenta espadas contra quinhentas mandíbulas afiadas e famintas?”

Eva tomou um laço e, com a ajuda de uma grande lança, subiu nos lombos de um dos beremoths que pastavam à entrada do arraial.

A despeito das súplicas do esposo para que se detivesse, ela seguiu na direção do bosque de ciprestes montada na gigantesca criatura.

Adão tentou impedi-la, mas ela gritou-lhe lá de cima que ele colocaria a todos em risco se não confiasse nela.

Eva seguiu caminho. 

As asas dos dragões cobriam o sol e faziam o pó levantar-se em torvelinho sobre ela.

Eva derramava copiosas lágrimas e acariciava o pescoço da besta que, ao lado de curelons e cumons, ajudara Adão a erguer suas grandes construções, à semelhança daqueles monumentais edifícios que ele via do Éden nos lombos dos grandes pássaros.

À uma distância segura, Eva ergueu-se sobre os lombos do beremoth e falou, sem saber ao certo se seria compreendida pelas bestas que se amontoavam à sua frente, “A morte é assustadora; mas ainda mais assustadora é a vida. Por isso, entendo o vosso medo e confesso-vos o meu. No entanto, como muitas de vós, sou mãe, e a maternidade dá-nos uma força que não sabemos de onde vem, uma coragem que é maior que nosso medo e que sufoca nossos sentidos. 

Não é como a coragem dos homens, que se esconde atrás de armas e escudos. É uma coragem de dentes e de unhas, um olhar certeiro como o de uma ave de rapina.

E é com esta coragem que me apresento diante de vós, para pedir o vosso perdão. Afinal, é mais corajoso quem se humilha diante da própria fraqueza a ponto de entender a fraqueza do outro, do que aquele que fere covardemente quem lhe ameaça a fim de alimentar uma falsa ideia de fortaleza.

A terra é nossa e produz em abundância.

Se falhamos em vosso cuidado ao ponto de que já não nos conheceis nem reconheceis a nossa voz, seja esta a nossa oferta de redenção. Aceitai, portanto, este sacrifício como o primeiro passo para uma oferta de paz.”

Eva ergueu a lança e cravou-a no pescoço do beremoth, que deu um rugido que estremeceu todo o bosque. Seus joelhos fraquejaram e ele tombou, derrubando-a de sobre os seus lombos.

Ela desceu rolando uma ribanceira enquanto as serpentes aladas e as bestas do campo lançaram-se sobre a carcaça da gigantesca criatura.


2 comentários:

  1. Maravilhoso! Confesso que estava aguardando por este capítulo há muito tempo! Um que falasse da forte e admirável mãe Eva, de sua determinação em comer do fruto, sendo responsável em defender sua decisão. Seu entendimento do Plano e dos ensinamentos divinos, e como todo ser mortal, seu sentimento e sua tristeza infinita e inexplicável pela perda dos filhos. Sua coragem como mãe, em jogar-se em frente ao perigo para defender sua prole, mesmo que seja sacrificando uma oferta para a defesa de toda uma raça. Agora mal posso esperar pelo próximo capítulo! Como sempre, outstanding!

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    1. Acho que eu estava tão ansioso quanto você para poder escrever tudo isso. E talvez por isso esse capítulo tenha demorado tanto pra ficar pronto. Passei quase três meses escrevendo, revisando, apagando, reescrevendo, ou simplesmente lendo e esperando mais luz para enxergar e até mesmo sentir a essência dessa personagem tão rica escapando pelas páginas do livro.

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