23 de junho de 2016

Capítulo 10: Às Margens do Eufrates

23 junho Escrito por Eliude Santos , , 4 comentários
Do centro das grandes espirais que, em torvelinhos se expandem pelos universos sem fim, as estrelas governantes emanam sua luz para estrelas de menor grandeza a fim de que estas iluminem os sistemas de astros que as rodeiam. Da morada dos Deuses, como raios de luz rasgando as ondas da malha cósmica, comboios gigantes faziam o translado dos semideuses e das sementes de vida ao novo Mundo.

As naves da comitiva de Yahweh, em sua quarta intervenção, transpassavam o véu do tempo e espaço cortando as ondas daquele revolto mar de águas escuras, que aos olhos de quem estivesse submerso pareceria sereno, silente e sombrio.

Ninlil foi a primeira daquela expedição a descer da nave e tocar o solo do novo Mundo.

As chuvas já haviam endurecido a crosta da Terra numa abundância de cores e formas que corriam em vales e montes até o horizonte onde a Porção Seca encontrava as Grandes Águas.

A força das águas sobre as rochas causara muitas erosões, de modo que a terra fora naturalmente arada e amaciada, e estava pronta para receber suas primeiras sementes de vida.

Ninlil pegou um punhado de terra vermelha em suas mãos e ficou imaginando como seria gostoso sentir o cheiro do barro que escorria por seus dedos, o tal calor aconchegante do mormaço quente do qual seus Mestres sempre falaram. Ou ainda, ver com a nitidez de um olho físico a cor acobreada do pôr do Sol sobre os montes rochosos refletidos nas águas do Rio à sua frente.

Ela sabia que para isso precisava se vestir de carne e sangue e por isso entendia a importância daquela expedição.

Os outros desceram, trazendo os primeiros caixotes com um pó orgânico que fora extraído de algas e fungos de antigos mundos para ser depositado nas nascentes daquele Rio, que chamaram Yehwprat.

Em contato com a água, aquelas arcaicas formas de vida foram levadas pelo leito do Rio, encrustando-se nas pedras e criando um lodo escuro que, alimentando-se dos nutrientes dos minérios ribeirinhos, cresceram em direção às margens, arriscando-se no solo úmido em forma de pequenos filetes de musgo.

A este ponto, Heylel, já ciente da chegada dos astronautas visitantes, veio ter com eles caminhando por sobre as águas do Rio.

Ao seu lado, Samael, um dos arcanjos que consigo fora também expulso do Seio de Ahman, acenava para que parassem.

“Que espécie de imundície é esta que lançais nos veios do Kibaranun?”, inquiriu Samael ao aproximar-se da comitiva de colonizadores.

Heylel fez sinal para que seu companheiro contivesse o ímpeto e aproximou-se de Yahweh falando com uma voz mansa e delicada.

“Irmão, perdoa-lhe, pois ele não sabe o que diz. Espero que entendas que, embora para ti e teus conservos, cada intervalo entre uma e outra de vossas visitas não vos tome mais que um instante; para nós que estamos presos neste astro teleste, tais ausências duram milhares de anos. Anos em que nossa vida vem seguindo seu curso, assim como o Kibaranun segue o seu.

Para mantermo-nos neste curso, organizamo-nos em um sacerdócio estabelecido à semelhança daquele Sacerdócio infinito e eterno de nosso Pai que está nos Céus.

Determinamos os limites de nossos poderes e influências e apontamos governantes para as cidades que, do pó etéreo dos elementos, erguemos em esplendor e ora ocupam todos os rincões deste belo mundo que outrora vos ajudamos a criar.

O Kibaranun alimenta quatro outros grandes rios que se partem em córregos e riachos que correm sobre e sob a superfície da porção seca de terra que juntos fizemos surgir de sob as Águas em vossa última visita.

O primeiro rio, Pison, contorna a grande cidade de Havillah, cujos edifícios e ruas foram erigidos dos espectros do ouro, fundidos e moldados com tamanha perfeição que agradariam o mais exigente dos Deuses. Do espectro das garras negras das ônixes que se chocaram com a Terra no momento de seu deslocamento final para ser colocada em sua órbita regular, e do marfim da bedolah aromática, ou pedra de mel perolado, como ficou conhecida entre os que se ocuparam do embelezamento das edificações, fizemos as estátuas e adornos que ocupam os grandes arranha-céus daquela majestosa cidade. E, sob o meu comando, Netunun governa sobre seus habitantes.

Demos ao segundo rio o nome de Gihon, e esse contorna todas as terras da Ethiopia, onde há minérios de toda sorte. Ferreiros e artesãos usam os espectros do cobre e do ferro para construírem fortalezas e armas. TuBaal é o senhor daquelas terras e também age sob minhas ordens.

Hiddekel é o terceiro braço do Kibaranun e corre para as terras do Sol nascente, onde Vishnu mantém acesa a chama do conhecimento trazido do alto em cânticos de encantamento e vibrações de transmutação dos elementos que reconhecem o poder de nosso sacerdócio.  

O quarto braço do rio corta as terras do Sul, governadas por Mahan. O Rio Mahanun é o rio dos prazeres, onde as entidades oleiras giram em festa.

E tudo isso fizemos para que não percamos a chama de luz que há em nós, como perderam aqueles que desertaram de nosso meio.

Pelas deliberações deste sacerdócio, Samael foi apontado como o senhor deste rio e eu, como o príncipe deste mundo. Acredito que deveríamos ter sido consultados antes de termos nossas terras invadidas e nossas águas poluídas com cinzas trazidas de mundos mortos para macular nossos lugares sagrados.”

“A dimensão etérea desta Esfera vos pertence até que o homem desça e se multiplique sobre ela e reclame para si o que lhe será dado por herança eterna.

Conheceis o Sacerdócio de nosso Pai. Sabeis que não podeis reclamar tal autoridade sobre vós. Quem vos dará crédito afinal?” Argumentou Yahweh.

Heylel sabia que a autoridade que reclamava para si e que era apoiada por uma legião de seguidores era ínfima se comparada àquela que era assegurada pelo Sacerdócio do Arquiteto do Universo, ainda assim, arriscou: “O homem para quem estais preparando este Mundo nos dará crédito, pois nosso sacerdócio lhe parecerá muito mais familiar que aquele que nosso Pai, do Alto, lhe revelará em migalhas.”

“Este avental negro que vos cobre a nudez é um emblema de vosso sacerdócio?”, perguntou Ninlil, curiosa.

“Sim. À semelhança deste avental branco que vossa comitiva usa e que vos permite manipular os elementos e poluir as águas do Kibaranum.” Respondeu Samael, ainda irritado.

“Doravante deveis referir-vos a este rio como Yehuprat, pois a luz acobreada que ilumina suas águas e que vem da estrela da qual Yahweh fez uso para dar luz ao novo Mundo será a primeira luz que verá o homem que haveremos de colocar no Jardim que aqui cultivaremos.” Interferiu Miguel.

“Kibaranum é o nome que ele recebeu do príncipe deste Mundo e assim continuará sendo chamado por nós que reconhecemos sua autoridade”, afirmou Samael.

“Se chamamos a uma flor de espinho, ela continua exalando o mesmo perfume; mas se chamamos a um espinho de flor, ele pode vir a ferir quem acreditar no rótulo errado que lhe dermos.” Advertiu Miguel.

“Chamai o Rio como quiserdes.” Disse Yahweh em tom conciliador.

“Sempre evitando conflitos. Não é à toa que foi escolhido pelas hostes celestes como seu Mediador. Mas o que haveria de mediar se em nada nos opuséssemos à vontade do Criador?” Atiçou Heylel em seu cinismo habitual. “O fato é que nos vestimos com esses aventais negros pois reverenciamos a Justiça que, das trevas, faz emanar sua sabedoria. E é em nome desta Justiça que reclamamos o que é nosso de direito. Afinal, se alguém foi posto por senhor deste Rio, nada aqui pode ser feito sem sua devida aprovação.”

“O Senhor deste Rio, desta Terra e de tudo o que é luz e matéria organizada até os confins deste universo é Ahman, filho de Chronos. Dele recebemos o verdadeiro Sacerdócio, que é uma porção do Seu poder e autoridade para organizar e embelezar este mundo conforme nos aprouver. E é isto que estamos fazendo. Contestareis nossa autoridade?” Disse Miguel, erguendo a mão com o braço em ângulo reto.

Jeová segurou-lhe o punho com firmeza. “Acalma-te, Miguel. Todo esse conhecimento secular e espiritual conservado pelas hostes de Heylel será muito útil para instrução do homem naquilo que não nos convém intervir,” e sussurrando para que os outros não ouvissem, continuou, “bem como nas mutações e distorções que eles haverão de infligir às obras originais da Criação, mudanças essas que permitirão que rosas venham a ter espinhos a fim de que tua analogia possa, por fim, fazer aqui algum sentido.”

“Pagarás um preço alto por sustentar tal padrão de nobreza.” Disse Lúcifer ainda parado sobre as águas do Eufrates, ao lado de Samael.

Ninlil aproximou-se de um dos caixotes e enfiou a mão no estrume que haviam trazido para depositarem nas águas do rio.

“O que chamais de imundície é apenas um composto de matéria orgânica rico em bactérias, fungos e proto-algas que foram conservadas de antigos mundos para garantir a fertilidade da terra onde haveremos de plantar o Jardim que receberá o primeiro homem e a primeira mulher deste novo Mundo, dando por finda a obra da Criação que nos foi comissionada.

Samael, não te avulteis, porquanto não é nosso intuito poluir as águas de vosso Rio sagrado,”

Ninlil caminhou por sobre as águas do rio até o lugar onde os dois espectros de avental negro haviam permanecido durante toda a conversa.

Ela colocou gentilmente um pouco do pó nas mãos de Samael e disse, “Tu podes levar esta ‘imundície’ contigo e continuar habitando uma terra seca e estéril, ou lançá-la nas águas do Rio e participar conosco de um dos maiores milagres da Criação.”

Samael deixou o pó escorrer por entre os dedos e Ninlil sorriu para ele.

Já era noite.

Nos dias que se seguiram o trabalho de fertilização da Terra continuou. As chuvas eram constantes naquela região, por isso haviam escolhido aquele lugar para ser o Éden do novo Mundo.

Em pouco tempo, a matéria orgânica que haviam depositado nas águas do Eufrates se espalhou pela terra seca, criando musgo e pequenos organismos que se reproduziram e fizeram surgir as primeiras samambaias, que a princípio eram tímidas e contorcidas, espremendo-se entre as rochas.

Os jardineiros trouxeram as mudas de plantas sem sementes, assim como as sementes de toda erva, arbusto e árvore frutífera segundo sua espécie e plantaram-nas no Jardim, à oeste do Eufrates, junto à nascente do Rio.

Após alguns solstícios, o Jardim já crescia em seu esplendor.

O mesmo acontecia nas terras a leste do Éden. Pois aquele estrume havia-se espalhado pelos braços do Eufrates e fertilizado as terras às suas margens.

Com o conhecimento que Ninlil havia compartilhado com Samael para manipulação das espécies, toda sorte de vegetação estava sendo cultivada além do Éden. Mas por causa da natureza etérea daqueles seres que manipulavam as mudas e do grau de fertilidade da terra aonde elas eram levadas, algumas mutações acabaram acontecendo nas plantações de modo que certas espécies perderam ou mudaram seu sabor, tornando-se amargas ou infrutíferas, ganharam cardos e espinhos, e toda sorte de ervas daninhas cresceram do solo para sufocar aquelas mudas que eram trazidas do Jardim.

Vendo que a Terra se havia vestido e adornado das mais variadas cores e espécies de vegetação, desde as mais altas sequoias, até as mais delicadas orquídeas, do musgo que se espalhava sobre terra às algas que dançavam conforme o movimento das águas, cada planta crescendo e se multiplicando naturalmente segundo a sua espécie, toda árvore agradável à vista cujo fruto era bom para alimento; sim, vendo que estava tudo pronto, Jeová trouxe duas árvores já crescidas para o meio do Jardim.

Uma era a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e a outra a Árvore da Vida.

Da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, brotava uma flor vermelha que, amadurecendo, gerava um fruto de sabor extremamente amargo. Tal árvore havia sido trazida de um outro Jardim como aquele numa outra Terra como aquela, e seu fruto trazia a semente da morte e do tempo em sua polpa carmesim.

Da Árvore da Vida, brotava uma flor branca que, amadurecendo, gerava um fruto igualmente alvo, de sabor extremamente doce e agradável ao paladar. Ela havia sido trazida dos Jardins que embelezam o Salão do Trono de Ahman, e seu fruto continha sementes de vida eterna.

Finda sua quarta intervenção naquela Esfera, Miguel sugeriu a Jeová que começassem os preparativos para retornarem à casa de seu Pai e fazerem-Lhe relato de seus feitos.

Ao despedirem-se, Samael trouxe uma rosa de uma roseira que ele mesmo havia plantado e cultivado além do Éden e deu-a a Ninlil.

Ela tocou as deformações espinhosas no caule daquela flor e sorriu. O arcanjo decaído sorriu para ela.

Numa coluna de luz, Ninlil subiu de volta para a nave, que partiu num repente.



4 comentários:

  1. Adorei. Estou ancioso esperando o próximo capítulo.

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  2. vc viu o filme Prometheus? (é um filme de ficção científica ligado ao Alien - o oitavo passageiro q diz q a humanidade é uma experimento científico alienígena) me lembrei ao ler esse capítulo com o semear de matéria orgânica. os primeiros segundos do filme são praticamente isso.

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    1. Sim, eu vi. No filme a divindade (ou o extraterrestre) se dissolve nas águas do rio para que suas moléculas, por processos naturais de evolução, gerem a vida da Terra. Na minha visão, esta manipulação foi mais ativa.

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