20 de agosto de 2017

Capítulo 37: Novos Inícios

20 agosto Escrito por Eliude Santos , , 2 comentários
“Filho de Adão, aproxima-te para que te veja.” Disse eu, à entrada do nosocômio.

Abel levantou-se do leito coberto em linho branco e veio ao meu encontro.

“És Udiel, o contador de histórias?” Perguntou-me curioso.

“Sim, sou Udiel. No entanto, cabe-me mais o título de ouvidor de relatos do que o de contador de histórias. Não te lembras de mim?” Perguntei, já sabendo de antemão a sua resposta.

“Perdoe-me, meu senhor, mas já nos vimos antes?” Indagou-me o pastor. “Não me recordo de haver conhecido outros homens além daqueles de minha casa. De fato, julgávamo-nos os únicos de nossa espécie até que o filho das águas e sua irmã foram, pela providência divina, trazidos ao nosso convívio a fim de que nossa semente se espalhasse pela Terra.

A propósito, não posso demorar-me em vosso meio, pois hoje é o dia de minhas bodas e Nod aguarda a minha chegada no arraial para que a despose.”

“É assombroso o efeito do Véu!” Exclamei em voz alta, mesmo sabendo que ele não entenderia a natureza daquela interjeição. “Diz-me, filho de Adão, se vasculhasses em tua mente os registros de tua primeira infância, qual seria a lembrança mais antiga que encontrarias? Quando exatamente percebeste que existias?”

“Lembro-me vagamente dos dias de minha primeira infância, meu senhor. Não consigo recordar exatamente do momento em que tomei consciência de minha existência.” Respondeu Abel. “É como se eu sempre tivesse existido. Ainda assim, sei que meus pais já existiam antes de mim. E eu mesmo já existia antes das experiências mais antigas das quais consigo de fato me lembrar.”

“E não é isto a vida: uma poderosa sensação de existência, ainda que não saibamos quando exatamente ela começou, ou quando terá de fato um fim?

No entanto, se a tua consciência fosse, por alguma disfunção de tuas faculdades, embotada a ponto de não te lembrares o que acabaste de me dizer, o que pensarias de tua vida?”

“Imagino que não havendo lembrança, o pensamento não se concluiria e a mente vagaria perdida entre uma e outra imagem sem saber exatamente aonde chegar. A vida seria um sonho confuso e, por vezes, angustiante.

Sendo acometido de tal letargia, decerto que nem pensaria estar vivo. Não tendo consciência da vida, não poderia sequer reconhecer a morte.”

“Sim, nada é mais letárgico que o esquecimento, e ele acomete a todos. A não ser que registros sejam mantidos, tudo se perde tão facilmente. As memórias são, afinal, nosso bem mais precioso.”

“Mantemos registro de todas as coisas no arraial. Nosso pai nos ensinou desde cedo a importância de cultivarmos nossas memórias para que, instruindo-nos a partir das experiências uns dos outros, sejamos abundantes em boas obras.”

“Fez bem. Vê-se que és um homem bem instruído.”

“Esforço-me para sê-lo, afinal, a instrução afeta nossa percepção da vida e, consequentemente, o modo como reagimos às experiências que ela nos reserva.”

“Em verdade, é a memória de tais instruções que o faz.” Corrigi-o.

“Sim, a memória de tais instruções.”

“E minha tarefa é coletá-las.” Acrescentei.

“Das tarefas, a mais nobre, meu senhor; afinal, coletar memórias é manter acesa a chama da existência.”

“És um homem admirável, Abel. Certamente alargarás o caminho e clarearás os passos dos muitos que vierem depois de ti. Serás a luz que muitos buscarão na escuridão.

Como estão os teus ferimentos?”

“Estou bem.” Disse ele. “Sabes que caminho tenho que tomar para voltar à casa de meus pais?”

“Não estamos muito longe do vale. Levo-te lá logo mais.”

“Disseram-me que haveriam festividades em vossa casa. Diz-me o caminho e seguirei sozinho, não quero privar-te de teus afazeres.”

“Sim. Hoje é um dia grandioso. Mas não te preocupes, cada um celebra este dia a seu modo.”

“O que celebrais?”

“Celebramos a vida seguindo seu curso.”

“Ficaria de bom grado para as festividades, afinal, sou muito grato por tudo que aqui foi feito por mim. Nunca vesti roupas tão brancas ou deitei em um leito tão confortável. Nunca vi tantas luzes nem tantos maquinários tão meticulosamente forjados, nem decorações e mobília esculpidas e dispostas com tamanha perfeição. Devo confessar-te que me é penoso partir.”

“Tudo o que fazemos, fazemos com esmero.”

“Decerto que sim.”

Eu, Udiel, conduzi-o a uma das fontes que decoravam o jardim do nosocômio, donde corria um veio que descia por uma escadaria de pedras perfumadas que dava para um denso bosque ao sul dali.

“Segue este veio e encontrarás o vale donde vieste.”

Despedi-me de Abel e ele seguiu caminho.

Pedi a um dos arcanjos que servia ao meu lado que o acompanhasse de longe e voltasse com um relato de sua jornada.

Abel seguiu a corredeira sem dar-se conta que seus pés não tocavam o chão. Estava tão alheio à sua nova condição que nem estranhava o fato de que os cardos do caminho já não lhe feriam.

Tampouco estranharia se a porta de um dos salões da grande cidade de Havillah dessem para um dos aposentos da casa de seu pai.

Naquele estado quase letárgico em que se encontrava, tudo lhe parecia natural.

Havia deixado o mundo dos viventes há muito tempo. No entanto, para ele, era como se não houvesse transcorrido tempo algum e ainda cria ser aquele o dia de suas bodas.

De fato, presente, passado e futuro haviam-se tornado, sem que ele disso se desse conta, apenas diferentes frequências de existência naquele seu novo estado. De modo que poderia, atravessando as paredes do tempo, descer rumo às profundezas do abismo quando a Terra era somente um mar de fogo e enxofre onde as estrelas caídas choravam seu exílio; ou subir ao topo dos montes da dispensação da plenitude dos tempos quando a engenhosidade dos filhos dos homens haveria de se assemelhar a dos arcanjos criadores.

No entanto, estava tão apegado àquele tempo, que, no caminho de volta ao arraial, por pouco pensou ter visto a si mesmo sendo escoltado por seu irmão Caim para o lugar de seu abate.

Confuso diante daquela visão, correu na direção dos dois espectros, que sumiram na névoa branca daqueles Campos Elíseos.

Depois de algum tempo, ele já nem se lembrava atrás do que estava correndo. Foi quando deu de cara com um exército de símios e bestas selvagens, liderados por dragões e serpentes que pareciam ir na direção do arraial.

Ele se pôs diante deles e ordenou-lhes que parassem, mas as hostes enfurecidas sumiram ao seu comando, como que se dissipando naquela névoa láctea e espessa.

Ele olhou ao redor, e viu um grande dragão levantar-se das águas diante dele.

Lembrou-se das histórias de seu pai e soube que aquele era Kundalini. Suas asas estavam dilaceradas e muitas de suas escamas pareciam ter sido perfuradas por garras afiadas.

Com violência, o dragão bateu sua cauda contra o chão e ergueu-se imponente em posição de ataque.

Abel tremeu diante daquela figura assustadora.

Kundalini aproximou suas narinas, fungando e exalando um ar pútrido e quente que, por um instante, petrificou o filho de Adão.

O dragão, no entanto, parecia não conseguir enxergá-lo, ainda que se mostrasse profundamente incomodado com sua presença.

Abel pensou que talvez aqueles gigantescos olhos cor de fogo que avidamente procuravam por ele tivessem perdido a capacidade de enxergar. Isto, no entanto, não impediria a besta enfurecida de abocanhá-lo e devorá-lo ali mesmo.

Movido pelo medo, cobriu o rosto e encolheu-se esperando o bote.

Quando voltou a abri-los, o dragão já não estava mais lá.

Abel se levantou e continuou seguindo a corredeira que se alargava à medida que se aproximava do arraial.

Ouviu passos e correu por entre as árvores do bosque. Viu seu irmão Caim que parecia subir um monte íngreme e pedregoso mais adiante.

Tentou acompanhá-lo para alertá-lo contra a ameaça do dragão que avistara a caminho do Vale.

Caim, no entanto, parecia ignorá-lo.

Abel ouviu uma outra voz.

Quando finalmente chegou ao topo do monte, seu irmão, Caim, estava ajoelhado diante de um belo homem trajado com vestes negras e elegantes que lhe dizia, “Levantarei para ti uma grande nação, de modo que os filhos de Adão viajarão grandes distâncias para provarem dos teus manjares e para conhecerem as majestosas construções que erguerás em nome do Altíssimo. E tu cobrarás altos tributos a todos que entrarem em teus domínios, exceto àqueles que se ajuramentarem contigo para participarem deste grande segredo.

Farás para ti um trono e nele te sentarás para deliberares sobre os atos daqueles que te servem. Com pulso firme, serás um bom regente aos olhos de teu povo. Mas cabe àquele que porta o cetro da justiça não ser bom todo o tempo, pois a justiça só existe na oposição, de modo que só há paz se houver guerra; só há lucro se houver extorsão; só há conquista se houver opressão.

Diante dos homens, sempre honrarás com tua palavra, que é teu bem mais precioso. Se ensinares aos teus súditos os princípios de lealdade e fores um exemplo público de tuas palavras, todos confiarão em ti. Com astúcia, te aproveitarás desta confiança em teu próprio benefício, nem que isto exija sacrifícios e vilipêndios feitos à calada da noite, longe dos olhos daqueles que te apoiam.

Não questionarás se estás certo ou errado, pois saberás, pelos frutos de tuas obras, que estás certo, pois grande será o teu êxito.”

Abel assombrou-se diante daquilo que ouviu, e sem que os dois percebessem, correu na direção do Vale, descendo pelas encostas do que pensou ser o Monte dos Sacrifícios para alertar seu pai contra os apuros que corriam todos no arraial.

Na pressa, tropeçou e desceu rolando para uma vala estreita que dava para uma caverna espaçosa, onde símios diferentes daqueles que vira com o dragão rodeavam dois espectros desnudos e maltrapilhos, acorrentados a troncos de ébano fincados na rocha igualmente escura.

Esgueirando-se, aproximou-se dos troncos.

O homem que estava sendo mantido em cativeiro era Abu, seu irmão. Abel não sabia se ficava feliz em descobrir que o pastor não fora devorado pelas bestas selvagens, como os de sua casa já tinham por certo que tivesse acontecido; ou se enchia-se de tristeza diante daquela aflição horrenda que ora testemunhava.

Num repente, muniu-se de algumas pedras e levantou-se com grande ira de seu esconderijo a fim de socorrer a seu irmão. Mas bateu a cabeça contra o teto da caverna que, de tão baixo, obrigava todos a andarem curvados.

A batida forte fez com que desfalecesse e caísse por terra.

Ao levantar-se, viu que a gruta se enchera de luz e gravações espalhavam-se pelas paredes. Passou os dedos pelos veios da rocha, ainda tentando manter-se de pé, quando ouviu uma voz que lhe era muito familiar.

Virou-se para ver de onde vinha o som e viu Nod, amamentando duas crianças de colo. Aproximou-se dela confuso diante de tudo o que vira e ouvira.

“Nod, onde está nosso pai? Hostes de símios raptaram nosso irmão Abu e marcham em direção ao Vale sob o comando de Kundalini, a serpente do Jardim. Uma grande desgraça está para se abater entre os filhos dos homens.”

Nod, no entanto, não se movera diante de suas palavras.

Uma das crianças estendeu-lhe a mão, e ele tocou os dedos minúsculos do infante, que sorriu para ele. Por um instante, Abel sentiu uma profunda paz.

Ao olhar para Nod, ela não estava mais lá, nem os infantes, nem as paredes decoradas da caverna. Tudo havia sido novamente tragado por aquela névoa densa e sufocante que agora o envolvia.

Ouviu passos novamente.

Aquele homem de vestes negras que vira há pouco conversando com seu irmão surgiu diante dele.

“Ave, Abel.”

“O quê?”

“Apenas um cumprimento que logo há de se tornar muito comum entre os homens.”

“Quem és tu?”

“Sou Lúcifer, o filho da Manhã.”

“És o demônio que tentou meus pais no Paraíso?”

“Sou, na verdade, o anjo que os ajudou a cortar os grilhões que os prendiam àquela bela gaiola.”

“Afasta-te de mim.”

“Não fosse por mim, nem terias nascido. A humanidade é mesmo um poço de ingratidão.”

“O que querias com o meu irmão?”

“Com qual deles?”

“Caim. Vi-te falando com ele agora há pouco.”

“Neste lugar onde estamos tu e eu, ‘agora há pouco’ é um tempo que não existe.”

“Que lugar é este?”

“Não te disseram?” Lúcifer caiu na gargalhada.

“Do que ris?”

Naquele instante, Abel pareceu notar o que lhe sucedera e sentiu um estupor de pensamentos, como se fosse tragado para um poço escuro e profundo dentro de si.

Abel esforçou-se para se mover, mas seus pés não lhe obedeciam. Tampouco sua garganta acatava sua vontade de gritar por socorro.

Ele percebeu que seu calcanhar não tocava o chão. Seu corpo parecia ser puxado na direção de uma luz incandescente.

À medida que sentia o calor daquela luz aproximar-se, seu coração acalmava-se.

Um personagem no centro da luz aproximou-se dele e estendeu-lhe a mão. Seu rosto, ofuscado pela luz forte, não lhe parecia ter feição alguma.

O personagem o abraçou e ele pôs-se a chorar.

“Não chores, Meu filho. Este é o dia de teus novos inícios. E uma obra grandiosa há de ser executada através de ti, e daqueles que te seguirem.”

“Senhor, meus pais precisam de mim. Quem conduzirá os seus rebanhos?”

“Teus rebanhos serão todos os homens da Terra, e tu irás atrás deles quando vierem para este lado do Véu. Muitos se deixarão ludibriar pelas artimanhas dos filhos de Perdição, mas teu é o dever de conduzi-los das trevas para a luz.”

O personagem de luz sumiu e Abel viu-se novamente no bosque, às margens da corredeira.

Ele virou-se e seguiu de volta à fonte do nosocômio de onde havia partido.

2 comentários:

  1. Maravilhoso! Esse capítulo foi uma surpresa! Quando você disse da última vez que o livro estava no fim, tive vontade de começar ler novamente. Com esse capítulo, mais ainda! Incrível como o "filho da manhã" deturpa as verdades ao seu favor, e como felizmente a Luz não necessita de reafirmação. E agora, o próximo capítulo espero que não seja o último. Ainda preciso saber o que houve com outros personagens.

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    1. O livro está chegando ao fim, mas como o próprio título diz, este é só o "Princípio"... Eu também quero saber o que vai acontecer com vários personagens... heheheheheh Espero que a "surpresa" tenha sido boa! :)

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