23 de abril de 2017

Capítulo 32: A Noite Escura

23 abril Escrito por Eliude Santos , , Comente aqui
O homem azul erguia seu remo de sicômoro e fincava-o com força no leito do mesmo rio onde antes fora lançado para encontrar-se com a morte.

Na face do Filho das Águas, como era chamado pelos irmãos que deixara no arraial, uma nova lágrima descia a cada remada.

Embora ele não houvesse concordado com a decisão daquele que até então chamara de pai, sabia ser inútil medir forças com o Ancião de Dias e agora seguia a luz da manhã rumo ao exílio — tal qual fizeram as estrelas cadentes quando, por semelhante decreto, foram expulsas da presença do Criador.

O exilado atracou o barco às margens de um dos braços do Pison e, deixando ali suas mulheres, desceu com o mancebo em busca de provisões, porquanto os poucos mantimentos que Luluwa e Aklia haviam conseguido ajuntar na pressa de deixarem o arraial já tinham acabado. E as poucas sementes e espigas que haviam restado, eles estavam reservando para plantarem nalgum lugar fértil que julgassem ser seguro para a sua habitação.

Lúcifer e Samael, que vinham acompanhado de longe o desenrolar dos acontecimentos no Vale de Adão, aproximaram-se do homem azul enquanto este colhia carambolas e romãs num pomar que encontrara um pouco adiante.

“Não te espantas que nasçam árvores frutíferas em tão longínquo descampado?” Disse Lúcifer ao colher uma das carambolas, enquanto aproximava-se do rapaz.

“Senhores, se estas árvores vos pertencem, aceitai minhas desculpas por tamanha ofensa. Mas antes de julgardes que mereço qualquer punição pelo meu delito, considerai que o fiz porque tenho fome; e trago em minha comitiva duas esposas igualmente famintas e um mancebo a quem muito estimo que saiu em busca de pastos verdejantes para uns poucos novilhos e aríetes que trouxemos conosco em nossa embarcação.”

“Servi-te à vontade e alimenta tua comitiva.” Adiantou-se Samael. “Afinal, estes frutos são mais vossos do que nossos. Todas as árvores que crescem à tua volta foram plantadas neste pomar pelas mãos daquela que te trouxe à luz deste mundo.”

“Senhor, conheces a minha mãe?”

“A ninguém conhecemos melhor. Uma velha amiga que há muito deixou nossa companhia para seguir seu próprio rumo.” Respondeu Samael.

Ao que Lúcifer acrescentou, “Em sua peregrinação conheceu os deuses de pedra, cujos templos se erguem aos pés dos montes, nas fendas das rochas, e nos bosques altaneiros. Nas paredes de tais templos gravou os rituais que abriam sua mente para uma nova dimensão de existência, um estado de espírito do mais alto grau de elevação.

No entanto, a despeito da grande dádiva que recebeu, fugiu da presença dos deuses de pedra e entregou-se nos braços dos filhos da terra, uma raça de salteadores bárbaros que, em bandos, espalham-se como um vento negro de setas e machados, deixando um rastro de sangue e nuvens de açores e abutres por onde passam.” Disse Samael.

“Não vos compreendo, senhores. De onde venho, aprendi que o Altíssimo criou plantas e animais de toda espécie para encher a Terra, e colocou o homem aqui para cuidar da obra de sua Criação. Uma única família que se espalharia por este vasto mundo para torná-lo semelhante àquele lugar de onde vieram os nossos espíritos. Cresci acreditando que eu e minha irmã havíamos sido enviados pelo Altíssimo para ajudar nossos pais a cumprirem os três grandes mandamentos que Dele haviam recebido.

Agora, encontro-me com estrangeiros que me dizem que tenho uma mãe e que ela habita com outros homens que já se espalham pela Terra.

De onde vieram esses filhos da terra? Que outras verdades nos foram ocultadas no Vale? O que ganha nosso pai por esconder tudo isso de nós? Por que me fez acreditar todo esse tempo que eu era filho das águas, ocultando de mim o paradeiro daquela que me gerou?”

“Se esse que chamas de pai surgiu do barro como ele alega ter surgido, por que não poderias ter de fato surgido das águas? Não me espanta que tenhas acreditado nestas falácias por tanto tempo. Meias verdades têm força de verdades inteiras para aqueles que se satisfazem com pouco.” Disse Samael num tom consolador.

“Mas tu não te contentas com pouco. Saíste em tudo à tua mãe.” Observou o Filho da Manhã. “Sabias que ela também cobriu sua pele com uma nova cor, como se a antiga já não lhe servisse mais?”

“Meu pai nunca me falou sobre ela. Nem ao menos sei o seu nome. Se viesse a encontrá-la, não seria para mim mais que uma estranha.

A propósito, sabeis quem sou e de onde venho, mas não me dissestes os vossos nomes ainda.”

“Não te ocupes com nomes, pois nomes são títulos efêmeros. Serve-te mais que saibas das origens e paradeiros daqueles a quem buscas.” Sugeriu Samael.

“Que direção então devo tomar se quiser encontrar aquela que me trouxe à luz deste mundo?”

“Tudo se revela no oriente, meu jovem. Se continuares a rota que tomaste ao deixares o Vale de Adão, logo descobrirás os mistérios que te vêm consumindo a alma desde os teus primeiros dias.” Respondeu Samael.

“Não disseste ainda o que fazes tão distante do arraial.” Observou o estrangeiro num tom interrogativo, ainda que já soubesse da resposta.

“Meu pai expulsou-me para além dos limites de seus domínios.”

“Por que um pai que se diz tão amoroso expulsaria um filho de sua própria casa?” Destilou Lúcifer o seu veneno.

“Irou-se por eu ter deflorado minhas irmãs.” Disse o moço cabisbaixo.

“E não foi para que tu te deitasses com elas que ele te acolheu e nutriu em seu regaço? Não foi isto que ele declarou ser a vontade do Altíssimo quando fostes, tu e tua irmã, resgatados das águas do rio?” Provocou Lúcifer.

“Também eu pensava como tu. E minhas irmãs como nós. Afinal, não me forcei sobre nenhuma delas. Apenas fiz o que urgia a nossa natureza.”

“Sei bem o que sentes. A mesma natureza te empurrou por estas matas em busca de alimento. Se não desses ouvidos ao seu ronco voraz, padeceríeis todos de fome.

Leva estas frutas para tuas esposas e para o mancebo a quem tanto estimas e segui vosso caminho. Haveremos de nos encontrar mais adiante.”

Os dois estrangeiros desapareceram mata adentro e Hapi voltou às margens do rio, levando consigo os frutos que colhera daquele pomar.

Enquanto todos saciavam a fome, ele pensou em falar-lhes daquele inesperado encontro, mas foi prontamente interrompido por Inu, que, saciada a fome, lembrou-se do que encontrara no topo da colina e insistiu que Hapi o seguisse até lá.

Quando se aproximavam do lugar que Inu havia mencionado, Hapi viu as grandes estátuas e prostrou-se diante dos deuses de pedra.

“O que estás fazendo?” Indagou Inu.

“Não percebes o aroma que emana deste lugar? De certo que estamos em lugar santo. Desata as correias de tuas alparcas.”

“São apenas imagens de escultura.” Retrucou Inu. “Trouxe-te aqui, pois, se há esculturas, deve ter havido homens que as esculpiram. Talvez não sejamos de fato a única família na Terra.”

Hapi aproximou-se das imagens e viu as inscrições gravadas com esmero nas paredes do templo. Correu os dedos pelas descrições dos rituais e lembrou-se do que os estrangeiros lhe haviam dito.

Ele sabia que sua mãe estivera naquele solo e, mesmo que as imagens fossem de fato somente esculturas de pedra, aquele solo já era sagrado para ele.

Disse a Inu que corresse até a margem do rio e trouxesse consigo suas esposas, mantimentos e rebanhos, pois haveriam de se demorar por aquelas terras.

Inu fez conforme seu mestre lhe ordenara.

No Vale de Adão, a comitiva enviada em busca de Luluwa e Aklia voltou de mãos vazias.

Nod já não ia mais à Palestra para receber instrução. Preferia passar aquele tempo junto às margens do Rio chorando o exílio de seu irmão.

Os filhos mais moços de Adão zombavam dela, dizendo que estava devolvendo ao rio as águas que Ahman usara para criá-la e que, se não parasse de chorar, logo definharia e sumiria, salgando as águas ribeirinhas com tanta tristeza.

Nod balançava a cabeça diante do escárnio de seus irmãos e, ainda que não tivesse sido expulsa com Hapi, exilava-se de todos ali mesmo.

“Trouxe-te algo para comer.” Disse Caim aproximando-se de Nod com um guisado que ele mesmo havia preparado. “Não é bom que te afastes tanto do arraial. Estas terras não são seguras. Se não o fazes por ti, faz por mim, que nunca virei o rosto para ti como alguns de meus irmãos, e sempre te ofereci minha proteção e cuidado.”

“Sou-te muito grata. Sempre fui. Sabes disso, Caim.”

“Sim, eu sei. E também sei do teu amor por Hapi e do quanto estás sofrendo desde que ele foi exilado. Mas um dia tu serás minha esposa e já não terás que te submeter às leis que regem os domínios de nosso pai. E tudo o que fizermos, faremos em comum acordo. E peregrinaremos pela terra até encontrarmos o Filho das Águas e, ao seu lado, ergueremos uma grande nação.”

“Deixarias tudo o que aqui conquistaste a fim de seguir comigo para além dos limites do Vale?”

“Sim. Irei contigo aonde quer que teu coração te peça para ir. Tu serás o meu farol e eu serei o teu leme.”

Caim voltou à Palestra decidido a falar com seu pai. Adão, no entanto, havia subido ao altar.

Ao descer do monte, o Patriarca reuniu todos os seus filhos em um grande Conselho.

“Meus filhos, antes de virmos a esta Terra, tua mãe e eu fomos instruídos em todo o conhecimento de nosso Pai que está nos Céus a fim de que nos tornássemos pais como Ele. No entanto, no translado daquele mundo perfeito a este mundo decaído, todo aquele conhecimento e instrução se perdeu num véu de esquecimento posto entre nós e a habitação de nosso Criador. De modo que, sem memória real do que nos sucedeu antes de virmos a este mundo, contamos apenas com a intuição, que é uma sombra embotada de lembrança que nos ilumina a mente diante de decisões difíceis; e a revelação, que é a comunicação divina, que só chega a nós quando os Deuses percebem que não há outro meio de descobrirmos aquilo por nossa própria competência e esforço.

E, por isso, peço-vos perdão se por vezes não pareço ou não consigo ser o pai que esperáveis que eu fosse. Sou um aprendiz da paternidade tanto quanto vós sereis quando tiverdes vossos próprios filhos.

No entanto, a despeito de minhas fraquezas, que são muitas, o Altíssimo me escolheu para esta tarefa maravilhosa e assustadora de orientar os primeiros passos da humanidade nesta Terra, tal qual já fez com outros Adãos como eu em outras Terras como esta, e assim continuará fazendo até que seja, por qualquer transgressão que por ventura cometer, deposto de Seu trono e engolido pelo abismo do Caos de uma vida sem leis.

Por esta mesma razão, Sua casa é uma casa de ordem, de modo que todos se alegram no cumprimento das leis que por algum motivo precisam ali obedecer. E se qualquer de seus filhos perde o gosto pela obediência, deixaria de ser feliz ali, maculando a própria essência daquele lugar.

Nosso lar é uma pequena amostra do que tivemos antes e do que nos espera mais adiante. Por isso, não penseis que há qualquer vilania ou crueldade de minha parte quando estabeleço limites entre o que é aceitável neste arraial, e o que deve ser feito com aqueles que desrespeitam estes limites.

Eu mesmo fui expulso da presença do Criador quando provei do fruto proibido. Cometi uma transgressão e arquei com as consequências de minha ação. E, por um tempo, não consegui enxergar o amor do meu Pai ao enviar-me para este mundo escuro e triste, longe de Sua presença, sujeito às intempéries do tempo.

Aqui, calos rasgaram as minhas mãos, sangue escorreu de minhas feridas pustulentas, meus cabelos caíram, minha pele enrugou, minhas costas ficaram cansadas. Mas a cada calo, minhas mãos ganharam mais força; a cada gota de sangue derramada, meu corpo ganhou mais vigor; a cada cabelo caído, eu ganhei mais sabedoria para entender os mistérios ao meu redor; a cada nova ruga, mais experiência para tomar decisões acertadas; e a cada dor, a lembrança de todos os momentos felizes que tenho ao vosso lado.

Eu precisei transgredir para que houvesse uma mudança. Então, entendo a necessidade da transgressão. Meu pai precisou aplicar a lei para que a mudança que eu buscava de fato acontecesse. Então entendo a necessidade da lei. Se Ele não tivesse me olhado com o amor de um Pai, e me expulsado de Sua presença, eu jamais teria tido filhos e jamais conheceria a felicidade verdadeira.

Quando expulsei o teu irmão do arraial, Nod, eu o fiz porque o amo, e porque amo a todos os meus filhos. Se a lei não fosse aplicada, outros viriam a transgredir no futuro e não aceitariam que qualquer pena lhes fosse infligida, de modo que a segurança de nosso lar estaria em risco.

Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para que Hapi encontrasse felicidade em nosso meio, mas ele não se alegrava em viver as leis que regiam esta casa.

Agora ele está livre de qualquer obrigação que antes tinha para comigo e pode viver conforme os ditames de sua própria consciência. Não é esta a maior expressão de amor e desprendimento de um pai: a de aceitar que seus filhos nem sempre escolherão trilhar pelo mesmo caminho que ele julga ser o melhor para todos?

Em meu egoísmo, eu poderia encher-me de altivez ou furor e persuadi-lo ou forçá-lo a agir conforme a minha vontade — e possivelmente assim teria feito se ele fosse mais jovem, pois quando não somos maduros o suficiente, precisamos de um Jardim em que não nos esforçamos por nada e, portanto, não podemos exigir nada em troca.

Mas ele era maduro e consciente de suas ações. Eu precisei entender sua mensagem, seu pedido desesperado. E eu concedi conforme sua vontade.

Quanto a ti, Nod, sei de teu sofrimento e fico muito triste com meus outros filhos que ainda não amadureceram ao ponto de respeitar a tua dor. Mas peço-te que deixes de lado o egoísmo, assim como eu tive que deixar de lado o meu, e entendas que, a despeito das dores que teu irmão enfrentará por ter deixado o jardim de sua infância e a proteção de seus pais, ele encontrará a felicidade que busca, e nisto todos nós devemos nos alegrar.

E tu deves fazer o mesmo.

É chegada a hora de prepararmos as tuas núpcias.

A longa noite escura que se abateu sobre este arraial tem hoje o seu fim e, amanhã, um sol radiante há de se levantar sobre o céu deste Vale.”


0 pessoas comentaram:

Postar um comentário

Compartilhe esse artigo em suas redes sociais e aproveite este espaço para registrar seus pensamentos sobre esta postagem.