7 de janeiro de 2016

Capítulo 3: Pranto e Ranger de Dentes

07 janeiro Escrito por Eliude Santos , , 4 comentários
Ahman desceu de Seu trono abatido. Asherah lançou-se em Seus braços aos prantos. As outras Esposas entraram uma a uma com lágrimas nos olhos, abraçando-se com um peso no olhar que parecia sugar toda a luz daquele largo e espaçoso salão.

Naquele momento, eles compartilhavam de uma dor que nós, filhos espirituais daqueles Seres divinos, só compreenderíamos mais plenamente quando descêssemos ao nosso segundo Estado e experimentássemos a imensa complexidade de sensações que corpos físicos, tangíveis e mortais nos permitissem sentir. Somente então, seríamos capazes de partilhar do espectro escuro de humanidade que percebemos emanar daqueles Seres divinos naquele momento de luto.

No entanto, ainda que nossa mente espiritual fosse incapaz de entender plenamente o peso daquela morte, a sensação estava lá, roubando nossa paz. E a melhor analogia que posso fazer para descrever tal experiência é a imagem de uma criancinha que abraça os pais quando esses choram a partida de um ente querido. A criancinha não entende o motivo do pesar que consome seus pais, mas ela não consegue evitar compartilhar da sensação. E o abraço parece ser a única coisa que trará conforto.

Assim como criancinhas que não têm consciência da gravidade do que está à sua volta para saber se estão confortando ou querendo ser confortadas, mas cujo abraço é um bálsamo de alívio para os pais, conscientes da dor de sua perda, nós choramos e nos abraçamos uns aos outros e houve grande pesar nos Céus.

É claro que Ahman sabia que aquilo aconteceria mais cedo ou mais tarde. No entanto, saber de todas as coisas não diminui a dor de sentir cada uma delas. E tomar a decisão de expulsar um terço de Seus filhos mais brilhantes de Sua presença e deixar de contá-los como filhos, entregando-os à própria sorte, é uma sensação de impotência a que não está acostumado um Ser que tudo pode.

Asherah correu até Heylel, que estava ainda ajoelhado e atônito após o decreto de sua sentença de morte. Qualquer separação é dolorosa; mas a morte espiritual, ou banimento, ao contrário de outras separações e mortes, é irrevogável.

Ela queria abraçá-lo, mas Yahweh e Mikhael se apressaram em detê-la.

“Mãe, que tem ele contigo? A sua hora é chegada.”

“Deixai-Me abraçá-lo. Ele é Meu filho.”

“Ouviste o decreto de nosso Pai.” Disse Yahweh com a frieza de um deus que ainda não havia sido amaciado pela experiência da carne. “Heylel já não pode mais ser contado como um de nós. Eis aqui Miguel, Teu filho. Acerca-Te dele, que com a queda de Luz da Manhã, passa agora a ocupar o seu lugar por direito.”

Mikhael aproximou-se de Asherah e abraçou-A fortemente, impedindo que Ela fosse ter com o condenado.

Heylel rangeu os dentes e, olhando para trás, viu toda a grande multidão de espíritos que como ele haveriam de ser banidos da presença do Todo Poderoso, muitos dos quais haviam servido o Altíssimo com todo seu coração, força e vontade. Tomado pela ira, ergueu-se num repente.

“Que espécie de julgamento é este, meu Pai? Apresento um plano que pode salvar a todos os meus irmãos e recebo a morte como recompensa?”

Ahman olhou para Heylel com lágrimas nos olhos e um vazio que lhe rasgava o peito.

“Não me chames assim. Não sabes a dor que Me causam estas palavras vindas de teus lábios. Eu te amo tanto. Não quero que penses que vosso julgamento se deu por ocasião desta votação. Um julgamento não se resume à sentença. E uma sentença não é justa sem avaliar os pormenores que levaram ao crime. E este crime amadureceu em vossos corações desde que vos trouxe do abismo. Em cada pensamento, em cada palavra, em cada ato há um julgamento que se prolonga por toda a existência até que por fim se revele a sentença. E por mais que me doa, não posso evitar de pronunciá-la.”

“Que crime cometemos? O de querer poupar-Te de uma dívida que não precisas pagar? Por que as demandas da Justiça não aparecem agora para revogar o Teu trono diante da grande injustiça que cometeste? Não foi isso que nos disseste que aconteceria se alguma vez viesses a fazer algo que nos maculasse ou conduzisse à destruição? O que vejo é que Tu te sentiste ameaçado quando pedi que me desses parte de Tua glória. Estás tão obcecado pelo poder que não consegues admitir que quaisquer de Teus filhos cresçam à Tua estatura ou venham a acumular maior honra e glória que as que foste capaz de atrair para Ti através das eternidades, tornando-se eles de algum modo maiores do que Tu consegues ser.”

Recobrando a serenidade, nosso Pai respondeu, “Fiz o que tinha que ser feito. Fiz o que desejavas que fosse feito. Respeitei a tua vontade.”

Revoltado, Lúcifer bradou num ímpeto de raiva que se verteu em lágrimas e terminou em choro.

“Nunca quis ser expulso de Tua presença. Não saberei viver longe de Ti. Minha Mãe, não permitas que Ele faça tamanha loucura.”

Ainda ao lado de Mikhael, Asherah respondeu, “Lúcifer, tu duvidaste do julgamento de Amã, que tudo sabe, duvidaste das verdades que aprendeste neste lugar sagrado, duvidaste do Nosso amor por ti. Como poderia Eu interceder agora?”

Ahman estendeu Seu braço em ângulo reto e alardeou, “Basta, Asserá! Lúcifer, querias uma parte de Minha glória e Eu te dei um terço dela. Minha glória é medida pela quantidade de inteligências que voluntariamente creem em Mim e Me seguem. Tua glória agora é este séquito de estrelas decaídas que ousaram achar que sabiam mais que seu Pai, os espíritos que chegaram a ser os mais brilhantes de Meu reino. E porque duvidaram de Mim, não poderão seguir para o segundo Estado que prepararei para Meus filhos; não poderão jamais experimentar a complexidade de sensações do corpo físico que receberiam na mortalidade, um corpo que lhes daria a compreensão plena de todas as coisas quando sua corrupção fosse restaurada em incorrupção, uma sabedoria que somente a carne seria capaz de lhes conceder.”

Compadecido dos incautos dissidentes, continuou, “Mas não vivereis tão longe de Mim, pois esta não é vossa última morte. Ireis para a Terra que prepararei para Meus filhos para assistirdes e participardes no desenrolar da história humana. Eles passarão pelo véu do esquecimento, mas vós lembrareis de tudo, como Lúcifer assim quis que fosse em seu plano. E porque lembrareis de tudo, sabereis vos comunicar com os filhos dos homens e tereis novamente uma chance de convencê-los de que estáveis certos. E muitos deles darão ouvidos à vossa voz, aumentando assim a vossa glória. Não é isto que queríeis? Mas lembrai-vos que por fim a verdade triunfará como triunfou em outros mundos. E todos os que derem ouvidos à voz Daquele que já experimentou todas as coisas e, por isso, tem um conhecimento vivo daquilo que fala, sim, todos os que derem ouvidos à Minha voz, triunfarão ao lado da verdade.

Agora ide.

Jeová e Miguel vos conduzirão ao novo Mundo.”

4 comentários:

  1. Respostas
    1. E eu ainda mais feliz que esteja gostando!!!

      Excluir
  2. e no terceiro capítulo, lúcifer continua parecendo injustiçado… mas o interessante é o ponto de vista: colocar deus como responsável pela injustiça. isso é incomum. alguns diriam heresia ou blasfêmia! hehehe

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Seu primeiro comentário no primeiro capítulo foi: "o maniqueísmo sempre me preocupa". Pois bem, já não precisa se preocupar! heheheheh Como eu disse, cada personagem terá a oportunidade de ter seus argumentos bem defendidos sob a luz de holofotes que não geram sombras. Assim, os leitores serão os juízes e darão a um ou a outro maior credibilidade.

      Excluir

Compartilhe esse artigo em suas redes sociais e aproveite este espaço para registrar seus pensamentos sobre esta postagem.