25 de abril de 2015

Capítulo 19: Uma Casa de Ordem


Enquanto em Nova Floresta eu seguia com meu trabalho de professor de línguas e história antiga, em Campina Grande assumia vários cargos relevantes na igreja, a grande maioria na área administrativa, trabalhando diretamente com os líderes importantes da igreja na região.

Fui secretário do quórum de élderes (que é uma organização de serviço para homens acima de dezoito anos), secretário do ramo, da ala, e da estaca (que são regiões administrativas semelhantes às dioceses, bispados e arquidioceses da igreja católica), e, por fim, fui secretário do patriarca (que é uma espécie de ministro religioso que age como procurador na declaração do destino eterno daqueles que procuram suas bênçãos, à semelhança dos antigos patriarcas do Velho Testamento, cujas bênçãos a seus filhos se estendiam aos seus descendentes, por muitas gerações.)

Algo que me encantava na igreja mórmon era sua organização. Sem dúvidas, "uma casa de ordem".

Sempre fui muito responsável e disciplinado, mas meus líderes religiosos souberam acentuar essas características com maestria. O Presidente Sebastião Jorge foi a influência mais marcante nessa época. Militar aposentado, pai de quatro filhos, perfeccionista, inteligente e empreendedor, ele foi um grande exemplo de administrador. Ele conhecia cada pessoa na região administrativa que gerenciava, estava sempre acessível e pronto para ajudar os que dele precisassem.

Ele me chamou para trabalhar ao seu lado como seu secretário. Eu cuidava de sua agenda, ajudava com o balanço dos fundos da unidade e mantinha um registro das reuniões. Cada detalhe era supervisionado por ele.

Para manter organizados os registros, eu ia com muita regularidade à sua casa.

Acabei fazendo amizade com seus filhos, Samuel e Jorginho. Jorginho tinha um charme extrovertido que encantava a todos. Eu admirava sua habilidade de fazer amigos, de falar sobre qualquer assunto com qualquer pessoa. Ele era a alma da festa. Estava sempre animado e animando a todos.

Samuel era um pouco mais introvertido, se comparado ao seu irmão, mas muito mais centrado e disciplinado. Com a ida de Jorginho para a missão, acabei me aproximando ainda mais dele. Adorava sua companhia, ficar conversando com ele até tarde antes de dormir.

Nesta época, o Presidente Jorge era também secretário do Patriarca e me aconselhou a procurá-lo para receber a minha bênção patriarcal. (Bênçãos patriarcais são como se fossem escrituras particulares para os mórmons. O patriarca é um profeta que declara uma série de conselhos e advertências que servem de orientação para toda a sua vida).

Quando o patriarca Antônio Domingos Andrade impôs as mãos sobre minha cabeça para declarar minha bênção, ele comentou posteriormente que sentiu algo que nunca havia sentido antes. Sua mente se abriu de uma maneira que nunca tinha sido aberta antes.

Quando deixei seu escritório e ele levou a fita com a gravação das palavras que pronunciara para ser transcrita, ele disse ao Presidente Jorge que queria que eu fosse seu secretário dali em diante, e assim foi.

O patriarca era um homem simples, mas de uma sabedoria fora do comum. Era um homem explosivo, que tinha uma pontualidade britânica e um gênio difícil. Eu amava ouvir suas histórias. Passava horas conversando com ele quando ia entregar as fitas com as transcrições das bênçãos.

Transcrevi mais de duzentas bênçãos patriarcais nos três anos em que servi ao seu lado como secretário. Mas nenhuma delas se comparava àquela que ele havia proferido quando impôs as mãos sobre minha cabeça. E as promessas e pertinentes advertências que fez têm-me guiado em momentos de adversidade e incerteza.

O Presidente Edmundo Targino Bezerra, presidente da estaca Campina Grande na época, me chamou ao seu escritório e me ofereceu o cargo de secretário da estaca (estacas são grandes áreas geográficas compostas por vários bispados).

Ao contrário da secretaria do bispado que eu cuidava antes, cujos registros eram rigorosamente atualizados e tudo funcionava em perfeita ordem, a secretaria da estaca era um caos. Mas aos poucos fui colocando tudo em ordem.

Na igreja mórmon, todos esses serviços são prestados voluntariamente. Nem os secretários, nem bispos, nem os patriarcas ou os presidentes recebem qualquer salário para exercer suas funções. Mas ganhamos uma experiência que não se ganha nas melhores universidades do ramo, pois aquela é de fato "uma casa de ordem."

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