19 de janeiro de 2017

Capítulo 25: Da Caverna Escura ao Monte da Redenção

19 janeiro Escrito por Eliude Santos , , Comente aqui
Com o martelo e o cinzel, Adão abriu fendas nas rochas; com o cabo, transportou as pedras lascadas ao lugar de sua construção; com o esquadro e a régua, mediu ângulos e encaixou as pedras com precisão; com o compasso, equiparou distâncias entre as colunas e vigas que se erguiam em torno do altar; com o prumo, certificou-se que havia equilíbrio em sua construção para que aquela edificação pudesse suportar as intempéries do tempo.

O novo altar ganhava forma e ficava ainda mais belo e maior do que o que construíra antes no Éden.

Desta vez, Adão nem precisou recorrer às pedras de luz que pendiam sobre o seu peito presas a um colar. A experiência lhe ensinara a fazer bom uso das ferramentas que os dissidentes haviam deixado no Jardim quando foram expulsos por Kundalini na ocasião em que o homem estava prestes a ajuramentar-se com eles em troca de instruções que fizessem dele um homem industrioso.

Agora, parado diante da obra de suas mãos já quase concluída, ao lado de sua esposa, admirava cada detalhe com orgulho.

“Das primícias de nossos rebanhos, escolheremos o cordeiro mais formoso e o ofereceremos em sacrifício ao Altíssimo, e Ele ouvirá nossas preces.” Disse o homem confiante.

“Adão, não me entendas mal. Conheço cada cordeiro de nossos rebanhos pelo nome, um nome que tu lhes deste quando andavas e conversavas com eles no Jardim. Quando estavas só, eles te fizeram companhia. Eles ouvem a nossa voz e correm saltitantes ao nosso encontro porque confiam em nós. Não compreendo por que o Altíssimo se agradaria no derramamento do sangue de tão inocentes criaturas, que alegram e dão sentido aos nossos dias.”

“Não sei se Ele se agrada ou apenas percebe ser necessário. Sei, no entanto, que o Filho do Altíssimo assim nos instruiu a fazer. E eu farei conforme a Sua vontade.”

“Está certo, Adão. Faze conforme as instruções que recebeste. Só não me peças para te acompanhar.

Eu ainda ouço os berros dos cordeiros que imolamos quando começamos a nos preparar para deixar o Jardim. Não poderia tomar parte em tais rituais novamente.”

“Sem o sacrifício daqueles cordeiros, estaríamos nus entre os cardos e espinhos deste mundo decaído.”

“Entendo que precisamos destas vestes que nos servem de proteção nesta terra hostil e perigosa; mas confesso que me alegro muito mais com o chegar da noite, quando nos despimos delas e vestimo-nos dos braços um do outro.

Eu ficarei na caverna enquanto sobes ao monte para fazeres teus sacrifícios; e de meu leito te acompanharei clamando ao Pai por instrução.”

“Que assim seja.”

Eva já estava para dar à luz quando o altar — ou matadouro, como ela costumava chamar — ficou finalmente pronto.

Adão não gostava quando ela se referia àquele lugar sagrado de forma tão leviana, mas não fazia daquilo um motivo para contendas, afinal, nada lhe era mais valioso que o sorriso de sua amada.

Eles, no entanto, não tinham tido tantos motivos para sorrir desde que deixaram o Jardim. De fato, estavam se esforçando para encontrar alegria em sua nova rotina. Mas quando se é privado de certos confortos, nada mais comum do que ceder à lamentação e queixas.

Eva ajudava Adão a arar a Terra e pastorear os animais. Com o fruto que crescia em seu ventre, o trabalho, que já era duro, ficava ainda mais difícil. Doíam-lhe as costas, seus pés inchavam; suas mãos, antes finas e macias, agora estavam ásperas e cheias de calos; o odor acre e desagradável do suor era intensificado pelo cheiro forte do estrume que usavam como fertilizante, da lama podre onde os porcos se espojavam, do esterco das aves do campo, e da urina entranhada nos pelos dos rebanhos que ordenhava e pastoreava naquele vale árido e pedregoso a leste do Éden. Era um odor que nem as oblações nem os óleos de cheiro conseguiam disfarçar.

Adão, além de ajudar Eva em tudo isso, também quebrava e transportava as pedras para a construção do altar, cortava lenha para fazer o fogo, e, desde o nascimento de seus primeiros rebentos, passara a oficiar na imolação dos sacrifícios. De modo que o cheiro de morte acompanhava seus passos.

No começo, dormiam sob as árvores, junto às margens do Rio. Aprenderam a afastar os insetos e criaturas rastejantes com fogo de tochas e fogueiras que também lhes aquecia nas noites frias.

Mas chegando as chuvas, eles já não podiam mais dormir ao relento.

Havia uma rocha fendida ao pé do monte cuja abertura dava para uma caverna que possuía marcas e gravuras em toda a extensão de suas paredes.

Ali Adão depositara as porções de incenso, ouro e mirra que trouxera consigo do Éden, bem como ciprino, estaque, e canela: tesouros de uma glória obsoleta.

Naquela Caverna dos Tesouros, encontraram refúgio para seus pés cansados. Com palha, fizeram seu leito sobre a rocha fria e com os oráculos ofertados por Kundalini, iluminaram o interior da gruta escura.

O fruto no ventre de Eva estava maduro e pronto para ser colhido.

Quando os fluidos desceram, Eva caiu por terra e pôs-se a gritar e chorar. A dor era tanta que ela sentia como se estivesse sendo rasgada ao meio.

Adão não sabia o que fazer. Tomou-a pela mão e sustentou-a de cócoras, apoiada nas paredes da caverna.

Ele já fizera o parto de tantos animais, mas nenhum parecia sofrer tanto quanto sua mulher. E ele sofria junto.

Como ela estava de cócoras, com as pernas abertas e as costas apoiadas contra a rocha, Adão ajoelhou-se diante dela e com a mão esquerda estendida em forma de concha, segurou a cabeça do primeiro rebento, e com a direita ergueu-o pelas pernas enquanto o bebê chorava incomodado ao respirar pela primeira vez o ar do Novo Mundo.

Ele o colocou sobre os seios de Eva, que o abraçou com ternura, mas logo vieram novas dores e ela, de igual modo, deu à luz uma filha, que se aconchegou junto ao irmão, tateando os seios da mãe em busca de comida.

Adão e Eva beijaram-se, e beijaram seus filhos, chorando de alegria.

“Preciso subir ao monte e agradecer ao Altíssimo por esta grande dádiva.”

“Subirei contigo.”

“Deves descansar e alimentar os rebentos.”

Eva ficou na caverna. Adão saiu, ainda eufórico com a novidade. Foi até o descampado onde o rebanho pastava e escolheu, dos cordeiros que haviam nascido fora do Jardim, o mais belo e robusto.

Amarrou uma corda em seu pescoço, vendou-lhe os olhos, colocou um feixe de lenha sobre suas costas e levou-o até o topo do monte.

Chegando ao altar, arriou o feixe de lenha e tirou a corda do pescoço do cordeiro, que agitava a cabeça, querendo livrar-se da venda. Mas Adão não conseguiria olhar novamente no fundo daqueles olhos espelhados clamando silenciosamente por mais vida.

“Não te preocupes, Abu, ficará tudo bem.” Adão sussurrou ao ouvido do cordeiro e beijou-lhe o focinho. Enquanto seus lábios tocavam o pelo macio do pequeno arno, desciam-lhe copiosas lágrimas pela face.

Lembrou-se de tudo o que Eva havia dito sobre os sacrifícios e o caminho até o topo do monte nunca lhe pareceu tão longo. Lembrou-se de tudo o que vivera ao lado daquele cordeiro, do dia em que ajudou Aza a parir o pequeno arno que pulou serelepe e desengonçado ao seu redor pouco depois, do dia em que Abu fugiu pelas veredas tortuosas do novo mundo, e do quanto Adão ficou feliz ao resgatá-lo de uma vala.

Abu parecia saber o que estava para acontecer. Deu um salto para trás. Adão o segurou e derrubou, amarrando-lhe as patas traseiras com a corda. Usando o jugo sobre o qual apoiara a lenha, prendeu as patas de Abu e ergueu-o de ponta cabeça fixando o jugo sobre os pilares do altar.

Com o cutelo, rasgou o pescoço do cordeiro, que deu um último berro. Tremendo e se debatendo, espirrou sangue sobre as vestes de Adão.

O cheiro forte do sangue morno entorpecia-lhe a mente. Adão se afastou para pegar a lenha e colocá-la sobre o altar sem conseguir controlar o choro.

“Por que choras?” Disse uma voz que se aproximava.

“Quem és tu?” Perguntou Adão limpando as lágrimas.

“Sou um mensageiro. E tu, o que fazes?”

“Ofereço este cordeiro em sacrifício ao Altíssimo.”

“Por que ofereces sacrifícios ao teu Senhor?”

“Eu não te posso dizer o motivo pois ainda não me foi revelado. O que sei é que antes de deixar o Éden, o filho do Altíssimo me instruiu a fazer desta forma.”

“Sabes como o Altíssimo descerá contigo ao abismo de escuridão em que caíste para trazer-te de volta à luz de onde vieste?”

“Os caminhos do Altíssimo são um mistério para mim.”

“Recebeste antes uma lei e, mesmo conhecendo as consequências de teus atos, por amor à tua esposa, transgrediste os conselhos do Criador fazendo com que a morte assolasse a Terra e todos os seus habitantes.

Mas agora, recebeste uma nova lei e, mesmo sem compreenderes os motivos desta oferta que de ti foi requerida, por amor ao teu Criador, tu obedeces mesmo à custa de grande pesar.

E por assim fazeres, é-te dado saber da porção que te cabe sobre a condescendência divina.

Por amor transgrediste e por amor obedeceste, és, portanto, agora como os Deuses, e sobre ti repousa a Sua misericórdia.”

O mensageiro fez sinal para que Adão prosseguisse com o sacrifício, conforme havia sido instruído pelo filho do Altíssimo.

Adão retirou a pele do animal, aspergiu o sangue sobre o altar e colocou o cordeiro sobre a lenha.

Tendo feito isso, fogo desceu do alto como um relâmpago, fazendo com que os gravetos ardessem em brasa e o cordeiro fosse consumido pelas chamas.

“Assim como, por amor ao Criador, sacrificaste este cordeiro, a quem também amavas; por amor a ti e à tua posteridade, o Altíssimo sacrificará Seu filho mais perfeito, a fim de pagar a dívida de uma barganha há muito deliberada entre Ele e a Velha Serpente, que agora demanda justiça.

E para que teus filhos se lembrem desse Cordeiro que há de vir no Meridiano dos Tempos — um Cordeiro branco e sem manchas, porquanto não se deixará contaminar pelas transgressões dos homens e viverá em acordo com todas as leis que dos homens e de Seu Pai receber; um Cordeiro que, perdido como este estava, ouvirá a voz do que clama por Ele no deserto e, voltando-se para o alto, fará maravilhas entre os povos; um Cordeiro que, como este, será traído com um beijo no rosto por alguém em quem depositou Sua confiança; um Cordeiro que, como este, derramará Seu sangue diante das demandas da Justiça e reclamará para Si o que é Seu de direito; um Cordeiro que, como este, terá Suas vestes arrancadas diante dos homens e Sua nudez será revelada perante todos, com a carne coberta em sangue; um Cordeiro que, como este, será erguido em um jugo suspenso por uma corda, exposto às moscas e à maldade daqueles a quem Ele amou e serviu — sim, para que teus filhos se lembrem que este Cordeiro que há de vir fará tudo isso a fim de pagar o preço caro da liberdade que lhes permite ser quem eles de fato são, e agir conforme os ditames de sua própria consciência, conhecendo o que é divino e o que é natural e sendo portanto livres segundo a carne para escolher entre o que lhes faz bem e evitar o que lhes faz mal; sim, para que teus filhos conheçam o seu Salvador e possam reconhecê-Lo quando Ele descer de Sua morada na estrela que há de brilhar no Oriente, cujas revoluções permitem que de tempos em tempos se aproxime desta Esfera em que habitas, fazendo a noite tornar-se dia. E que, cruzando os céus deste Mundo, arraste consigo os mares, inundando cidades, e levantando um vapor de escuridão que fará o Sol esconder sua face por três dias; sim, para que teus filhos se lembrem de que o Filho do Altíssimo habitará na carne e dará por eles a Sua vida, recebes agora esta Lei de Sacrifício, sendo o sacrifício deste cordeiro à semelhança do sacrifício do Filho Unigênito do Pai, que é cheio de graça e verdade.

Pois a morte é salário do pecado, e quando um Homem sem pecados reclama sobre si a morte, Ele quebra as cadeias desta dívida e oferece a Si mesmo como Mediador de todos os mortais para que vivam.

Portanto, em nome do Filho, tu poderás reparar teus erros e endireitar teus caminhos a fim de que naquele dia, sejas levantado do pó para comeres do Fruto da Árvore da Vida e, como o Pai, viveres para sempre do modo em que aqui te preparaste para viver: tu e Eva e toda a tua posteridade. Pois, assim como, pela transgressão de um homem, a morte recaiu sobre todos; pela retidão de um Cordeiro, a vida resplandecerá em todos para sempre.

Um vento soprará do Oriente e o pó miúdo se ajuntará, fazendo com que os mortos voltem todos a andar sobre a Terra num corpo perfeito, à semelhança daquele que tinham quando eram mortais.

E, cada um a seu tempo, todos encontrarão seu Criador, com uma consciência plena de tudo o que um dia pensaram ser e de tudo o que de fato conseguiram se tornar. E se ao cascalho a quem foi dito que se tornaria castelo tornar-se apenas uma choupana, saberá que foi a melhor choupana que poderia ter sido e nisto encontrará alegria. Por isso, ninguém aspirará para si mais do que lhe cabe, pois todos se conhecerão com um conhecimento perfeito, que só lhes é possível ter porque tu, Adão, transgrediste, a fim de que eles pudessem existir e encontrar alegria.”

“E quando será este Meridiano dos Tempos? Quando poderei voltar à terra de minha herança e comer do fruto da Árvore da Vida conforme disseste?”

“O tempo como o homem conta é diferente do tempo como contam os Deuses. Naquele Astro onde o Pai habita, todo o tempo que passaste no Jardim, desde o dia de tua criação até o dia de tua queda, contou como um único Dia somente: um Jubileu.

Então, de acordo com as medidas de tempo do Criador, na aurora do segundo Jubileu, tu multiplicarás e encherás a terra e ao cair da noite daquele Dia, descerás ao pó. Passados cinco Jubileus de tua partida para o Mundo dos Espíritos, teu corpo ganhará forma novamente e teu espírito deixará o Mundo dos Mortos para habitar outra vez na carne.

Naquele Dia, o Querubim embainhará sua espada e, ao lado de tua esposa e dos filhos que forem considerados dignos de se levantarem contigo, tu entrarás triunfante no Jardim, e comerás do fruto que fará de ti um Homem de Muitos Nomes como o Pai. E, na manhã do sétimo Dia, terá início o Dia de teu Descanso.”

“E o que sucederá àqueles que não forem considerados dignos de se levantarem comigo?”

“Haverão outras manhãs e outras tardes de outros Dias de ressurreição, mas terminados os tempos da mortalidade do homem, todos haverão de voltar à vida. E ao lado do Cordeiro, tu reinarás triunfante.”

O fogo consumiu a oferenda e o mensageiro sumiu em meio à fumaça das brasas do altar.

Adão desceu do monte e abraçou sua esposa e seus filhos na Caverna dos Tesouros e repetiu para ela as palavras que ouvira.

Tomando em seus braços sua filha, disse, “Teu nome será Ima, pois como pó miúdo tua posteridade se espalhará pela Terra.”

E ao menino disse, “Porque este é o dia do começo de nossa redenção, teu nome será Abu.”

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