16 de janeiro de 2016

Capítulo 5: O Nome dos Homens de Muitos Nomes

16 janeiro Escrito por Eliude Santos , , 2 comentários
Quando temos um corpo meramente espiritual, não sabemos distinguir propriamente a diferença do prazer e da dor, da leveza e do peso, do calor e do frio; nada tem sabor, nada tem cheiro, todas as sensações são apenas uma projeção dos sentidos, uma expectativa, ou, por mais paradoxo que pareça, uma lembrança de algo que ainda nem chegamos a experimentar; até mesmo a visão e a audição são captadas de uma maneira muito diferente da que captamos hoje.

A vida mortal, por mais curta que venha a ser, nos permite experimentar todas estas sensações através de um corpo físico de matéria mais consistente e estável. E não somente experimentá-las, mas compartilhar ou até mesmo provocar tais sensações nos outros.

Há um enriquecimento da matéria ao redor de nossa essência, um acréscimo de glória.

Seguir Heylel significaria abdicar de tudo isso.

Lúcifer e seus anjos poderiam entender toda a mecânica do desejo, todas as leis da atração, mas jamais sentiriam o prazer do contato, a troca de calores, o gosto do suor, os odores. A vida que teríamos sem nossa experiência mortal seria eterna mas não inteira.

Quando falo que não tínhamos um corpo físico, não quero dizer que éramos disformes, invisíveis ou mesmo intangíveis. Ao contrário, éramos feitos de uma substância um pouco mais elementar que a matéria física que hoje possuímos, mas nosso corpo era igualmente tangível e visível e com a mesma forma que temos hoje, ainda que nossa aparência fosse um tanto diferente — quando digo forma, falo da cabeça, com orelhas, olhos, nariz, boca, língua e dentes; do pescoço, ombros, braços, mãos, dedos, pernas e pés; do peito, mamilos, barriga, umbigo e genitálias.

Fomos gerados e nascemos espiritualmente do mesmo modo que somos gerados e nascemos fisicamente, vindos do ventre de nossa Mãe celestial assim como aqui na Terra uma mãe física nos dá à luz. E, assim como acontece aqui, lá nós nascemos nus.

Nada neste processo ou em nossa natureza nos era oculto ou causava constrangimento, tampouco nossa nudez ou a nudez de nossos Pais.

E porque conhecíamos a nudez de nossos Pais, sabíamos que fôramos feitos exatamente à Sua imagem e semelhança.

No entanto, diferente dos nossos, os corpos dos Deuses eram de carne e ossos, pois Eles já haviam passado pela mortalidade em uma Terra semelhante a esta e, tendo morrido, foram resgatados e reconstituídos a fim de que pudessem dar continuidade aos ciclos de vida que mantém os universos em expansão.

Para que pudessem ter vida eterna, não poderia haver corrupção em Seus corpos, de modo que, ao invés de sangue, Suas veias e artérias eram cheias de uma seiva translúcida e iluminada.

No entanto, a ausência de sangue não lhes permitia ter filhos carnais.

Tão longo tomávamos consciência das limitações de nossos corpos espirituais, ansiávamos por um acréscimo de glória que nos permitisse ter um corpo carnal e eterno como os de nossos Pais celestes.

Talvez para minimizar nossa ansiedade, recebíamos de tempos em tempos certas investiduras que representavam um acréscimo de poder e influência. Tais investiduras eram simbolizadas por adornos ou vestimentas que tinham caráter cerimonial e hierárquico.

Tais vestes ou adornos não tinham o objetivo de cobrir nossa nudez, pois não existia naquele primeiro Estado a conotação ofensiva que a justiça dos homens haveria de dar à fertilidade ou à união de corpos.

Assim como na Terra, nossas Mães celestiais tinham períodos férteis e nosso Pai deitava-se com Elas diante de nós, de modo que não nos era segredo o modo como havíamos deixado o Caos para ser recebidos no Cosmos como filhos espirituais daquela família divina.

Víamos a concepção de nossos espíritos como um ato poético e belo.

Ahman se alimentava das inteligências trazidas do Caos e, de algum modo, Seu corpo perfeito fazia aquela matéria caótica que lhe entrava garganta abaixo se alinhar ordenadamente tornando-se semente que jorrava em êxtase no ventre de Suas Esposas. Estas, por sua vez, também se alimentavam dos elementos trazidos do mesmo Caos. Tais elementos se juntavam à semente de inteligência em Seu ventre divino, gerando os nossos corpos espirituais, que, sendo nutridos, cresciam em luz e entendimento.

Nada muito diferente do modo como nossos corpos físicos são gerados e trazidos à luz desta Terra nesta nova Esfera de existência em que ora habitamos.

Havia naquele Reino Celestial outros Homens e Mulheres com corpos físicos exaltados que vinham da mesma Esfera onde Zeus e Suas Esposas haviam tido Sua experiência mortal: alguns eram férteis e tinham Suas ninhadas de filhos espirituais em Suas próprias Mansões Celestiais, e preparavam Seus próprios planos de redenção dentro dos limites dos universos que Chronos, Seu Pai, lhes deixara por herança; outros eram inférteis, e portanto, não se alimentavam da matéria trazida do Caos, mas contribuíam com seu tempo e talentos tomando parte na educação dos filhos espirituais dos Deuses daquele Reino, ajudando-os a atingir a plenitude de seu potencial naquele primeiro Estado de existência.

Sabíamos também de muitos outros Reinos em que outros homens e mulheres não férteis habitavam as imensidões do universo vivendo leis diferentes daquelas que vivíamos na Mansão Celestial. Homens e mulheres de carne e ossos que haviam vindo da mesma Esfera em que nosso Pai experimentara Sua mortalidade. E isso porque nem todos os filhos dos Deuses conseguiam viver à altura dos padrões celestiais após sua experiência mortal.

E por não termos contato com esses outros reinos de glória, não tínhamos como saber se algum outro conjunto de leis nos faria mais felizes que aquelas que regiam nossa vida naquela Esfera.

Ahman nos conhecia. Ele sabia que leis nos causariam prazer e que leis nos causariam repulsa. E, portanto, sabia quais de Seus filhos voltariam à Sua presença e quais optariam por outros Reinos quando nossa experiência mortal chegasse ao fim.

Então, para que entendêssemos toda a extensão da justiça e misericórdia de Seu Plano — aquele que Yahweh defendeu com tanto empenho — Ahman reuniu-nos para um novo conselho, o Conselho Iniciatório.

Naquela reunião, Ahman e alguns de nossos Instrutores falaram sobre Suas experiências mortais e sobre o momento de Sua ressurreição, quando o Jesus de Sua Terra anunciou aos quatro ventos que ajuntassem os elementos para a reconstituição dos ossos de todos os homens que haviam habitado aquele longínquo planeta; e de como esse exército de ossos foi coberto de mais elementos que se transmutaram de pó em juntas e músculos, vísceras e pele.

Da mais minúscula estrutura à mais complexa cadeia de tecidos, formaram um corpo renovado e perfeito deitado ainda sem vida sobre o solo.

E o Jesus daquele mundo chamou pelo nome ao primeiro espírito, que, aproximando-se, deitou-se sobre o seu antigo corpo, agora renovado e perfeito.

E aquele Jesus lavou o pó daquele novo corpo e ungiu cada uma de suas partes e apoiou Suas mãos nas costas de ambos corpo e espírito entremeados, e tomou-lhes pelo braço, e dizendo-lhes as palavras do ritual da ressurreição, puxou-lhes, corpo e espírito, num solavanco, fazendo-lhes um só corpo físico e eterno.

E aquele Jesus abraçou o primeiro homem ressurreto depois de si dizendo-lhe aos ouvidos cada um dos nomes que haviam sido sua chave de identidade em cada Esfera de existência por onde passou.

E os olhos e ouvidos outrora espirituais daquele novo homem se abriram físicos novamente, e a lembrança de toda a vida que tivera no mundo dos mortos e dos vivos e na vida que havia tido ao lado de Chronos, Seu Pai, voltou-lhe à mente, que agora era uma mente perfeita e eterna.

Aquele homem ressurreto era agora como os Deuses que lhe deram vida, um Homem de Muitos Nomes. Não mais um homem de carne e sangue como fora na mortalidade; e sim um homem de carne e ossos, isto é, um homem perfeito.

Assim como as boas lembranças, vieram também as más. E a lembrança de toda a culpa e enganos e tropeços, e a lembrança de toda a dor que causara nos outros e a si mesmo, tudo isso fez com que percebesse quem ele era de fato.

E ainda tremendo com a nova consciência que tinha adquirido, chamou o nome de outro espírito e fez o mesmo que vira o seu Jesus fazer consigo. E o outro levantou a outros, e os outros aos demais, até que todos ficassem de pé, todos já cientes da porção de divindade e humanidade que cada um carregava dentro de si.

E assim, todos os filhos espirituais daquela ninhada ressuscitaram para a vida eterna ou para a morte eterna.

Sim, aqueles que não honraram o seu segundo estado ou que se rebelaram contra os julgamentos divinos não puderam ser aceitos em quaisquer dos reinos de glória do Cosmos e, juntos, sugaram para dentro de si toda a luz que receberam, de modo que se tornaram estrelas mortas, sendo sugados para o Caos e as Trevas de onde haviam sido comprados.

Os demais seguiram numa jornada do planeta mais distante daquele sistema, à estrela mais brilhante, passando pelas sentinelas que guardavam a entrada de cada reino.

E porque agora tinham uma consciência perfeita de quem eram e do que lhes causava prazer ou dor, leveza ou peso, calor ou frio, eles sabiam se deveriam ficar nos reinos mais distantes, sob o comando do Consolador; na nova Terra, sob o comando de seu Salvador; ou se avançariam até a morada de Chronos para habitarem com Ele pelas eternidades.

E este julgamento de si mesmos era possível pois sua experiência mortal lhes serviu como um espelho de duas faces que lhes permitia enxergar com clareza quem de fato eram e o que de fato lhes fazia felizes.

Ahman, que era Amã, que era Brahma, que era Amon, que era Alah, que era Eloim, que era Odin, que era Zeus, que era Olorun, que era Tupã, que é nosso Pai, que como os outros Deuses é um Homem de Muitos Nomes, e que experimentou tudo isso que nos preparávamos para experimentar, fez com que subíssemos ao altar e nos posicionássemos ao Seu lado, diante do véu.

Ele nos lavou e ungiu tocando cada uma de nossas partes nuas como se estivesse finalizando a obra de Sua criação e dizendo por que propósito cada parte havia sido criada.

A água representando a criação de nosso corpo espiritual, feito de uma substância mais fluida e elementar; o azeite representando a criação futura de nosso corpo físico, que seria feito de uma matéria mais encorpada, cheia de cheiro e sabor.

E, por fim, cobriu nossa nudez com um manto que representava as máscaras e escudos que usaríamos em nossa vida para nos proteger de nós mesmos e das investidas do Destruidor.

Ele nos abraçou de modo que todo o Seu corpo tocou o nosso e disse-nos ao ouvido em sussurro o nosso “novo nome”, o nome que nos lembraria dos muitos nomes que teríamos e que nos permitiria descer ao mundo dos mortos e voltar à vida, um nome que nos identificaria através dos tempos.

Disse-nos ainda que tivéssemos cuidado para jamais revelá-lo ou expor nossa mente a substâncias entorpecentes que expusessem nossas verdades mais secretas, pois Lúcifer tinha todo o conhecimento de todo o plano e de todas as coisas que haviam ocorrido em todos os outros mundos e conhecia todas as cerimônias e rituais a que havíamos sido submetidos, e seguiria pelas eternidades com esse conhecimento; mas aquele nome seria um segredo para ele, assim, ele só teria algum poder sobre nós se pudesse de algum modo descobri-lo.

E os outros Homens e Mulheres do Lugar Sagrado se puseram junto ao véu e procederam do mesmo modo com cada um dos muitos bilhões de filhos espirituais que haviam se juntado ao pé do altar.

E de lá, alguns foram escolhidos para descerem ao lugar aonde Heylel havia sido levado pois havia espaço lá para a construção da nova Terra.

Ali os arcanjos criadores iniciariam os trabalhos da Criação.


2 comentários:

  1. acho muito legal sua forma de explicar q todos os deuses existem e agem de forma semelhante à condição humana necessária. e vc já começa a abordar o corpo de uma forma bem interessante tb.

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    1. :) Obrigado, Filipe! Sempre procuro misturar ideias contrastantes, tentando fazer pontes sustentáveis entre elas: um pouco da teoria mórmon sobre a divindade (mórmons acreditam que nosso Deus já foi um homem como nós e que evoluiu até o ponto em que se encontra hoje) em contraste com a filosofia rajneesh, que abraça entre outras coisas a completa libertação das inibições. A ideia da família como uma unidade eterna que se inicia numa existência terrena mas que se perpetua para além da morte desafia a banalidade desses relacionamentos líquidos que nossa geração tem vivido. E quando se adiciona a isso o fator da poligamia ou do poli-amor, se coloca em xeque a própria noção de moralidade.

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