20 de fevereiro de 2016

Capítulo 7: A Escuridão Cobria a Face do Abismo

20 fevereiro Escrito por Eliude Santos , , Comente aqui
Um artista experimentado em todas as artes entende a magnitude do movimento, o efeito que as linhas e as curvas causam na percepção do outro, ele é atento a detalhes quase imperceptíveis, seus movimentos são previamente estudados, sua fala é cuidadosa, conhece os melhores ângulos, faz bom uso da luz e da sombra, tem respeito pela forma. Há uma fúria contida em cada uma de suas obras que explode em beleza e encantamento. Um artista de verdade é um feiticeiro, um mesmerizador dos sentidos alheios. Ele revela e oculta na medida certa, e sua precisão é primariamente intuitiva.

Um homem versado nas ciências é um homem prático e lógico. Sua lógica baseia-se em cálculos; seus cálculos, em teorias; e suas teorias brotam da observação cuidadosa que somente alguém que conhece todas as leis naturais consegue ter. Tal conhecimento lhe permite manipular o que é tido como real para criar e reinventar o novo. As faíscas de seus pensamentos se tornam tangíveis e, tal qual a obra do artista, mudam a percepção de todos ao seu redor.

Um homem de negócios domina a ciência e arte da política. Ele é cuidadoso no que permite ou proíbe que seja feito, dito ou percebido pelos demais, pois cada decisão pode ter um efeito assombroso ou catastrófico na manutenção do frágil ecossistema de suas relações. Há sempre alguém sustentando ou sendo sustentado na balança do Cosmos. E se os que sustentam se afastam, tudo entra em colapso. A função do homem de negócios é manter o equilíbrio dessas relações para que ao fim do dia, a porção que lhe compete tenha ainda possibilidade de crescer.

Aquelas naves conduziam uma comitiva de semideuses, de Eloheim, de arcanjos versados no conhecimento mais amplo que se pode ter. No entanto, como todo homem de negócios que se depara com um cofre vazio, como todo artista que se vê diante de uma tela em branco, e como todo cientista exposto a perguntas para as quais não encontrou ainda as respostas, assim nos sentimos quando adentramos aquela teia disforme de matéria escura e caótica que fomos encarregados de organizar.

A escuridão cobria a face do abismo e aqueles Espíritos de Deuses acostumados à luz da estrela onde habitavam ficaram temporariamente cegos e demoraram a enxergar o mar negro e revolto que os envolvia, uma teia caótica semelhante àquela de onde nosso Pai havia trazido as essências que usara para gerar nossos espíritos há já tanto tempo que nossa mente de memória perfeita teimava em não mais lembrar. Mas lembrava. E, por lembrar, reconhecia o quão trabalhoso seria levar a efeito a tarefa que nos fora comissionada.

Yahweh e Mikhael colocaram seus mantos e ordenaram-nos que abríssemos uma das escotilhas da nave maior. Um facho de luz os conduziu em segurança até a face do abismo. As águas escuras afastaram-se diante da luz que descia e iluminava tudo ao seu redor.

Sob a superfície das águas revoltas, um silêncio perturbador dava uma falsa ideia de paz.

Um torvelinho se formou ao redor dos semideuses e uma voz que se manifestava em diferentes frequências parecia vir de todas as direções.

“O que fazeis em meus domínios?”

“Fomos enviados por Ahman para iniciar os trabalhos da Criação. Ele ordenou-Nos que separássemos as partículas de matéria física das de matéria etérea, e faremos conforme Ele nos instruiu.”

Heylel aproximou-se, vestido num manto negro.

“Filhos de Ahman, nossos olhos acostumaram-se às sombras. A luz de vossa presença nos incomoda. Retirai-vos daqui. Além do mais, não vejo neste abismo de águas escuras os equipamentos necessários para que executeis uma obra de tão grande porte.”

“Trouxemos os equipamentos conosco. Sabemos que não fareis qualquer objeção pois embora vossos olhos tenham-se acostumado às trevas desta prisão, vossas mentes ainda sentem falta de toda a beleza que experimentastes nas Mansões de Nosso Pai. Uma vez terminada a obra de Nossas mãos, esta será também vossa casa e podereis caminhar livremente por toda a face do novo Mundo. Mas se a princípio preferis manter-vos nas trevas, entenderemos vossa escolha.”

“Escolha! Ainda acreditais nesta falácia? Vosso Pai faz o que bem entende e atropela a todos que se colocam em Seu caminho. Ele é um homem de negócios que está mais preocupado com o crescimento de Seus próprios empreendimentos do que com qualquer outra coisa.

Por vos chamar de filhos, achais que sois os melhores dentre todas as Suas criações. Mas o que vos faz melhores que a ovelha, o lobo, a águia ou o leão? O que vos faz melhores que as pedras? De fato, tais criações cumprem bem as suas funções pelas imensidões dos universos sem fim; mas vós, ‘filhos de Deus’, por confiardes na ilusão de que tendes alguma escolha concernente ao vosso destino, incorreis continuamente em erros até perderdes tudo aquilo que Ele vos prometeu dar.”

“Lúcifer, depois de todo este tempo que te foi concedido para reconsiderares tua posição, é isto que ainda pensas sobre nosso Pai?” Indagou Yahweh consternado.

“O que eu penso sobre Amã ou o que Ele pensa sobre mim é irrelevante. Tu sempre serás meu irmão, Javé. Por isso, temo por tua inocência. Somente em tua consciência romântica podes pensar que tive alguma oportunidade de reconsiderar qualquer coisa. Nosso Pai me expulsou assim que teve a chance, pois sabia que eu poderia provar a todos que eu estava certo, estabelecendo um novo sistema de governo que diminuiria o poder que Ele ora detém sobre vós, um sistema de governo que permitiria que mais de nossos irmãos subissem aos lugares mais elevados de progresso eterno.”

“Lúcifer, estás há muito tempo nas trevas desta prisão. Deixa que haja luz, e quem sabe a luz te lembre de tua origem divina. Foste criado para seres um deus, e olha onde vieste parar. Tudo o que plantaste em teu coração e no coração destes que te seguiram foram sementes de autodestruição e desordem. Deixaste-te consumir pelo orgulho e ambição de tal modo que já crês plenamente nesta mentira que ora cospes como verdade.”

“É inútil insistir, Jeová.” Disse Miguel, interrompendo seu irmão. “Lúcifer não te dará ouvidos, nem tampouco facilitará o início de nossos trabalhos.”

Lúcifer não se deteve, “Meus irmãos, a escuridão e o vazio faz o tempo arrastar-se neste lugar. Tínhamos que nos ocupar de algum modo para não perdermos a razão ou nos confundirmos com aquele Caos de onde viemos todos. Com nossas próprias mãos, fizemos uso desta matéria etérea que nos rodeia para erguermos nossas habitações e estabelecermos os termos de nossos domínios. Este é nosso lar e assim esperamos que continue sendo.”

“Não vos deslocaremos de vosso assentamento. Manteremos vosso domínio sobre esta porção de escuridão que sustenta a luz das energias que compõe a matéria física. Há espaço para todos vós no Mundo que haveremos de criar. Basta que permitas que haja luz, e tudo tomará seu lugar.”

A este ponto, Heylel, já cansado em argumentar, cedeu à insistência dos Criadores, “Que haja luz e seja feita a vontade do Altíssimo. E que a luz traga nova esperança para aqueles que foram cortados do Livro da Vida.” Disse em tom de ironia.

Heylel foi ter com os seus, que não receberam muito bem suas resoluções.

Ao contrário dos espíritos de nosso Pai, não havia unidade entre os dissidentes. Havia muitos cabeças e cada um seguia suas próprias diretrizes e padrões morais.

E muitos se juntaram numa emboscada contra nós. Eles sabiam que se destruíssem nosso equipamento, ao menos atrasariam o início dos trabalhos.

Muitos achavam que se tomassem nossas naves, poderiam voltar à presença de nosso Pai a fim de exigir Dele uma retratação. Supunham que aqueles mantos negros que haviam tecido para si substituiriam de algum modo os mantos sacerdotais que usávamos em nossas viagens e que nos protegiam contra as irradiações corrosivas dos anéis de Oliblish, que protegiam a morada dos deuses.

Mas, justamente porque cada um agia por si e sem muita direção, seus planos não chegaram a se concretizar.

Se houvesse Sol para contar dias e noites, teríamos contado mil anos terrenos desde o dia em que iniciamos a separação dos elementos, pondo ordem em todo o caos daquela pequena porção de matéria proveniente de uma antiga explosão estelar que agora já apresentava condições para ser manipulada com êxito.

E houve separação entre luz e trevas no transcurso do primeiro Dia da Criação.

Durante aquele processo, pensando que a luz é tudo o que a nossa visão capta e as trevas são o que dela escapa, lembrei-me dos Conselhos dos quais participáramos na presença do Criador, quando ouvíamos os Deuses e arcanjos narrando Suas experiências.

Nossos olhos espirituais corriam através do tempo e espaço e testemunhavam o desenrolar dos fatos à medida que nos eram descritos como se deles fôssemos participantes.

Nossos olhos espirituais eram capazes não somente de captar a luz e decodificá-la, mas também de projetar imagens de todas as verdades reais e virtuais de que tomávamos conhecimento. Algo semelhante às imagens que projetamos em nossos sonhos nesta vida mortal.

O sonho é o mais próximo que chegará um homem comum daquilo que viam seus olhos espirituais quando habitava na presença dos Deuses.

O mesmo se dá com as substâncias entorpecentes ou alucinógenas que intensificam experiências de visões virtuais, que seriam a melhor maneira de experimentarmos a visão de nossos corpos espirituais, se tais substâncias não expusessem nosso espírito àqueles que estão à espreita, esperando uma oportunidade para apoderarem-se de nossa essência em busca daquele segredo que carregamos no lugar mais oculto de nossa inconsciência e que lhes permitiria ter controle sobre nós.

Uma das grandes maravilhas do corpo físico é a capacidade da percepção da luz e da cor em toda a sua beleza e encantamento, algo que não nos seria possível somente com a visão espiritual.

Ainda que existam cegos para a cor e para a luz, e toda uma sorte de distorções que dificultam a interpretação e apreciação do grandioso dom da visão física, não é este dom que constitui a verdadeira percepção, ele apenas a aprimora.

De fato, há muitos cegos que enxergam melhor que aqueles que nasceram com olhos físicos perfeitos.

A percepção da luz e da cor é física, mas a visão de fato se dá na interpretação daquilo que nosso corpo percebe, uma interpretação que se processa na comunicação da energia que move o vaso físico com aquilo que ele consegue captar.

Mas essa interpretação sempre esteve sujeita a erros, ou à criação de “verdades particulares”, que são apenas fragmentos daquilo que de fato nos torna livres, algo que facilmente se comunica com um indivíduo ou partido mas que por alguma razão não é compartilhado pelos demais.

A beleza é uma dessas verdades particulares. Há algumas verdades que podem ser preferidas ou preteridas em relação a outras. De modo que o que é belo para alguém pode não causar qualquer encanto aos olhos de outrem. E nisto consiste a arte da mentira: apresentar meias verdades vestidas de encanto pode ser mais eficaz que dizer algo que de modo algum possa ser verificado.

Uma mentira está, portanto, sempre revestida de verdade.

Conviver com aqueles espíritos por tanto tempo e ver o quanto sua visão espiritual havia sido embotada, não somente pela escuridão do lugar em que ora habitavam, mas por uma escuridão que agora crescia dentro deles, me fez perceber o quão frágil é de fato a nossa condição.

Éramos luz, mas não éramos reconhecidos como luz, pois a nossa luz cegava quem nos via das trevas. E ao final daqueles mil anos, não somente havíamos feito separação entre luz e trevas, mas separação entre os que eram da luz e os que eram das trevas, de um modo infinito e eterno.

Ao fim daquela intervenção, voltamos para relatar ao nosso Pai o primeiro Dia da Criação.

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