4 de novembro de 2016

Capítulo 16: A Bênção Paterna

04 novembro Escrito por Eliude Santos , , Comente aqui
Jeová observava os corpos desnudos dos dois infantes e tentava achar algum traço dos gigantes espirituais que se escondiam por trás daqueles olhos espelhados e curiosos.

Ele estendeu sua mão para tocar o cabelo fino e escasso do pequeno Adão, que sorriu, ainda sem muito controle dos músculos da face.

Lilith, que estava fazendo bolhas com a própria saliva, estendeu a mãozinha, agarrou o dedo do semideus e puxou-o para a sua boca, mordendo-o com força.

Dois dentinhos incisivos já apontavam nas gengivas da pequena, mas o semideus ainda não tinha um corpo físico para sentir a dor gostosa daquela mordida. Ainda assim, ele sorriu para ela.

Eloim aproximou-se.

“Jeová, descemos e formamos o homem à Nossa própria imagem e conforme a Nossa semelhança, macho e fêmea os criamos do pó desta bela Esfera, e colocamos neles espíritos anciãos que lhes deram vida. A obra da Criação está concluída.

Reúne a todos e descansemos por um Dia para que a vida siga seu curso e os infantes cresçam e ganhem domínio sobre as bestas do campo, sobre os peixes e aves, e sobre as criaturas que rastejam pela Terra, de modo que o homem se torne o senhor deste mundo e de tudo o que para cá trouxemos.”

“Meu Pai, um Dia de descanso em Kolob serão mil invernos de silêncio no Jardim. Lúcifer certamente se aproveitará de nossa ausência para confundir os infantes recém criados.”

“Certamente que ele se aproveitará de Nossa ausência. Ainda assim, nem todos os seus gritos conseguirão sufocar a voz mansa e delicada de uma inspiradora bênção paterna.

No entanto, o que os infantes farão com esta lembrança familiar dependerá unicamente de suas próprias escolhas.”

Como um Pai zeloso, Eloim tomou-os no colo e abraçou-os com gosto.

Com um gesto silencioso, fez com que os demais arcanjos rodeassem os pequenos, cada um tocando o ombro do que se pusera ao seu lado e estendendo a mão direita ao centro do círculo.

À medida que Eloim falava, os demais repetiam as palavras de Sua boca, de modo que o verbo ecoava pelo Jardim.

“Meus filhos, ouvi as palavras de Minha boca. Meus filhos, ouvi as palavras de Minha boca. Meus, filhos, ouvi as palavras de Minha boca, pois Eu sou o Senhor vosso Pai e vos amo.

Pela palavra do Meu poder, viestes a este mundo, que por vós e para vós criei por intermédio do Meu Unigênito.

Assim como as árvores e animais que vos rodeiam, sede frutíferos e multiplicai-vos, e enchei a Terra para que tenhais domínio sobre ela. E os peixes dos mares e as aves dos céus e todas as criaturas vivas que se movem sobre a Terra saberão que sois filhos do Altíssimo.”

Abaixando-se, o Criador segurou os infantes de pé.

Seus joelhos trêmulos cediam ao peso do próprio corpo. Mas o Criador os sustentava para que sentissem o pinicar da grama na planta de seus pés.

“Adão, olha toda a imensidão de ervas e frutos que Eu vos dei por alimento, sim, toda erva que dá semente e toda árvore que dá frutos, nos quais encontrareis sementes que germinam em novas árvores. De todas elas podeis comer livremente.

Há, no entanto, duas árvores no centro do Jardim que não podem ser tocadas. Estas árvores crescem juntas e não pertencem a este Mundo.  E Kundalini, a serpente alada, se enrosca em seu tronco à semelhança das pequenas cadeias de elementos que em ondas e espirais criam toda a matéria que enche universos sem fim.

De todas as bestas do campo que, por intermédio do Meu unigênito, Eu criei, Kundalini é a mais inteligente. Por esta razão, ela foi posta como guardiã das árvores sagradas e vos instruirá em tudo o que precisais saber.”

A este ponto, o velho dragão bateu suas gigantescas asas por sobre a comitiva de semideuses e firmou suas afiadas garras nos troncos da Árvore da Vida e da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal que se abriam em copas frondosas no centro do Jardim.

Kundalini abraçou com sua enorme calda os troncos retorcidos que cresciam lado a lado.

O Criador continuou a proferir sua bênção.

“E tudo o que vos serve de alimento podereis ofertar às bestas que correm nos campos e às aves que voam no ar e à toda criatura que rasteja sobre a Terra para que saibam que aquilo que em abundância recebeis, em abundância havereis de compartilhar.

E nisto consistirá o vosso domínio sobre tais criaturas.

Porquanto aquele que é posto por regente deve entender que não possui nem pode dispor irresponsavelmente dos que sustentam o seu trono.

E tu, Adão, terás tempo de conhecer pelo nome a todas as criaturas que habitam este Jardim a fim de que com elas aprendas os ofícios e virtudes que te conduzirão em retidão até que Eu volte e te traga mais luz e entendimento.”

Adão titubeava na grama, aparentemente alheio à grandiosidade da cena que se dava às margens do Eufrates, mas as palavras de seu Pai gravavam-se em sua mente virgem como uma memória perene.

Sentando-se ao lado da pequena, Ahman olhou-lhe nos olhos e disse:

“Lilith, és livre para escolheres o caminho que trilharás nesta Terra. Mas lembra-te que aqui vieste para seres coparticipante na obra da Criação.

Antes de vires a este Jardim, teu corpo era estéril e etéreo, tal qual o corpo de todos estes arcanjos que ora te rodeiam. Podes tocá-los, mas eles não podem sentir o toque de tua mão. Podes beijá-los, mas eles não podem sentir o calor de teus lábios.

Mas nós, tua Mãe e Eu, temos um corpo como o que tens agora, de carne e ossos, imperecível e eterno, que sente cheiros e sabores, frio e calor, e que a tudo percebe com precisão.

No entanto, como os frutos novos dessas árvores do Jardim, teu corpo ainda não amadureceu nem desabrochou como o Nosso.

Para que sejas como os Deuses, discernindo o que é bom do que não te faz bem e apegando-te sempre ao que te torna melhor, precisas crescer e multiplicar e encher a Terra, pois somente quando carregares vida nova em teu ventre conhecereis, da forma mais íntima, a verdadeira obra da Criação.

Este é Adão, teu irmão, a quem deves unir-te como se fosseis um, para que, de teu ventre brotem os filhos dos Homens, e sejas enfim como Nós.”

Lilith caiu sentada e olhou para todos ao redor com cara de choro pelo desconforto da queda. Viu uma borboleta posando em uma flor ali perto e engatinhou até ela.

Os Deuses, arcanjos e querubins subiram em fachos de luz e partiram como que num relâmpago.

Do mirante de nossa nave, eu e Sophia observávamos a bela esfera azulada afastando-se no mar escuro e silencioso, onde astros dançavam em espiral ao redor da morada do Criador.

Era manhã quando chegamos em Kolob. A manhã do Sétimo Dia, o Dia do Descanso.

Os longos dias de Kolob nos permitiam ser muito produtivos e, neste sentido, aquele dia milenar não foi diferente dos demais. Tivemos tempo para refletir sobre nossas experiências, para aprender uns com os outros, e para compartilhar novos conhecimentos adquiridos.

No entanto, dada a natureza singular do que estava para acontecer, aquele foi um dia para esquecermos de nossos labores habituais e nos concentrarmos na melhoria e amadurecimento de nossos espíritos.

Afinal, quanto mais conhecimento se adquire em uma esfera de existência, mais vantagens se acumulam para serem desfrutadas nas esferas seguintes.

Além do mais, ainda não havíamos dado a saber à grande multidão de nossos irmãos sobre o andamento de nossos labores na nova Esfera.

E usamos este Dia para compartilharmos com aqueles que não haviam sido chamados como arcanjos governantes sobre tudo o que lhes aguardava no desenrolar do Plano de Salvação, cujos alicerces já começavam a ser firmados.

Claro que também houve espaço para a diversão, afinal, aquele era um dia de comemoração. E cantamos, dançamos, e celebramos porquanto aproximava-se o momento em que avançaríamos para um novo estado onde seríamos confrontados com situações que nos dariam a compreensão daquilo que de fato nos faria felizes, conhecimento este que nos tornaria mais semelhantes aos Deuses; ou até mesmo, deuses como Eles.

Fomos então divididos em doze casas, cada uma tendo um astro do novo sistema como planeta regente e um arcanjo que haveria de prestar contas por todos os anjos de sua casa.

Em seguida, representantes de cada casa foram espalhados em sete dispensações, sendo cada dispensação equivalente a um período de aproximadamente mil anos terrestres, ou seja, novos sete Dias na morada dos Deuses. E cada dispensação tinha um arcanjo responsável por prestar contas de todos os anjos que eles conduzissem ao novo Mundo.

Eu, Udiel, fui reservado para nascer na última dispensação a fim de que pudesse acompanhar todas as comitivas e trazer um relato de toda a história dos filhos dos homens conforme se desenrolassem os eventos de cada dispensação.

Miguel era o arcanjo responsável pela primeira dispensação, mas como ele já estava na Terra, no corpo de Adão, Eloim liderou a primeira grande comitiva.

Assim como foi com Miguel e Ninlil, todos os anjos da primeira dispensação foram despidos de suas vestes e posições, e receberam um novo nome.

Adentrando as inúmeras naves que seguiriam rumo ao novo Mundo, todos foram sedados e acomodados nos casulos que sofreriam a radiação dos anéis que circundavam o centro da galáxia onde os Deuses faziam morada.

Tal radiação anestesiaria suas memórias por um tempo, até que, pela graça do Criador, elas fossem novamente restauradas, mas não antes de que cada um fosse exposto à verdade suprema que lhe rege, que é o conhecimento da sua própria natureza e caráter.

Assim como eu, alguns arcanjos e anjos que haviam sido reservados para nascerem em dispensações futuras também acompanharam aquela comitiva como testemunhas do desenrolar da história humana.

Estes vestiram os mantos que lhes protegeriam da radiação na passagem pelos anéis de Yehuresh, de modo que conservariam sua memória intacta.

No entanto, para não macularem a natureza sagrada do Plano, faziam votos de não revelarem nada do que sabiam aos espíritos cujas mentes seriam entorpecidas pelo Véu do Esquecimento.

Quando chegamos ao novo Mundo, os espíritos foram retirados das naves ainda desacordados e espalhados pela Terra.

Ao despertarem, Lúcifer e seus anjos os acolheram em seu meio, apresentando-se como se fossem o próprio Criador e seus anjos.

Na esperança de recrutá-los, ele lhes alimentava com inverdades e verdades distorcidas de modo que muitos lhe davam razão. No entanto, dormindo, acordavam com a mente vazia novamente, como alguém que acorda de um sonho em um novo sonho. E cada sonho lhes parecia uma nova vida, de modo que não sabiam se já estavam na carne ou se ainda eram seres etéreos.

Depois de desovarmos todos os casulos, dirigimo-nos ao Jardim.


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