5 de junho de 2015

Capítulo 28: A Coincidência


O Salvador do Mundo foi minha última contribuição real como membro ativo da igreja mórmon. Na época das apresentações eu já estava trocando mensagens pela internet com o rapaz de Pinheiros e já tinha decidido que era hora de ser honesto comigo mesmo e com o pessoal da igreja a respeito de minha sexualidade, especialmente após o incidente com o missionário americano.

Eu comecei a dar aula na Wizard, estava morando sozinho e tudo contribuía para que eu decretasse minha própria alforria. 

Eu estava apaixonado pelo menino da internet e tudo estava indo muito bem. Contei para Melissa o que estava acontecendo e ela me apoiou em minha decisão de buscar aquilo que me deixava feliz.

Então o incidente dos óculos quebrados e o sumiço do menino da internet me deixaram sem chão.

Eu fui ao salão de beleza de minha tia Franci cortar o cabelo e conversei com minha prima, Aline, sobre o menino da internet. 

De todas as pessoas de minha família, Aline era a única para quem eu podia me abrir totalmente. Ela era como se fosse uma irmã mais nova. Eu lhe disse o nome dele, falei que ele estava se recuperando de uma síndrome do pânico e tinha se tratado ali perto, na Clínica Maia. 

Ela perguntou se eu sabia seu aniversário, eu disse que sim. Ela se espantou. Era muita coincidência para ser outra pessoa. Ela me contou então de um amigo seu que tinha o mesmo nome e que havia nascido na mesma data e que também estava se tratando de uma severa síndrome do pânico na mesma clínica.

Eu perguntei onde ele morava. Ela disse que ele morava no Embu das Artes. Eu disse que o menino da internet com quem eu estava virtualmente namorando morava em Pinheiros. Expliquei que ele era filho de um advogado influente e ela disse que o pai de seu amigo era um ex-músico desempregado. 

Eu não sabia mais no que acreditar. Fiquei pensando se tinha passado os últimos seis meses sendo enganado. Eu precisava saber quem era aquele amigo da minha prima e se ele e o menino da internet eram de fato a mesma pessoa.

Fiz com que Aline fosse comigo até a casa dele. Se ele fosse o mesmo com quem eu tinha conversado nos últimos seis meses, eu precisava explicar o que tinha acontecido no shopping. E precisava saber por que ele tinha mentido sobre sua família.

Quando chegamos à casa dele, para minha surpresa, apesar de todas as coincidências (que só aumentaram depois que começamos a conversar e comparar os fatos), ele não era o mesmo com quem eu tinha conversado na internet nos últimos seis meses, mas era igualmente apaixonante.

Eu não sei se a imagem que eu tinha do outro contribuiu para que eu me apaixonasse por este, mas o fato é que me apaixonei e ele pareceu corresponder.

No dia seguinte, ele estava lá em casa. Eu tinha acabado de me mudar para o Mimás. Ele e Aline foram lá em casa para me ajudar com a organização do novo quarto. Conversamos muito sobre filmes e sobre músicas.

Aline estava com sono e foi para a sua casa. Já estava muito tarde e ele acabou dormindo comigo.

Nos deitamos cada um num dos extremos da cama e aos poucos fomos nos aproximando, até que finalmente nos abraçamos. O quarto não ficava muito escuro à noite e conseguíamos ver a silhueta um do outro. Eu acariciei seu rosto e nos beijamos. Foi um beijo diferente. 

Até aquele momento, sempre houvera uma energia sexual muito forte guiando minhas interações com outros homens. Havia uma espécie de urgência como se o fogo não fosse durar por mais que alguns minutos. E geralmente a sensação que se seguia era de repulsa. 

Mas com ele o beijo foi uma entrega. Tudo foi intenso e sereno ao mesmo tempo. Em algum momento da noite olhamos para o teto e dissemos: alguém lá em cima deve estar filmando este momento. Está sendo tudo tão perfeito!

Continuamos nos beijando até a manhã seguinte, quando minha mãe bateu na porta do quarto e perguntou se não iríamos sair.

Era meio dia quando saímos do quarto. Ele se vestiu e foi para sua casa. Eu fui com ele até o ponto de ônibus e Aline estava conosco. 

Ela queria saber como tinha sido a noite e contamos. Ela perguntou o que faríamos a respeito e eu disse que por mim, estávamos namorando a partir de então. E ele pegou o ônibus.

Eu voltei para casa. Minha mãe estava na cozinha. Eu disse que precisávamos conversar.

Ela já imaginava qual seria o assunto. Disse que o dono da casa não tinha gostado de um amigo meu ter dormido comigo. Eu disse que aquilo se repetiria mais vezes e que era bom que eles se acostumassem com a ideia. E que se aquela situação não fosse confortável para ela, eu poderia voltar a morar sozinho. Ela chorou e disse que sempre soube que eu era homossexual e que isso não alteraria o jeito com que ela me via agora. Mas pediu que eu respeitasse a casa do homem com quem ela estava morando, afinal, morávamos ali de favor.

Claro que não demorou até que o dono da casa ficasse realmente incomodado com a situação, e começasse a cobrar um aluguel cada vez mais alto por nossa estadia ali, mesmo dormindo com minha mãe. 

E posteriormente, terminando seu relacionamento com ela, ele voltou a dormir no quarto dos fundos e eu tive que voltar a morar na mesma casa que ela.

Mas nada disso me impediu de ficar ao lado de meu namorado e viver momentos incríveis de descoberta e de construção de uma vida juntos nos quatro anos que se seguiram.

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