26 de janeiro de 2016

Introdução

26 janeiro Escrito por Eliude Santos , , Comente aqui
“It's really fun. It'll be even more fun when we can afford to have the fourth wall installed. How long you figure before we save up and get the fourth wall torn out and a wall-TV put in. It's only two thousand dollars.” (Ray Bradburry. Fahrenheit 451. 1953)


O que é ficção? No livro Fahrenheit 451, de Ray Bradburry, escrito em 1953 e que virou filme em 1966, o autor menciona uma Wall-TV colorida de tela plana estendida com programação interativa e som surround que ocupava toda uma parede e que custava cerca de dois mil dólares, um preço considerado razoável para a instalação não só de uma, mas de quatro dessas TVs na casa das personagens centrais da trama. Para o leitor da época, tal ideia deve ter soado plenamente absurda, não somente porque era impossível imaginar um televisor que tomasse toda uma parede, mas também porque era difícil acreditar que um trabalhador médio fosse investir todo esse dinheiro num aparelho que já estava presente em pelo menos três cômodos de uma casa que abrigava somente duas pessoas. 

Hoje, no entanto, esta é uma realidade familiar na maioria dos lares. Pessoas usam literalmente todo o seu salário para equipar suas casas com largos televisores, um em cada cômodo, e acham isso razoável. Em sessenta anos, o que foi escrito como pura ficção se tornou realidade. E não demorará para que esta realidade, hoje tão familiar, se torne história tão ultrapassada que passe a ser acessada somente pela ficção novamente. 

O escritor de ficção científica ou histórica é alguém que projeta imagens de uma realidade possível, mas não necessariamente provável, a fim de que sejam digeridas por leitores que ao menos possuam uma mente suficientemente imaginativa. 

Já os escritores de ficção fantástica abusam de sua criatividade a fim de projetar realidades que existam somente em sua imaginação. Estes dependem de leitores com uma capacidade de criação igualmente fértil para decodificar os detalhes mais particulares de suas histórias. 

A despeito do que se considera possível ou não nesses devaneios lúdicos, muitas histórias de ficção podem mudar o modo como seus consumidores interpretam a própria realidade seja para melhor ou para pior. 

De tanto consumirem filmes românticos hollywoodianos, uma geração inteira de casais sofre hoje para adequar suas expectativas à realidade menos glamorosa de seus próprios relacionamentos, o número de divórcios cresceu e a vida útil dos contratos matrimoniais diminuiu consideravelmente. O efeito destas obras de ficção é tão intenso que a idealização do "par perfeito" tornou a possibilidade de encontrá-lo algo praticamente inalcançável, mudando inclusive a visão das novas gerações de autores de ficção que se utilizam da melancolia e solidão causadas pelas frustrações de expectativas não alcançadas para darem rumo a suas novas narrativas. A vida imita a arte e a arte imita a vida num ciclo vicioso.

O mesmo acontece no ambiente religioso. A necessidade de mitificação de personagens divinas e a adaptação de certos conceitos para que essa criação de "heróis sobrenaturais" tenha efeito sobre as ações dos indivíduos, seja por medo, respeito, admiração ou adoração, acaba criando um conceito equivocado de ideais sobre-humanos e de seres supremos inatingíveis, o que por sua vez gera adoradores frustrados e fanáticos, com uma enorme aversão ao que é diferente ou ao que não se adequa à sua visão de mundo. 

Por uma tendência maniqueísta do ser humano, pessoas mais práticas costumam demonizar essas ficções religiosas se abstendo do contato com o sobrenatural. 

Utilizando-se de elementos das narrativas de ficção, muitas culturas através dos tempos teceram mitologias que tentam explicar a origem da vida, o propósito de nossa existência, ou apenas para nortear nossas ações criando uma bula de princípios morais e éticos que se tornaram os pilares da vida em sociedade. Céticos, no entanto, têm taxado tais expressões criativas de cunho espiritual como falácias, e torcem a cara para qualquer tipo de conhecimento que não seja plausível ou provável dentro de seu leque finito de considerações sobre o que pode e o que não pode ser real. Mas se o autor de ficção fala de outros mundos e outras formas de vida, de viagens ou guerras intergalácticas, de universos fantásticos ou sobrenaturais com ambientação clássica, medieval, ou sombria, esses mesmos céticos aguçam os ouvidos e enchem salas de cinema ou suas estantes de livros.

O fato é que a ciência, motivada pela crença ou mesmo pela descrença, se alimenta dessa capacidade imaginativa do autor de ficção, do visionário, ou do profeta para direcionar muitas de suas pesquisas em busca de uma nova interpretação do que pode ser considerado real e plausível. 

Justamente por trabalhar com uma realidade mutável, líquida como as relações humanas se têm tornado, o cético sempre torcerá o nariz, muitas vezes com razão, para aquele que está transbordando certezas. O perigo desse filtro é que algumas vezes ele se deparará com a verdade sólida e não a poderá enxergar.

Há verdades líquidas que mudam de tempos em tempos e verdades sólidas que permanecem. Há verdades líquidas misturadas em mentiras sólidas que podem ser facilmente identificadas e filtradas. Há verdades líquidas misturadas homogeneamente em mentiras igualmente líquidas que não podem facilmente ser identificadas e tampouco filtradas. Há verdades sólidas brotando de lamaçais de mentiras líquidas ou encrostadas por mentiras sólidas. O garimpo dessas verdades não é uma tarefa fácil, especialmente para quem já tem por certeza inabalável que a "certeza absoluta" é algo que só o louco pode ter.

Então, declarando-me louco e transbordando certezas, começo esta obra de ficção — seja científica, histórica, religiosa ou fantasiosa — na tentativa de projetar uma mitologia ampla e minimamente aceitável que explique a origem e a finalidade da vida e a natureza de nossa existência. 

Você não precisa acreditar, mas pode ao menos se dar ao trabalho de considerar a possibilidade. E quem sabe esta caixa de Pandora acabe por se tornar uma Wall-TV com som surround interativa mostrando com uma nitidez assombrosa uma verdade tão sólida e familiar quanto esta sua "certeza" de que ninguém pode ter certeza de nada nesta vida.

Quem tem olhos para ver, veja; e quem tem ouvidos para ouvir, ouça: o livro vai começar.


Eliude A. Santos,

o autor.

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