2 de maio de 2016

Capítulo 8: Os Primeiros Dias

02 maio Escrito por Eliude Santos , , 4 comentários
Quando adentramos aquela nuvem de matéria caótica que flutuava no mar negro e revolto da grande expansão, nossa comitiva já havia estudado todos os processos que fariam a aglomeração das matérias físicas e etéreas que estavam espalhadas nas cinzas líquidas daquela estrela morta, de modo que o pó e os gases se condensassem e formassem a engrenagem do novo sistema.

Sabíamos exatamente onde colocar os geradores de força que iniciariam as implosões que atrairiam as grandes massas de elementos até que se condensassem ao redor delas gerando ainda mais energia.

Agora, à distância, enquanto nossa nave se afastava da nebulosa, nos encantávamos com a beleza da obra de nossas mãos, explodindo e implodindo em grandes lagos de fogo e enxofre que sugavam toda a poeira e os gases ao redor num espetáculo de cores e sons, criando gigantescas ondas naquele oceano caótico de elementos que os filhos da perdição chamavam de lar.

Quando éramos aprendizes e nossos Mestres nos contavam de quando foram enviados para lançar os alicerces de Seus antigos mundos, nossos olhos espirituais projetavam Suas palavras em imagens vivas diante de nós.

No entanto, agora, aquela visão já não era mais uma mera projeção.

Não era a primeira vez que aquela comitiva lançava os alicerces para a organização de um corpo estelar, afinal, há a necessidade de que toda uma engrenagem sistêmica esteja alinhada para que a vida siga seu curso em um novo astro da expansão; mas aquela Esfera era diferente das demais, era nosso lar que por nossa própria intervenção ganhava forma diante de nós.

Havíamos espalhado geradores com diferentes capacidades de atrair energia sobre a face do abismo. À medida que as esferas giravam em torno umas das outras, criavam um torvelinho no líquido escuro daquela grande nuvem que fazia os elementos em desalinho serem atraídos e consumidos pela lava brilhante que começava a queimar toda a matéria ao seu redor.

No calor do fogo, os elementos recebiam novas ordens de organização, de modo que se transformavam de acordo com a necessidade que cada nova Esfera tivesse para a manutenção do equilíbrio da engrenagem de astros que permitiria que a vida pudesse ser trazida para o novo Mundo.

Como, por ordem natural, corpos menores revolvem em torno de corpos maiores, em decorrência da disposição dos geradores, partículas com menor concentração de energia começaram a girar em torno de partículas com maior concentração de energia.

E, à medida que giravam umas em torno das outras, estabeleciam relações de poder entre si, ganhando assim mais luz e forma. E a névoa ao seu redor ia se condensando e revelando as profundezas do grande abismo.

Tais revoluções criavam ondas na malha disforme daquela porção de poeira estelar. Nossa nave aproveitava as ondas criadas pelos astros em formação para lançar-se através das imensidões do espaço em nossa viagem de volta à Estrela de onde viéramos.

Atravessando o túnel escuro cavado nas gigantes ondas da expansão, avistamos a luz de Kolob e nossos corações se acalmaram. Estávamos em casa novamente.

Junto com outros arcanjos que chefiaram aquela expedição, eu, Udiel, acompanhei Jeová e Miguel ao Salão do Trono, onde Ahman esperava ouvir o relato de nossos feitos.

“Meus filhos, aproximem-se e contem-Me tudo que sucedeu em vossa viagem.”

“Meu Pai”, Jeová adiantou-se, “Nós fizemos conforme Tu nos havia instruído e descemos àquela teia inorganizada para dar ordem nova à matéria que Nos coube organizar.

E pela palavra de nosso poder fizemos separação entre as trevas e a luz a fim de prepararmos um novo astro como aqueles que antes formamos.”

“As trevas têm força suficiente para sustentar a luz em sua órbita?”

“Sim. Tudo foi feito conforme nos instruíste.”

“Vimos também que a luz era boa”, disse Miguel, “e demos por concluída nossa primeira intervenção na construção do novo sistema e na harmonização de suas revoluções dentro da grande teia de estrelas que enchem as imensidões de Teus universos. Demos à luz dos elementos em ebulição o nome de Dia; e ao vácuo escuro que sustentava os elementos em sua órbita, chamamos Noite.

A nova Esfera ainda não revolve em torno dos astros reguladores que controlam seus tempos e estações para que hajam dias e noites conforme o plano da Criação prevê, mas ver aquela luz emergir em meio às trevas foi certamente uma experiência grandiosa, a aurora de um Novo Dia para esta ninhada de Teus filhos.”

“Sim, Meus filhos, a luz é certamente a mais desafiadora das criações. Se os elementos das trevas não se deixam iluminar, não há energia; sem energia, não há matéria; e sem matéria, não há progresso. Universos inteiros entram em colapso e deuses morrem, consumidos pelas trevas.

No entanto, não se acende a chama da fornalha sem sujar as mãos de carvão.”

Olhando-me nos olhos, perguntou, “Como foi vosso encontro com os dissidentes, Udiel?”

“Há muita mágoa em seus olhos. Muito pranto e ranger de dentes no mar de fogo e enxofre que eles agora chamam de lar.”

“Um mar que resfriará criando a terra seca onde vossos pés e os deles descansarão.”

“Sim, acredito que este será o objetivo de nossa segunda intervenção.

Quanto aos dissidentes, embora tenhamos encontrado resistência de certa parte de suas hostes, houve também muita cooperação.

Confesso que não esperava encontrá-los em tal estado de miséria e ainda assim poder contar com seu apoio.”

“Percebo que o sofrimento dos dissidentes te compadeceu, criando uma sombra de dúvida em teu coração a respeito da justiça de Meu julgamento.”

“Como poderia eu não me compadecer? Muitos deles eram arcanjos como eu. Fomos instruídos pelos mesmos Mestres, tivemos as mesmas oportunidades de crescimento. Poderia ser eu em seu lugar.”

“Teu sentimento é nobre, Udiel. Mas se um sentimento nobre te faz duvidar de Meu amor, morre nele mesmo a tal nobreza. E este será o maior teste de vosso futuro Estado. Afinal, reconhecer o amor de um pai quando tudo está em harmonia é fácil, mas entender o amor de um pai em tempos de crise será certamente vosso maior desafio.”

Sem entender exatamente a necessidade de tal crise ser instaurada em nosso meio, indaguei, “E por que não manter tudo em harmonia? Por que temos que estar sempre caminhando tão próximos do abismo? Eu não quero correr o risco de deslizar e não poder retornar à Tua presença.”

“Se qualquer um de vós não puder retornar é porque será mais feliz longe de Mim.”

“Que felicidade se pode ter longe de Ti?”

“A plenitude da alegria está na deidade, que é paternidade e maternidade infinita e eterna. Longe de Mim ainda há a amizade e a fraternidade, que permitem níveis distintos de felicidade. Ao Meu lado, o que faz um feliz, faz a todos, pois somos Um. Longe de Mim, tais níveis de felicidade são mais diversos e pessoais.”

“Não conheço um único de meus irmãos que seria feliz tendo uma vida diferente da Tua, ou vivendo longe de Ti.

Nós Te amamos tanto, meu Pai.”

“Isto porque não conheces os teus irmãos nem as vidas que escolherão levar quando estiverem longe de Mim. Não duvido do amor de muitos de vós, pois vos conheço. Mas conheço também a carne e sei o efeito que ela exercerá em ti e em cada um deles. E cada sofrimento e cada momento de alegria vos definirá e vos ajudará a compreender vossa própria identidade.

Agora ide e ajuntai vossos irmãos para descerdes outra vez ao novo Mundo. Desta vez, fazei separação entre as águas, de modo que a nova Esfera comece a pulsar e respirar, preparando-se assim para receber as formas mais primitivas de vida."

Jeová e Miguel reuniram os arcanjos mais experientes e assim demos início à segunda expedição.

Conforme Ahman nos havia ordenado, descemos ao Hades para construir os pulmões respiratórios nos dois polos da nova Esfera. E os vapores se condensaram criando os grandes mares.

Como as fontes externas de calor ainda estavam em formação, as águas resfriaram a nova Esfera de modo que o gelo se espalhou por toda a sua face.

À medida que as fontes de calor externo ficavam mais fortes, o gelo derretia e as águas evaporavam. Desse modo, a Esfera foi ganhando uma coloração azulada e o novo astro já começava a respirar.

A água se acumulou nos grandes Mares e a porção seca emergiu com suas montanhas e vales, impulsionando o fluido de vida através de rios e riachos que corriam como veias sobre e sob a superfície da nova Esfera.

Demos o nome de Céu ao mar de gases que se espalharam sobre a face do novo Mundo. E voltamos a Kolob para relatar os feitos daquela intervenção que chamamos de o Segundo Dia da Criação.

Jeová e Miguel apresentaram-se diante do trono do Criador, “Pai, nós descemos como Tu nos mandaste e ajuntamos as águas fazendo com que a porção seca aparecesse em toda a sua variedade de relevos. Ao ajuntamento das águas chamamos Mares, e à porção seca chamamos Terra.

Os vapores se ajuntaram ao redor da nova Esfera e agora respingam sobre as montanhas e vales, mantendo o fluxo de grandes rios e pequenas correntezas para embelezar a face do novo Mundo, garantindo assim variedade de climas e estações.”

“Muito bem, Jeová e Miguel. Reuni agora uma nova comitiva e retornai à Terra que formastes e fazei com que ela se desloque de seu lugar e encaixe-se na engrenagem de astros que outrora preparastes.

Assim, a grande Estrela, que recebe sua luz de nossa Estrela, iluminará uma das faces da nova Esfera, permitindo a contagem de dias e estações. O astro menor, que recebe sua luz da grande Estrela, iluminará a outra face do formoso astro.

Certificai-vos de que a Esfera menor mantenha as águas em movimento e todos os outros astros deste sistema exerçam suas forças de influência a fim de que haja condições para que a vida possa habitar a nova Esfera.”

Jeová e Miguel deixaram o trono de Ahman e ajuntaram um novo grupo de arcanjos entre os mais profundos conhecedores das ciências envolvidas na missão daquela nova expedição, assim como o maquinário necessário para tão meticuloso empreendimento.

Em naves gigantescas, com provisões para mais de mil anos conforme as revoluções da nova Esfera que ora formavam, desceram ao longínquo sistema, cortando a malha escura da Expansão.

Conforme instruídos, deslocaram a nova Esfera para encaixá-la no sistema que haviam previamente formado.

O impulso dado pelo maquinário fez com que a Terra girasse em torno de si mesma enquanto acertava seu eixo de revoluções em torno da grande Estrela, que por sua vez também girava em torno daquela Estrela maior da qual recebia sua luz.

A luz da grande Estrela iluminou uma das faces do novo Mundo, derretendo o gelo e fazendo com que mares se agitassem.

O Astro menor controlava as marés e fazia os mares permanecerem em seus limites.

A nova Esfera respirava e pulsava e movia-se em torno de si mesma e em torno da grande Estrela, ao lado de outros astros que pelo poder de sua influência magnética mantinham-na em curso.

Tempos e estações já podiam ser contados, de modo que mil anos na nova Esfera eram equivalentes a um dia na Esfera em que nossa família celestial ora habitava.

E os navegantes dos astros voltaram novamente à presença de nosso Pai para dar conta de seus feitos e dizer-Lhe que a nova Terra já tinha condições para abrigar e suster vida pois ela mesma já vivia e respirava, e dançava a dança cósmica dos universos sem fim.

4 comentários:

  1. Estou acompanhando cada capítulo e quando menos percebo misturei a ficção com a realidade! Incrível esse poder que o escritor têm utilizando uma linguagem que nos remete ao tempo e espaço! O que dizer? Sorte para quem tem o privilégio de ler e apreciar. Obrigada por disponibilizar!

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    1. Obrigado, Catia!!!! Logo disponibilizo novos capítulos!!!

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  2. Cadê Heylel, o mais brilhante e intrigante personagem desta trama? Imagino que a presença deste trará luz para todos os capítulos. Peço ao ator que reconsidere a importância deste personagem, querido dos leitores.
    Bjs

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    1. Já atendi seu pedido no novo capítulo :)

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