21 de novembro de 2016

Capítulo 18: O Despertar de Lilith

21 novembro Escrito por Eliude Santos , , 2 comentários
As paredes do tempo são sólidas para o homem e se erguem às margens duma estrada reta e apertada que numa descida íngreme só lhe permitem correr rumo ao abismo do futuro, levando na mente as lembranças dos momentos mais marcantes em que ele se deixou inundar pelo presente, e viveu.

E assim será até que ganhe o entendimento de que o tempo como ele o percebe não existe. O que existem são atos e palavras, eternizados em ondas que fazem vibrar a luz e o som de cada instante pela imensidão do universo nas mais variadas frequências.

O tempo é um eco.

Passado, presente e futuro se unem numa dança frenética de modo que tudo o que fazemos, tudo o que falamos e até mesmo tudo o que sentimos deixa de ser momento e passa a ser lembrança ou projeção num piscar de olhos.

Na esfera espiritual, as paredes do tempo são permeáveis, de modo que, se encontramos aquela frequência exata que buscamos, nossos olhos se abrem nela.

E foi assim que os arcanjos encontraram o paradeiro de Lilith.

Sanvi, Sansanvi e Semangelai, que no meridiano dos tempos desceriam à Terra com os nomes de Pedro, Tiago e João, foram os arcanjos escolhidos para vasculharem as páginas do tempo a fim de encontrarem o paradeiro da foragida.

E este é o relato que ouvimos de sua boca quando voltaram a ter conosco no Jardim.

★★★

No dia em que os deuses, arcanjos e querubins deixaram o Éden, Heylel e Samael atravessaram apressadamente as águas do Eufrates e vieram ao encontro dos pequenos infantes.

Mas antes que pudessem tocá-los, Kundalini saltou no meio deles e envolveu os pequenos sob suas asas.

“Quem sois vós?” Disse o dragão com sua voz rouca e estrondosa.

“Eu sou o príncipe deste mundo e este é o senhor destas terras.” Respondeu Lúcifer, apontando para Samael.

“Os Senhores desta terra acabaram de deixar o Jardim e não conheço outros príncipes deste mundo que não sejam os infantes sob a proteção de minhas asas.” Retorquiu Kundalini.

“E tu, quem és?” Perguntou Samael.

“Sou Kundalini, o guardião da Árvore da Vida e da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.” Disse o dragão, orgulhoso de sua posição de destaque entre as outras bestas do Jardim.

“Estamos honrados em conhecer tão nobre e sagaz criatura. Vê-se que tua inteligência em muito excede a das outras bestas do campo.” Disse Lúcifer, fazendo-lhe reverência.

“Sou apenas um servo, meu senhor.” Disse a serpente alada, retribuindo a reverência.

“Com tão majestosa aparência, certamente foste criado para ser muito mais do que somente um servo.” Insistiu Lúcifer em seus elogios. “Diz-nos, nobre dragão, por que motivo tais árvores necessitam de proteção?”

“Estas árvores não são deste Mundo, meu senhor. Foram trazidas ao Jardim muito antes de mim.

Segundo o que ouvi, a árvore branca é a árvore de leite e mel que cresce em abundância nos jardins da Mansão Celestial. Seu fruto suculento e dulcíssimo é ainda mais alvo que as folhas de seus formosos galhos e inebria a alma de quem dele comer reparando quaisquer danos que lhe tenham enfraquecido o espírito. Seus ramos de sabor amargo podem curar quaisquer enfermidades que façam definhar o corpo físico.

A árvore de folhas vermelhas é a árvore do sangue do Cordeiro, o sangue incorruptível Daquele que, mesmo sendo mortal, venceu a Morte e garantiu a continuação das vidas para além da Esfera onde habitara.

Diz-se que o Criador, quando esteve na mortalidade, numa Terra como esta, apresentou-se diante daqueles que possuíam as chaves da Justiça daquele Mundo e verteu Seu precioso sangue diante de seus pés, o sangue da condescendência divina.

Seu sangue, expelido em grandes gotas que Lhe escorriam pela pele enquanto era torturado com a dor da compreensão de todas as coisas, foi colhido e levado por aqueles que exigiam justiça ao abismo onde eles fariam habitação.

Ali, o sangue do Cordeiro foi aspergido sobre uma semente venenosa que no Caos daquele buraco negro germinou em galhos e folhas carmesim que desabrocharam em frutos encarnados.

Tais frutos, se ingeridos, podem contaminar a seiva medular que vivifica o corpo dos seres imortais levando-os a uma iminente e irremediável morte.” Explicou Kundalini.

“Se estavam tão revoltadas contra o Criador, por que tais criaturas não se utilizaram de tão poderoso veneno para livrarem-se permanentemente de seu Opressor quando Ele esteve em sua presença? Por que não lhe prenderam e forçaram-Lhe garganta adentro o néctar mortal desta taça amarga?” Perguntou Samael.

“Porquanto um contrato havia sido firmado entre eles, antes da fundação daquele Mundo e o Criador cumprira Sua parte no acordo.

Se fosse encontrada qualquer falha em Seus procedimentos, Ele certamente teria sido forçado a comer do fruto e pereceria, deixando assim de ser Deus.”

O dragão já começava a se incomodar com as perguntas daqueles estrangeiros.

“Quais eram os termos desse contrato, afinal?” Indagou Lúcifer.

O dragão ficou calado por um tempo. Ele sabia a resposta para aquela pergunta, mas não gostava do rumo que aquela conversa estava tomando. No entanto, por força do hábito, deixou escapar. “Foi decretado que o Criador jamais poderia oferecer os frutos daquela árvore a Seus filhos.”

“E por que razão um Pai haveria de oferecer veneno para Seus filhos? Que espécie de Pai é este?” Espantou-se Samael.

“Contaminando-se a seiva medular de seres físicos imortais com tal veneno, ela escurece e produz sangue. Com o sangue, vem a morte; mas também a fertilidade, que transformaria filhos perfeitos em pais corrompidos. Tornando-se férteis e gerando progênie, homem e mulher tornam-se coparticipantes na Criação.

Por isso o primeiro grande mandamento do Criador para Seus filhos foi o de crescerem, multiplicarem-se e encherem a Terra, porquanto, se assim não fizerem, toda a ninhada de filhos espirituais do Criador jamais ganharia um corpo. E todo o esforço da Criação teria sido em vão.” Lamentou o dragão.

“Então, os espectros dos filhos do Criador ficarão vagando pelo Mundo até que estes dois infantes decidam comer do fruto de uma árvore que seu Pai está proibido pelas demandas da Justiça de lhes oferecer? Não me parece que esse plano tenha qualquer chance de triunfo.” Disse Lúcifer com ironia.

“Se entendi bem, o fruto da árvore branca poderia curar as enfermidades espirituais daqueles que serão trazidos para esta Terra para aguardar seu nascimento.

Por que não saímos anunciando as boas novas e convidando os espíritos que vagam por este vasto mundo a virem comer do tal fruto?

Sua vida seria certamente bem menos miserável lembrando-se de quem são e do que vieram fazer aqui.” Sugeriu Samael.

“Sendo esta árvore de natureza física, seres puramente espirituais não seriam afetados por ela. Teriam que ter recebido um corpo físico imaculado como o desses pequeninos, comido primeiramente da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal para que seu corpo se enchesse de sangue e o veneno da mortalidade começasse a correr em suas veias. Somente então poderiam provar do fruto da Árvore da Vida e serem restituídos à sua forma perfeita.” Rebateu Kundalini.

“Então, se estes infantes não comerem do fruto, permanecerão nesse estado de inocência para sempre? Como cumprirão a lei de seu Senhor de multiplicarem-se e encherem a Terra? Pode seu Criador revogar a primeira lei ou a segunda?” Perguntou Samael.

“Um Deus sabe de todas as coisas desde o princípio. E se Ele se sujeitou às demandas da Justiça ao decretar esta palavra de sabedoria é porque sabe que precisa daqueles espíritos inferiores para manter o equilíbrio e crescimento de Seus domínios.

Eventualmente os infantes perceberão a escolha à sua frente e optarão por comer do fruto.” Kundalini desceu sua cabeça à altura dos olhos de Adão e Lilith, que estavam entretidos com o brilho furta-cor de suas asas, e puxou-os para mais perto de si.

“Não me parece que estes infantes perceberão sozinhos o que fazer.” Disse Lúcifer.

“Não há nada que possamos fazer, senão lamentar pelos filhos do Criador que jamais experimentarão os sentidos da carne nem haverão de se lembrar de sua origem divina ou motivo de sua existência.” Samael completou.

Ambos se despediram e seguiram caminho. Kundalini pôs-se a pensar.

Os infantes cresceram e, como os estrangeiros haviam predito, não pareciam entender o que deveriam fazer.

Eles lembravam claramente das palavras de Eloim e mantinham distância das árvores de fruto proibido.

Adão deu nome a todos os animais do Jardim e agradava-lhe brincar com eles sobre a relva, correr pelas campinas, nadar nos rios e riachos e voar por sobre as copas das árvores nos dorsos das grandes aves. As bestas do campo conheciam a sua voz amiga e confiavam nele.

Lilith também se agradava em acompanhá-lo em suas aventuras pelo Éden, mas o que lhe encantava de fato era ver as pequenas transformações que se davam no Jardim: o desabrochar de uma flor, uma borboleta saindo de um casulo, o nascimento de um novo filhote, estes eram alguns dos eventos que lhe arrancavam da rotina e sobre os quais gostava de conversar quando ia ao encontro de Kundalini.

No entanto, a despeito de sua curiosidade ou instinto desbravador, mais de quinhentos invernos haviam caído sobre o Éden sem que Lilith ou Adão sequer se aproximassem das árvores sagradas no centro do Jardim.

Adão sabia que para multiplicar-se e encher a Terra, conforme o seu Criador lhe ordenara, ele precisava deitar-se sobre Lilith, assim como faziam os outros animais do Éden.

No entanto, a despeito de suas tentativas, Lilith não concebia.

“O que fizemos de errado?” Perguntou Adão preocupado.

“Não somos como os animais do campo. Não deves subir sobre mim como eles fazem uns com os outros.” Queixou-se a mulher. “Deixa-me subir sobre ti para que eu possa te conduzir para dentro de mim sem desconforto. Assim, seremos uma só carne e meu útero se inchará como os bulbos das flores e dará fruto.”

“Quem colocou estes pensamentos em tua cabeça, mulher?”

“Ninguém os colocou aqui. Não posso eu mesma formular meus próprios pensamentos?”

“Por que não podes ser como os animais do campo que alegram-se em ouvir a minha voz e vêm correndo ao meu encontro quando lhes chamo pelo nome?”

“Novamente me comparando a eles, Adão?”

“Por que te ofendes? Eles já estavam neste Jardim muito antes de nós. O Criador quer que aprendamos com eles. E entre as muitas coisas que os vi fazer, esta talvez seja a mais importante para nós neste momento, pois não cumpriremos o primeiro grande mandamento sem que façamos como eles. Permite, pois, que eu deite sobre ti.”

“Eu entendo que somente nos unindo em uma só carne podemos cumprir o mandamento de nos multiplicarmos e enchermos a Terra. O que quero que entendas é que viemos para cá juntos, fomos feitos do mesmo pó para juntos encontrarmos nossa felicidade.

Mas, se o que te faz feliz me reprime ou coloca-me numa posição de desconforto, não é sábio que reconsideres?

Afinal, que felicidade há em sentir-se diminuída e violada? Pois é assim que me sinto quando sobes sobre mim?”

Adão não sabia o que responder, pegou um galho de uma árvore que estava caído no chão e começou a arrancar seus gravetos.

“Que estás fazendo?” Perguntou Lilith preocupada.

Adão manteve-se em silêncio e cravou o galho entre duas pedras. Usando-o como alavanca, moveu a pedra de cima.

“Que estás fazendo?” Insistiu a mulher.

“Um altar.”

“O que é isso?”

“Kundalini disse que viu o Altíssimo descer de entre as nuvens do céu para nos formar do pó desta Terra. No entanto, já voamos no dorso dos fênices e dos zizes por sobre as copas das árvores e por cima dos montes e não vimos sinal algum do Criador. Ele se foi.

Eu avistei, no entanto, muitas edificações à leste do Éden, além das margens do rio. Talvez o Criador tenha ido visitar outros como nós e se deteve por lá.

Talvez tu e eu não sejamos suficientemente industriosos nem verdadeiramente fiéis.”

“O Criador disse que Kundalini nos diria tudo o que precisássemos saber. Por que não vais até ele?”

Adão continuava rolando as pedras e amontoando-as à semelhança das edificações que avistara nas terras além dos limites do Éden.

Lilith saiu correndo na direção das árvores sagradas.

Com lágrimas nos olhos ela caiu sobre o solo diante da grande serpente e chorou.

“Por que choras?” Aproximou-se Kundalini.

“Não sei o que fazer.” Lamentou a mulher. “Adão quer deitar-se comigo.”

“E isto é ruim?”

“Não sei. Achas que nossos Pais não voltaram mais ao Jardim por minha causa?”

“Por que pensas isto, minha pequena?”

“Adão está construindo um altar de pedras. Ele viu grandes edificações além dos limites do Éden e acha que o Criador talvez se tenha detido naquelas terras encantado com a industriosidade de seus outros filhos. Por isso nos abandonou aqui.”

“Tolice. O Criador voltará quando estiverdes prontos.”

“Mas até lá, não sei o que fazer.”

“No dia em que vosso Pai deixou o Jardim, estrangeiros vieram dessas cidades longínquas para vos visitar. Durante sua breve visita, plantaram uma semente que tenho amadurecido em minha mente desde então.”

“Que semente é essa?”

“E se o Criador vos disse para não comerdes do fruto destas árvores somente para vos pôr à prova? E se o único meio de cumprirdes as ordens mais importantes que Ele vos deu seja pela dor do amadurecimento, uma dor que vos consumirá por terdes comido deste fruto do qual fui posto como guardião?”

“Achas que devemos desobedecer os mandamentos de nosso Pai?”

“Acho que tu, Lilith, deves buscar em teu coração o que deves fazer para aplacar tua tristeza. E prometo que não me porei em teu caminho qualquer que seja a tua decisão.”

“Nosso Pai nos disse que se comêssemos deste fruto certamente morreríamos.”

“Sabes o que é a morte?”

“Não conheço a morte. E também desconheço o que nos acontece depois de provarmos dela.”

“E por que temes algo que não conheces?”

“Não é por temor da morte que evito comer do fruto, mas porque nosso Pai nos disse para não comermos dele.”

“Ele também vos disse que me buscásseis quando necessitásseis de instrução. Talvez o meu papel neste Jardim não seja de fato impedir que proveis dos frutos destas árvores, mas guardá-las para que tenhais frutos em abundância quando decidirdes deles provar.”

“Não achas que há outro meio?”

Kundalini arrancou um dos frutos da árvore de folhagem vermelha e estendeu-o na direção da mulher.

“Só há um modo de descobrir.”

A mulher pegou o fruto em suas mãos e o mordeu. O suco vermelho escorreu-lhe no canto dos lábios e ela passou a língua para se limpar. O fruto tinha um sabor agradável, ainda que amargo.

Sua cabeça pareceu leve por alguns instantes e de repente todas as angústias que guardava em seu coração lhe pareceram tão pequenas que sorriu.

“Por que estás sorrindo, Lilith? Estás bem?” Perguntou Kundalini à mulher, visivelmente alterada.

Lilith acariciou seu próprio pescoço, desceu suas mãos aos seus seios, sua barriga, sua genitália, passou-as por entre as coxas, acariciou os lábios. Sua respiração estava mais intensa. Sua testa suava e seu rosto aos poucos foi ficando mais corado.

“Não te preocupes, estou bem.” Disse a mulher para tranquilizar o dragão.

“O que houve?”

“O homem não é nada sem a mulher, e porque ele tentou fazer-me menor do que ele, não me merece por perto.”

“Se deixares o Jardim, o que será dos filhos espirituais que o Criador trouxer para esta Terra? Eles nunca terão um corpo físico como o teu. Precisas do homem para cumprir o primeiro grande mandamento.”

“Descumpri uma das palavras de sabedoria do Criador esperando que algo terrível acontecesse; no entanto, encontrei grande prazer e regozijo neste feito.

Ele disse que assim que provasse deste fruto eu certamente morreria e aqui estou, mais viva do que nunca.

Talvez deva sair pela Terra em busca deste tal Criador. E quando encontrá-lo, perguntar-lhe por que nos enganou todo esse tempo.”

Kundalini esticou suas asas.

“Não vais a lugar algum. Estás alterada. Acalma-te que irei buscar o homem para que possais conversar.”

“Não há nada para conversar.”

Ela rapidamente agarrou alguns cipós e prendeu-os à cabeça do dragão, montando sobre o seu dorso.

Ele tentou revidar, mas ela manteve-se firme.

“Não há mais o que fazermos neste Jardim. Assim como eu desobedeci às leis deste lugar sagrado no exercício de minha curiosidade, tu também o fizeste por me convenceres a comer deste fruto.

O que achas que acontecerá contigo se ficares aqui? Vem comigo e eu serei tua protetora e tu o meu guardião.”

“Para onde iremos?”

“Para longe deste lugar.” Disse a mulher apontando na direção do sol nascente.

Tendo ouvido os urros do dragão, Adão veio correndo para o centro do Jardim, mas quando chegou, Kundalini já havia alçado voo levando a mulher em seu dorso para além das margens do Rio, na direção das grandes edificações.

Havia uma ponte estreita e uma barra de ferro sobre a ponte que seguia desde a nascente do rio até sua outra margem.

O dragão sempre lhes instruíra a não cruzarem aquela ponte.

Adão estava confuso e não sabia o que fazer.

Ele viu os restos do fruto proibido no chão e quis cruzar o Rio para socorrer a mulher; mas quem lhe socorreria caso se perdesse pelos caminhos tortuosos daquele Mundo escuro e triste e não conseguisse mais achar o caminho de volta?

Ele ficou.

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