11 de janeiro de 2017

Capítulo 24: O Vale da Sombra e da Morte

11 janeiro Escrito por Eliude Santos , , 2 comentários
A visão que Adão e Eva faziam do mundo fora do Jardim em nada se parecia com aquele lugar que eles de fato encontraram ao atravessarem o fosso que separava o Éden das terras de Havillah.

Quando Adão subia no dorso dos zizes e voava por sobre as árvores do Jardim, ele avistava gigantescos edifícios, muito possivelmente cheios de pessoas que pareciam observá-los de longe.

Às vezes, se o vento era favorável, até ouvia os risos escandalosos, tambores e explosões luminosas quebrando a escuridão e o silêncio da noite — sons do que pareciam ser grandes festividades e banquetes.

Ele invejava a engenhosidade daqueles outros filhos do Criador, com suas estátuas de ouro e de pedra, suas colunas e abóbadas, seus arranha-céus robustos e pontiagudos perdendo-se entre as nuvens.

À tardinha, admirava, do topo das tamareiras, as luzes da gigantesca cidade que faziam-no pensar que as estrelas do Céu haviam tombado sobre a Terra e se espalhavam pelos vales e montanhas.

No entanto, não foi isso que eles viram ao deixarem o Jardim.

Quando os querubins que os haviam escoltado até ali deram um passo para trás e sumiram na névoa que desceu de repente sobre eles, Adão e Eva tatearam na escuridão tentando achar a barra de ferro que acompanhava a ponte até o outro lado do abismo e não a conseguiram achar.

Nem tampouco acharam luzes, nem cidades, nem pessoas além do fosso. Ou, se havia quaisquer dessas coisas ali, eles não as podiam enxergar.

Era noite e o breu era assustador.

Tentaram voltar, mas a barra de ferro não estava mais lá, nem a ponte, nem os querubins, nem o Jardim, apenas um espaçoso e inóspito descampado de terra escura e fria, com algumas poucas árvores de galhos secos se erguendo na penumbra.

Os animais que os seguiam também estavam amedrontados, de modo que berravam e mugiam ao seu redor, como se fossem dispersar da comitiva.

A noite estava mais fria que de costume, ventava muito e os dois se aninharam sobre pilhas de folhas secas que lhes serviram de leito.

Ora incomodados com as picadas dos mosquitos ribeirinhos, ora assustados com algum barulho estranho que lhes tirava o sono, aos poucos seus olhos foram-se acostumando com a escuridão e viram o quanto aquele campo espaçoso e desolado em nada se parecia com seu belo e aconchegante Jardim nem tampouco com a bela cidade que esperavam ter encontrado.

Quando amanheceu, a névoa ao seu redor era tão densa que mal conseguiam ver se todos os animais e provisões que haviam trazido consigo ainda estavam ali.

Eva ajudou Adão a arrebanhar os animais, abrindo caminho rumo ao oriente naquele descampado de arbustos espinhentos e urticáreos.

À tardinha, pararam para descansar e, olhando para trás, pela primeira vez a mulher pôde contemplar o pôr-do-sol dourado daquele outono do qual Lúcifer lhe falara no Jardim.

Ela beijou seu esposo que seguia cabisbaixo sem dizer uma única palavra desde que foram conduzidos pelos querubins àquele vale.

“Tem bom ânimo, Adão, pois este é o dia de nosso novo início. As folhas caem das árvores para nos servirem de leito; o vento esfria o calor de nosso sangue e nos mostra o quanto precisamos dos braços um do outro; o Sol deita-se sobre nosso antigo lar e sua luz dourada ilumina os galhos secos das árvores nuas que parecem clamar por uma redenção de seu estado decaído.

Nós somos árvores secas, mas logo virão as chuvas, e nada nos faltará neste vale da sombra e da morte aonde o cajado de nosso Pastor nos guiou.

Nós somos folhas secas que caímos da presença de nosso Pai para sermos pisadas pelas bestas do campo; e para que, conhecendo a miséria, nos humilhemos e percebamos nossas fraquezas.

Na fraqueza de nossa carne, somos o vento que sopra contra a brasa e faz surgir o fogo. Afinal, não fosse pela nossa transgressão, teríamos permanecido naquele estado de inocência e ignorância para sempre. Sem sangue, nunca teríamos semente; e sem semente, nunca teríamos filhos. Nossa alegria nunca seria plena pois não teríamos a medida da miséria para equilibrar a balança do bem e do mal que há em nós.

Caímos para que pudéssemos nos multiplicar e encher a Terra, conforme o Criador nos ordenou.

E assim como cada árvore dá um fruto de sabor diferente, sendo uns mais doces que outros, e outros bem amargos, assim será a multidão de nossos filhos, cada um encontrando nos lábios do outro o seu sabor e fazendo-se pleno.”

Adão e Eva despiram-se de suas peles e abraçaram-se e beijaram-se enquanto o Sol se punha no horizonte.

Com a mão esquerda Adão apoiou a cabeça de sua esposa e com a direita abraçou-a pela cintura, deitando-se com ela sobre as folhas secas do fim do outono.

Suaves como a brisa foram suas carícias e doce como o fruto da macieira foi o aroma de seus unguentos quando, numa só carne desfaleceram em êxtase.

Quando Adão despertou, Eva estava ao seu lado segurando nas mãos as ferramentas que ele trouxera consigo do Jardim.

“Façamos um altar, à semelhança do altar que fizeste no Éden. E clamemos ao Pai por mais luz e entendimento. Pois eis que esta noite concebi e não tarda, seremos pais, como Ele e nossa Mãe que está nos Céus.”

“Como sabes que concebeste?”

“Não sei dizer como sei, apenas que sei.”

Adão pegou as ferramentas e saiu em busca de pedras.

Ao sul dali, Medusa tateava seu caminho de volta para a caverna quando ouviu a voz de um espírito familiar.

“O que Eles fizeram contigo?”

“Estou cega. Toquei o véu que cobria o disco de luz de onde vinham as vozes que falavam comigo e uma névoa de escuridão se abateu sobre mim.”

“Não te preocupes, enquanto eu estiver contigo, verás através de mim. Lembra-te do unguento de ervas e da infusão de sementes que as górgonas te ensinaram a preparar?” Disse Samael, acariciando o rosto de Medusa.

“Sim, eu me lembro, meu Senhor, mas estou cega, não saberia onde encontrar tais ervas nem conseguiria fazer fogo para a infusão.”

Samael soprou alguns galhos de arbustos de cheiro para que as folhas secas se desprendessem e caíssem perto da mulher.

“Macera estas folhas de cheiro até que se convertam num pó miúdo. Leva o pó às tuas narinas e inala com força.”

Medusa fez o que Samael lhe ordenou e, tão logo o cheiro acre subi-lhe as narinas, seus olhos pareceram voltar-se para o vazio dentro de si, ela caiu por terra como se seu corpo recebesse massivas cargas de energia.

E, de fato, recebia, porquanto Samael enfiara seus cordões de prata no umbigo e na cerviz da mulher, fazendo com que ela tremesse e estremecesse diante dele.

Aqueles cordões etéreos se comunicavam com cadeias de elementos na mente e na medula da hospedeira impedindo parcialmente o controle que os cordões etéreos de seu próprio espírito exerciam sobre tais partes, esmaecendo suas sensações e percepções, enquanto o espírito estrangeiro ganhava controle sobre o seu corpo.

Uma vez abertas tais portas, era impossível manter a ordem porquanto uma legião de outros espíritos passava a ter igual controle sobre ela, e eles aproveitavam-se a seu bel-prazer das sensações mais ocultas que o corpo da hospedeira lhes permitia experimentar.

Naquela confusão de sensações e incoerência de comandos, Medusa correu alterada por entre as árvores do bosque indo parar entre um bando de símios, onde com violência feriu de morte o mais forte deles.

Ensanguentada, bateu os punhos cerrados contra o peito e soltou um urro numa voz que não era a sua.

Samael, falando através da boca da mulher, disse, “Este mundo é nosso. Deixareis que um intruso destrua nossas matas, encha de imundície as nossas fontes de água, tire a nossa liberdade e se aposse de algo que é nosso por direito?”

Os símios se alvoroçaram.

Durante todo o tempo que se passara desde que os animais originais haviam sido trazidos para a Terra, muitas mudanças haviam acontecido em todas as esferas da Criação divina, especialmente fora do Jardim, onde os dissidentes usavam seu conhecimento e astúcia para criar disputa entre as mais ínfimas cadeias de elementos gerando cânceres e mutações de toda sorte em toda inteligência que lhes desse ouvidos.

Claro que tais manipulações já haviam sido previstas pelo Criador, afinal, não era a primeira vez que Ele lidava com filhos dissidentes. De fato, como Ele sempre deixou bem claro, “Há de haver uma oposição em todas as coisas, uma oposição dentro de todas as coisas, uma oposição em torno de todas as coisas.”

Ele sabia que uma vez que pusesse primatas na Terra, os dissidentes encontrariam uma maneira de manipular seus espíritos de modo que pensassem ser superiores às outras bestas do campo, e muitos aprenderiam a andar eretos, o que causaria mudanças em sua estrutura física. Tais mudanças afetariam suas gerações, aproximando-as cada vez da estatura humana.

Esses símios controlariam o fogo, forjariam armas, e entenderiam os astros. Tamanho conhecimento lhes daria grande poder e eles agiriam com violência a fim de conquistarem um domínio que não era seu.

Quando Medusa surgiu em seu meio naquela noite, eles a tomaram por uma divindade e a adoraram.

Vendo as serpentes que se enroscavam em seus cabelos, tomaram-na pela mão e levaram-na à caverna onde faziam habitação, como que querendo mostrar-lhe algo.

Eles não falavam, como a maioria dos animais fora do Jardim, mas, de algum modo, faziam-se entender.

Na escuridão da caverna, Medusa, ainda sob a influência de Samael, ouviu a respiração de uma besta que lhe era muito familiar.

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