9 de novembro de 2016

Capítulo 17: “Não é Bom que o Homem Esteja Só”

09 novembro Escrito por Eliude Santos , , 4 comentários
Ahman encontrou o Jardim no ápice de seu esplendor. O homem fizera um bom trabalho naqueles mil anos terrestres em que a comitiva de deuses se ausentara.

Por ainda não haver provado do fruto amargo do conhecimento, Adão não tinha sangue correndo em suas veias, de modo que, ainda que seu corpo houvesse amadurecido com rapidez até atingir a idade perfeita, seu semblante, como o dos deuses, mantivera-se jovial e imutável; e sua alma, inocente como a de uma criança.

Eloim, Jeová e Rafael observavam-no do mirante de Sua nave, oculta entre as nuvens. Não conseguiram, no entanto, avistar sua companheira.

“Chama a Sanvi, Sansanvi e Semanguelai e diz-lhes que vasculhem as paredes do tempo em busca da mulher que demos a Adão por companheira.” Disse Eloim a Rafael. “Descerei com Jeová para falar com o homem e depois iremos até ela.”

“Sim, Eloim.” Rafael deixou o mirante e foi em busca dos arcanjos.

Jeová e Eloim desceram num facho de luz que se abriu em uma das escotilhas da nave.

Adão estava aos pés de um altar de pedras que aparentemente ele mesmo havia construído. E clamava com as mãos estendidas para o alto.

“Ó Deus, ouve as palavras de minha boca. Ó Deus, ouve as palavras de minha boca. Ó Deus, ouve as palavras de minha boca”.

“Levanta-te Adão. Tuas preces foram ouvidas.”

O Pai e o Filho estavam parados no ar a um tiro de pedra de distância do altar.  Sobre eles, descia uma coluna de luz que parecia vir de entre as nuvens, de modo que Seu semblante era resplandecente como o Sol do meio dia.

Seus pés pareciam firmes sobre alguma plataforma translúcida, de modo que para o homem, flutuavam como se fossem aves sem asas.

Adão, que, a despeito da instrução dada pelo Criador, permanecera ajoelhado diante do altar, assustou-se com aquela visão e cobriu os olhos com o antebraço.

Embora a princípio não Os tenha reconhecido, a voz Daquele que lhe falava do alto soara-lhe tão familiar que aos poucos abaixou o braço e atreveu-se a abrir os olhos.

Um dos Homens de túnica branca deu um passo à frente. Adão voltou a cobrir o rosto.

“Não temas, Meu filho. Onde está a mulher que te demos por companheira?”

“Ela deixou o Jardim há muito tempo. Não sei de seu paradeiro.”

“Não foste atrás dela?”

“Como eu poderia? Tenho que cuidar do Jardim. Ademais, não sei o que há além do horizonte do Éden. Poderia perder-me e jamais encontrar o caminho de volta.”

“Onde estão teus filhos?”

“Não tenho filhos, meu Senhor.” A este ponto Adão já reconhecera os Personagens e já falava com Eles face a face. “A mulher que me deste por companheira não se agradava em deitar-se comigo.”

“Foi por isso que ela te deixou?”

“Não, meu Senhor. Ela foi enganada pelo dragão que guardava as árvores de frutos proibidos.”

“Onde está a serpente para que falemos com ela?”

“A serpente deixou o Jardim, levando a mulher consigo. Abriu as asas e voou na direção do sol nascente.”

“Também comeste do fruto?”

“Não, meu Senhor. Tu me proibiste de fazê-lo e obedeci as palavras que, de Tua boca, ecoavam nas paredes de minha memória.”

“E por que clamavas junto ao altar?”

“Buscava mais luz e entendimento.” Respondeu Adão.

“Quando estiveres preparado, receberás o que buscas. Por agora, retoma os teus labores. Muito em breve haveremos de vir a ti novamente.”

Enquanto voltavam à nave, Eloim indagou do Seu conselheiro, “Jeová, é bom que o homem esteja só?”

“Não é bom para o homem ficar sozinho, Eloim. O que faremos? Traremos Lilith de volta ao Jardim?”

“Somente ao homem à mulher compete tomarem tal decisão. Não nos cabe interferir em situações que eles consigam resolver sozinhos.”

“Sendo Lilith a única mulher na Terra, e recusando-se a voltar, como daremos corpos físicos aos espíritos que trouxemos conosco?”

“Façamos com que um sono profundo caia sobre Adão e tiremos dele uma costela. Com o material que colheremos da medula desse osso, criaremos um embrião e o colocaremos de volta no apêndice do homem para que ali seja gerada uma nova mulher para ser sua companheira e ajudante.”

“E que espírito chamaremos para dar vida à nova infante? Se Lilith não conseguiu convencer o homem a comer do fruto que faria com que sua medula produzisse sangue para encher-lhe as veias de modo que pudessem cumprir as leis maiores que Tu lhes destes, quem o fará?”

“Não desejava Sophia ocupar o lugar que estava destinado à sua irmã? Façamos então conforme o desejo de seu coração. Além do mais, ela sempre foi bem menos impulsiva que a primeira.”

“Assim seja.”

E assim foi.

Naquela noite, o homem foi sedado enquanto dormia e levado à nave, onde haviam instrumentos para a delicada cirurgia.

Com uma incisão feita em seu lado direito, a última costela flutuante de Adão foi retirada e o material colhido da medula foi manipulado para que um embrião fosse formado.

Usando o apêndice original como um útero, puseram ali o feto, que cresceu e se desenvolveu no corpo adormecido do primeiro homem.

Passadas sete luas cheias, uma nova intervenção foi feita e o bebê ainda desacordado foi tirado com um corte na parte inferior de sua barriga, junto com uma porção do apêndice, que foi descartada.

O espírito de Sophia foi trazido ainda desacordado e foi colocado no corpo em formação daquele bebê pré-maturo, que chorou copiosamente ao sentir o ar do novo Mundo rasgar-lhe as narinas.

As suturas foram feitas com uma precisão impecável e o homem não demorou a se recuperar. No entanto, ele foi mantido naquele sono induzido por mais duas luas crescentes.

Ainda na maca, dentro da nave, Adão começou a despertar. Tudo lhe parecia confuso e ele não lembrava como viera parar naquele lugar.

Ele ouviu um choro estranho, diferente do grunhido de qualquer animal que conhecia no Jardim.

Seus olhos mal conseguiam manter-se abertos. Aguçou os ouvidos procurando descobrir de onde vinha aquele som.

“Adão, desperta e levanta.” Disse a voz de Eloim, que se aproximou com uma criança nos braços, “Meu filho, eis aqui uma mulher que nós formamos e que te damos para ser tua companheira e ajudante.

Como a chamarás?”

Adão levantou-se e tomou o bebê em seus braços com cuidado.

“Eva”.

“Por que lhe chamarás Eva?”

“Porque ela é a mãe de todos os viventes.”

“Isto mesmo Adão. Porque ela é a mãe de todos os viventes.

E tu cuidarás dela como se ela fosse tua filha e assim aprenderás a ser um pai, como Eu.

Quando estiveres pronto, poderás desposá-la e juntos povoareis a Terra.”

“E quando saberei se estou pronto?” Perguntou Adão.

“Cresceste no Jardim com o intuito de levantar um reino e um trono para ti. Ao fim deste primeiro milênio de teu domínio, tu te tornaste o senhor do Éden e todos seguem a tua voz de comando, conforme te ordenamos que fizeste.

Mas, enquanto um rei é soberano em seu reino; um pai é servo em sua casa.

E quando entenderes a lei do sacrifício estarás pronto para recebê-la. E ninguém sacrifica mais os seus próprios desejos e ambições, o seu próprio tempo e a sua própria existência do que um pai devotado em ver a felicidade de seus filhos.”

Conduzindo Adão até o mirante da nave, Eloim mostrou-lhe a Terra aos seus pés.

“Olha esta bela Terra que organizamos para ti, e o Jardim que construímos às margens do Eufrates. Desceremos contigo ao Éden e ali daremos ordem para que tu e Eva multipliquem-se e encham a Terra para que tenhais alegria e regozijo em vossa posteridade, conforme fizemos quando eras um bebê recém-criado.”

Jeová aproximou-se e disse, “Será feito conforme Tuas palavras, Eloim.”

O semideus tomou no colo a pequena criança, apoiou sua outra mão no ombro de Adão e conduziu-os de volta ao Éden. Adão andava com dificuldade.

No Jardim, Eloim colocou Suas mãos sobre a cabeça de Adão e repetiu a ordenança que fizera quando aquele ancião de aparência jovial era ainda um bebê, tal qual aquela pequena infante que Jeová agora segurava com tanto cuidado em seus braços.

“Adão e Eva, Nós criamos para vós esta Terra e colocamos aqui todos os tipos de vegetação e vida animal. E ordenamos a todos estes que se multiplicassem em sua própria esfera e elemento.

A ti, Adão, demos domínio sobre todas essas coisas e te fizemos senhor de toda a Terra e de todas as coisas que estão sobre ela.

Agora Nós vos ordenamos, Adão e Eva, que vos multipliqueis e enchais a Terra para que tenhais alegria em vossa posteridade.

Também plantamos para vós este Jardim onde colocamos todos os tipos de frutas e flores e vegetação de toda espécie.

De toda árvore do Jardim podeis comer livremente, mas da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, não deveis comer; no entanto, podeis escolher por vós mesmos, pois assim vos é permitido fazer. Mas lembrai que eu o proíbo, pois no dia em que deste fruto comerdes, certamente morrereis.

Adão e Eva, lembrai deste mandamento que vos dou.”

Terminada a restituição da primeira bênção, Eloim estava pronto para despedir-se novamente de Seus filhos.

“Agora vai cuidar da mulher que te dei para que ela cresça e possa te ajudar a cuidar deste Jardim. Cuidai com zelo deste lar que preparamos para vós, sede felizes e alegrai-vos nas tarefas que vos dou.

Iremos agora, mas Nós vos visitaremos novamente e vos daremos novas instruções.”

Os deuses se despediram de Adão e Eva e voltaram para a nave.

Na nave, Eles reuniram os arcanjos para saber notícias de Lilith.

4 comentários:

  1. Emocionante o texto, que sensibilidade e doçura, fora o convite para a reflexição, agradeço pela oportunidade de dividir isto, hoje sinto que já aprendi a lição do dia

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    1. Obrigado, querido. Aproveita e lê os outros capítulos do livro enquanto escrevo os próximos!

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