2 de julho de 2015

Interlúdio : Virando as Páginas


Primeira Página: Paixões Platônicas

Quando o afeto começa a se formar? Quando ele vira interesse? E quando esse interesse arrebata você de tal forma que lhe arranca lágrimas?

Eu estava na primeira série quando me apaixonei. Ela era linda: loira, olhos castanhos vivos. Uma peste! Batia em todos os meninos da classe, mas eu não conseguia tirar os olhos dela.

Eu estava na primeira série quando me apaixonei. Ele era lindo: loiro, cabelo raspado, lábios carnudos, forte. Era meu vizinho e eu adorava ir a sua casa só para observá-lo de longe fazendo suas flexões, todo suado.


Segunda Página: Brincando de Médico

O sexo era lúdico. Fazia parte das brincadeiras de criança. Era uma brincadeira perigosa que os adultos não podiam ver. Eles ficariam irritados se vissem!

Então, tudo era feito às pressas, às escondidas. Luta de "espadas" no meio do mato, um estetoscópio de brinquedo descendo o caminho da felicidade, conversas picantes à beira do açude, um beijo roubado no esconde-esconde.

Foi então que ela apareceu: tinha um rosto branquinho e sardento emoldurado por cabelos negros encaracolados que iam até o ombro. Seus lábios eram tingidos de um vermelho forte, talvez para encobrir uma inocência indesejada. Aquela Branca de Neve era uma Alice esperta e me mostrou que na toca do coelho eu encontraria meu País das Maravilhas. E encontrei! Mas a Rainha de Espadas descobriu nossas aventuras e mandou-a para um reino bem distante.


Terceira Página: Os Termos

Não se falava muito no assunto naquela época. Tudo era proibido! Revistas com pessoas desnudas não eram vistas nas bancas. Na TV, avisos exigiam que os pais retirassem as crianças da sala, pois filmes que no máximo exibiriam um par de seios ou uma bunda eram inapropriados para menores.

A repressão tornava o assunto ainda mais excitante. 

A primeira vez que ouvi a palavra "masturbação" foi num programa da Marta Suplicy na TV. Quando perguntei aos adultos o que era aquilo de que ela estava falando, ninguém se atreveu a me responder.

O primeiro filme proibido que eu vi foi o musical "Hair". Era tudo tão novo que não entendi nada. A única coisa que lembro é que vi outros homens pelados pela primeira vez e fiquei excitado.

A curiosidade cresceu e comecei a vasculhar a biblioteca da cidade. Descobri as civilizações antigas e os rituais de fertilidade, os balneários, os sultanatos, o Kama Sutra.

Comecei então a explorar meu corpo, não mais como brincadeira, mas como experiência. Explorei o prazer das formas mais diversas e intensas. Sozinho.


Quarta Página: A Peste

Foi então que uma notícia deixou todos preocupados: uma nova doença estava matando homossexuais ao redor do mundo. Os casos aumentavam todos os dias, ninguém sabia ao certo de onde surgira a nova peste, mas o fato é que logo se alastrara e já não afetava somente homossexuais e prostitutas. 

Todos evitavam o assunto por acharem que comentar os tornaria passíveis de infecção aos olhos dos demais.

Com a queda do regime militar, a repressão verbal e visual foi rompida. Cada vez viam-se mais seios, bundas e pênis na TV. No entanto, uma nova repressão se instaurava, essa regida pelo medo.

Muitas vezes acordei suado no meio da noite achando que aquele suor era sintoma da tal doença. E sofri o horror da dúvida até que o conhecimento me libertasse.


Quinta Página: O Sexo

Cheiro de homem. Um homem sob o mesmo lençol. Um coelho descobrindo em novas tocas um rumo para um País das Maravilhas bem diferente. Sem beijo, sem carícias, sem amor. Sexo pelo prazer de não ser descoberto.


Sexta Página: A Musa

Não haviam muitas pessoas com quem eu pudesse conversar ali. Tinha minhas amigas da escola, mas conversávamos sobre as banalidades da escola; tinha meus amigos da rua, com quem eu brincava até altas horas. Mas, na hora de conversar, de trocar ideias, não me restavam muitas opções.

Quando ela surgiu, foi como se o mundo de repente ganhasse novo significado. Minha mente se expandiu. Passávamos horas e horas conversando sobre tudo. Ela era minha Musa, a inspiração para minhas criações. Foi nessa época que comecei a escrever.


Sétima Página: Em Outras Terras

Na Terra de Jorge Amado, o sol ferve a mente e até mesmo o vizinho magricelo vira objeto de desejo. E eu viro objeto de desejo da vizinha faladeira. Em meio à essa brincadeira de gato e rato, uma nova expansão da mente estava por acontecer.

Eu, que sempre me considerara ateu, embora houvesse desde cedo estudado as mais diversas faces da consciência religiosa através dos tempos, ganhei minha própria consciência das coisas divinas. E isso me fez deixar o interesse pelas peculiaridades da natureza humana de lado. De lado e não para trás, para que os olhos naturais pudessem alcançá-las de vez em quando.

Naquele ambiente novo, vi-me novamente dividido. O novo ciclo de amigos trouxe duas novas paixões: não sabia se investia na menina de gênio forte ou no menino de ombros largos. Depois de aprender sobre as coisas divinas, passava horas cobiçando as peculiaridades humanas dos dois.


Oitava Página: A Culpa

A descoberta dos paradigmas judaico-cristãos e de sua visão maniqueísta do sexo me fez caminhar para um novo dilema: era eu, com desejos já tão intrínsecos, suficientemente puro para estar entre aqueles que falavam de poderes divinos, céus e santidade?

A masturbação virou uma tortura. O desejo virou uma maldição que precisava ser quebrada.

A culpa foi aniquilando minha sexualidade aos poucos, tirando-me o prazer. Tirando-me a força para lutar contra os instintos que esfregavam na minha cara a minha impureza gerando nova e mais dolorosa culpa.


Nona Página: O Amor

Decidido a bloquear minha orientação homoafetiva, entreguei-me à atividade cristã. Passava o dia inteiro entre os amigos da igreja, discutindo sobre coisas eternas. Nada disso evitava que à noite, quando me visse sozinho, me voltasse à mente o desejo, tão cheio de culpa.

Foi então que a conheci. Ela era linda, inteligente, doce. A mais doce de todas. E eu me apaixonei, perdidamente. Sentia por ela algo sublime. Eu a admirava, sonhava com seus cachos negros, seu cheiro suave, sua pele delicada. Queria ficar perto dela, o tempo todo.

Mas a culpa de meus desejos mundanos -- desejos que então já nem eram mais tão presentes -- me fazia recuar diante da possibilidade de declarar-lhe o meu amor. Ela era muito pura para alguém que se achava tão impuro como eu. Não podia correr o risco de fazê-la sofrer. Eu sofreria duplamente se isso acontecesse.

Chorei muitas noites por não me achar digno de amá-la.


Décima Página: A Missão

Querendo escapar da tentação, procurei refúgio no campo missionário. Não sei onde eu estava com a cabeça! De repente me vi rodeado de rapazes belos e fortes, no vigor de sua juventude, dormindo na cama ao lado. Uma obra maravilhosa e um assombro! Durante o dia, entre visitas de proselitismo e serviço, eu me sentia o mais próximo possível da divindade. À noite, no calor da minha cama, sofria como um Tântalo sedento e faminto diante de um inalcançável rio de água cristalina e uma inatingível árvore de fruto extremamente doce. E eu travava uma luta todas as noites para manter-me na minha cama e não beber daquela água ou provar daquele fruto.


Décima Primeira Página: A Amiga

Quando voltei da missão, apaixonei-me novamente. Ela também era linda e inteligente. Sempre gostei de mulheres fortes e decididas. E esta era tão segura que me assustava! Eu a desejava profundamente.

No entanto, desta vez, como da última, minha culpa serviu-me de freio.


Décima Segunda Página: O Vizinho Americano

Nesta época, comecei a trocar confidências sexuais com um vizinho americano. Ele havia passado por situações ou dilemas parecidos com os meus e nos identificamos em nossas frustrações e culpa, assim como em nossas expectativas.

Uma janela propositalmente deixada aberta, um salto fortuito no meio da noite, mãos, língua, suor, pelos. 

Foi uma experiência libertadora deitar em seus braços e extravasar todos os meus desejos reprimidos.

Décima Terceira Página: O Amor Virtual

Depois que ele partiu, eu conheci as salas de bate-papo e os serviços de Messenger. E em uma de minhas primeiras experiências, conheci um rapaz com quem mantive contato por quase seis meses. Nós nos falávamos todos os dias e eu o adorava.

Ele era filho de pais muito rígidos e morria de medo que eles descobrissem sua orientação sexual.

Marcamos de nos encontrar. Mas no dia eu quebrei meus óculos e não o reconheci quando passei por ele no shopping. Ele achou que eu o tinha ignorado e ficou muito ofendido. E depois disso, sumiu.


Décima Quarta Página: O Primeiro Relacionamento Sério

Então conheci o meu primeiro namorado. As semelhanças com o rapaz do bate-papo eram inacreditáveis (mesmo nome, mesma data de nascimento, mesmas angústias e facetas de personalidade) e deve ter sido isso que me fez achá-lo tão interessante a ponto de fazer minha prima levar-me à sua casa somente para conhecê-lo. E eu o amei assim que o vi.

No dia seguinte, ele veio nos visitar. Falamos de música, de cinema, de tantas coisas. Ele era encantador. E dormiu na minha casa, na minha cama.

Na tarde seguinte, quando saí do quarto, contei à minha mãe o que tinha acontecido.

Naquele dia, começamos a namorar.

Mais tarde, ele mudou-se para minha casa e moramos juntos por mais algum tempo. Foi uma experiência incrível. E ele era o companheiro perfeito. Combinávamos em tudo. Achávamos até que, mesmo nos amando tanto, isso não nos impediria de amar outras pessoas de igual modo, e isto acabou fazendo com que optássemos por um relacionamento aberto para que ambos se sentissem completos. Tínhamos receio de parecer hipócritas em negar que poderíamos nos interessar por outras pessoas somente porque estávamos juntos.

Ele acabou conhecendo alguns caras onde trabalhava, e saiu com eles. Eu não me importava, porque sabia que no final do dia ele voltaria para mim, e contaria tudo o que tinha acontecido. Tínhamos uma relação de fidelidade ao nosso modo.

Eu voltei para a internet, e conheci outros caras. Mas nunca cheguei a encontrá-los de verdade, pois quando mencionava o fato de que tinha um namorado, eles sumiam.


Décima Quinta Página: O Cantor Mineiro

Entre os caras que conheci na internet nessa época, houve um por quem me afeiçoei de verdade. Embora soubesse que o carinho que ele tinha por mim era somente um carinho de amigo, eu tinha esperança de que o conhecendo pessoalmente, ele viesse a gostar de mim na mesma intensidade que eu gostava dele.

Eu não havia deixado de amar o meu namorado. Amava os dois igualmente.

Então eu fui visitá-lo. E ele me disse que não poderia entregar-se a um homem que já tinha um namorado, especialmente um namorado tão especial quanto o meu. Disse que invejava o tipo de carinho que tínhamos um pelo outro e que eu deveria parar de conversar com outras pessoas na internet e repensar essa abertura de meu relacionamento.

Mas não era aquilo que eu queria ouvir. Eu estava tão cego pelo desejo, que até pensei em terminar o namoro somente para que ele não tivesse uma desculpa para não ficar comigo. Eu estava confuso: não queria perder o cantor mineiro, nem tampouco o meu namorado, mas sabia que não poderia ter os dois.

A ideia do relacionamento aberto começou a deixar de fazer sentido tanto para mim como para o meu namorado.

Tivemos momentos difíceis depois disso, pois embora tentássemos reavivar nosso relacionamento, era óbvio que depois de ter ido para Minas, eu não era mais o mesmo. 

Então decidimos que era melhor terminarmos enquanto ainda nutríamos um sentimento de amizade um pelo outro. E este sentimento perdurou. Ele continuou morando comigo, dividindo a mesma cama, mas agora somente como amigos.

Fui eu que apresentei meu namorado ao cantor mineiro. 

Quando eu conversava com ele na internet, geralmente meu namorado estava por perto, afinal, ele morava comigo. 

Eu lhe mostrava as músicas que o cantor me mandava, as mensagens, as fotos.

Quando fui para Minas, conversamos juntos na câmera, os três. 

Não foi uma surpresa para mim que, tendo terminado o meu namoro, meu ex acabasse naturalmente se aproximando ainda mais do meu amigo mineiro.

Embora o relacionamento deles tenha durado bem pouco tempo, foi um período muito confuso para os três, porque de certo modo eu estava feliz por eles, mas triste por mim. E o mesmo acontecia da parte deles em relação a si mesmos e a mim. Eu sabia que eles se gostavam e não faria qualquer coisa para atrapalhar a felicidade deles, afinal, sentimentos simplesmente surgem. E se alguém estava sofrendo, era somente por não saber lidar com as consequências das escolhas dos outros, sobre as quais não tinha poder algum.


Décima Sexta Página: O Gaúcho

E, desabafando com outros amigos da internet, acabei conhecendo um gaúcho por quem eu fiquei muito interessado. Ele morava em Porto Alegre e tinha um sorriso lindo.

Começamos a conversar quase que todos os dias.

Marcamos então de nos encontrar no show do Radiohead em São Paulo. Mas, no dia do show, eu não pude entrar; e ele, minha prima e meu ex foram para o show. Meu ex estava sofrendo com o modo como andavam as coisas com o cantor mineiro, e aquele show foi seu bálsamo.

Quando voltou, ele estava radiante, contando como tinha sido incrível ficar com o meu amigo gaúcho entre uma música e outra. Ele não sabia que eu estava gostando do outro e ficou chocado que a situação estivesse se repetindo. Foi como se nosso mundo perfeito estivesse ruindo aos poucos.


Décima Sétima Página: De Volta ao Mundo Virtual

Depois disso, voltei a criar perfis em sites de relacionamento, e conheci alguns outros caras. Como sempre, eu tinha expectativas, fazia planos, marcava encontros, mas nada saía do ambiente virtual. E, quando saía, não chegava a durar mais do que dois encontros. Alguns tornaram-se grandes amigos, como Mayk.

Um dia marcamos de ir ao cinema juntos, vimos um filme muito romântico de mãos dadas. Eu estava muito a fim dele. Fiquei esperando por um beijo que não veio. No final da sessão, nos abraçamos e ele foi embora.

Este foi um dos muitos encontros que resultaram em amizades duradouras; outros encontros, no entanto, onde a química não foi suficiente para sustentar meia hora de conversa, serviram somente para marcar fins de ciclos.


Décima Oitava Página: O Filho de Ogum

Então conheci meu segundo namorado. Ele era muito carinhoso, romântico, e incrível na cama.

No começo, o conflito de religiões (eu mórmon, e ele umbandista) parecia que ia ser o grande empecilho. Conversamos a respeito e encontramos um ponto de equilíbrio.

Depois achei que o cigarro poderia nos afastar, pois ele fumava muito quando o conheci. E eu não tolerava o cheiro de cigarro que exalava de cada poro. Mas, por amor a mim, ele começou a diminuir e praticamente não fumava quando estávamos juntos.

Mas o grande vilão estava por vir. Uma doença estranha e cirurgias complicadas fizeram com que ele se isolasse e não me quisesse mais por perto, talvez na esperança de não me fazer sofrer.


Décima Nona Página: O Evangélico

Depois dele, conheci um rapaz que era evangélico. Cheio de culpas e de segredos, não tinha como eu esperar que fosse durar muito tempo. Eu tentei mostrar para ele a importância de ser feliz acima de qualquer dogma ou princípio, mas ele só estava preocupado com o fato dos amigos ou da família descobrirem.


Vigésima Página: E a História se Repete

Depois disso, voltei a criar perfis em sites de relacionamento, e conheci alguns caras. Como sempre, eu tinha expectativas, fazia planos, marcava encontros, mas nada saía do ambiente virtual. E, quando saía, não chegava a durar mais do que dois encontros. 

Num desses encontros, o cara com quem eu tinha saído ficou com outro na minha frente. Outro me enrolou por meses marcando encontros que nunca aconteciam para depois dizer que estava pensando em voltar para a antiga namorada, pouco antes de ficar com um cara famoso com quem estava trabalhando. 

Mas nem sempre a rejeição vinha da parte deles. Um chegou a vir para a minha casa e passou quase três semanas comigo, mas não era exatamente o que eu esperava e não pude retribuir seu interesse à altura.

Mas talvez a experiência mais dolorosa nesta página tenha sido a de um americano que conheci num desses sites de relacionamentos.

Passamos quase três meses conversando todas as noites. Ele era a pessoa mais gentil que já conheci. Eu ficava com os olhos brilhando quando via mensagens suas na minha Caixa de Entrada.

Ele apaixonou-se por mim e comprou passagem para vir para o Brasil. Mas tinha me dito que sua família era muito conservadora. Um dia, sua mãe nos flagrou online e foi parar no hospital. Ele ficou se sentindo muito culpado, disse que devia ser uma mensagem de Deus para ele voltar ao regaço protestante e puritano em que fora criado e sumiu.


Vigésima Primeira Página: O Arquiteto

Ele se apaixonou por mim quando fiquei ao seu lado numa fila de um show que eu nem ia assistir só para ficar mais um tempo ao lado dele. Ele gostou do meu jeito de nerd. Eu gostei do seu jeito espontâneo e carinhoso.

Como meus outros namorados, nos conhecemos num dia e começamos a namorar no outro.

Sua família não sabia sobre mim, então, por quase um ano, ele dizia para seus pais que estava indo para a casa de uma amiga quando vinha passar o fim de semana na minha casa. 

Eu não me incomodava com isso. Mas aos poucos ele foi contando, primeiro para seu irmão, depois para sua irmã e finalmente para seus pais, que me adoraram depois que me conheceram.

Ele era arquiteto e decorador de interiores e me ensinou muito sobre isso.

Gostávamos de deitar no sofá da sala para assistir séries juntos, ir ao cinema, ao parque, ou sair com seus amigos ou seus irmãos nos fins de semana. Eu sentia que ficaríamos muitos anos juntos, mas a vida é cheia de ironias. 

Ele era muito ciumento. Fuçando em meu celular, descobriu algumas conversas que fizeram com que pensasse que eu estava lhe traindo. Ainda que eu não tivesse feito nada, a confiança ficou abalada.

E num dia absurdamente caótico, em que uma chuva de granizo abriu crateras no teto de minha casa e destruiu todos os meus móveis, enquanto eu chorava abraçado com os cachorros no único lugar da casa que a água não havia alcançado, sim, ao final desse dia fatídico, em que tinha tentado inúmeras vezes ligar para ele para pedir socorro, ele finalmente atendeu e terminou comigo, sem dar exatamente um motivo para aquela decisão.


Vigésima Segunda Página: Apolos e Narcisos

Ele havia sido um nadador olímpico e tinha um dos corpos mais perfeitos que eu já tinha visto. Quando começamos a conversar, ele percebeu que eu era diferente dos caras que ele já tinha conhecido. Falávamos sobre espiritualidade, sobre arte e cuidados com o corpo. Eu tinha começado a levantar peso e pela primeira vez o meu corpo ganhava forma. 

Mas ele tinha um ex-namorado por quem ainda era visivelmente apaixonado. Uma ligação do ex, e o nadador nadou para longe.

Esse foi apenas o primeiro dos muitos Apolos e Narcisos que vieram depois dele.

Um Apolo baiano, alto, forte, loiro e de olhos claros deitou-se tímido ao meu lado na cama. Tinha acabado de sair do armário e estava inseguro e indeciso diante da novidade de tudo aquilo. Veio pra aprender inglês mas acabou aprendendo muito mais. Descobriu no toque tântrico de minhas mãos sensações que nunca antes havia sentido.

Ele precisava comprar um presente e fomos juntos ao shopping. Encontramos uma amiga minha e eu errei seu nome ao apresentar-lhe para ela. Não sei por que razão, achei que ele e o marido de minha amiga tinham o mesmo nome. E continuei chamando ele pelo nome do marido de minha amiga enquanto estávamos no shopping. Ele ficou irritado e foi embora sem nem comprar o presente. Achei que nunca mais o veria.

Mas ele voltou outras vezes. Dormi abraçado com ele, sentindo os seus braços fortes e o cheiro gostoso do seu perfume. Mas ele estava descobrindo o mundo de possibilidades que sua nova orientação lhe permitia ter, e na manhã seguinte, ele já era de outros. Tornamo-nos grandes amigos desde então.

Outro Apolo paulista, de corpo escultural e alma inquieta, posou nu para mim por horas para preparar-se para uma peça que apresentaria fora do país. Conhecemo-nos quando eu voltei ao teatro, e não demorou para nos tornarmos grandes amigos. 

Uma amizade que não impedia que ele deitasse seu corpo nu em minha cama para alcançar o nirvana sem precisar de meditação.

Tornou-se uma tradição que ele viesse me visitar de vez em quando para vermos filmes juntos e filosofarmos sobre a vida e o amor, falarmos sobre Osho e sobre Bauman, sobre política e sobre comportamento, sobre nossas conquistas e fracassos. E, entre insights e delights, render-se ao toque libertador de minha massagem.

E por eu ter continuado com minha rotina de exercícios na academia e por ter mudado para uma casa num bairro mais acessível depois que o teto da última desabou, nunca tantos Apolos e Narcisos deitaram em minha cama, cada um mais escultural que o outro.

Ao contrário de antes, agora eu não criava expectativas, nem sofria quando as experiências eram curtas. Eu apenas aproveitava o momento e vivia com cada um o que eles se permitiam viver.

Meu vizinho, Vinícius, chegava do trabalho e me chamava para ir para a academia com ele. Ele tinha um namorado que morava no Recife. Eles eram lindos nas fotos das redes sociais e pareciam feitos um para o outro. Mas é perigoso apaixonar-se por Narcisos, pois uma hora ou outra eles se jogam no lago em busca de si mesmos e afogam você no processo. Conversávamos muito sobre o seu relacionamento e sobre o modo como aquele amor lhe fazia tão feliz e tão triste ao mesmo tempo. 

Ele terminou o namoro e começou a sair com outros caras. Eu sempre deixei claro o meu interesse. Ele sempre deixou claro os limites de nossa amizade. 

Quando ele se mudou de seu apartamento, eu parei de ir para a academia.


Vigésima Terceira Página: O Casamento

Junior havia sido meu aluno quando dei aula na Wizard. Ele era um adolescente de 14 anos, magrinho e tímido, que não se dedicava muito às aulas de inglês. Eu o achava preguiçoso e ele me achava chato, por estar sempre cobrando que ele e sua turma se esforçassem um pouco mais para aprender.

Passaram-se seis anos até que nos encontrássemos novamente. Agora ele era um homem forte e charmoso, fazendo curso de educação física e trabalhando numa academia em Jandira.

Eu estava começando a escrever No Princípio Era o Verbo, um romance histórico sobre os mitos da Criação, e enviei uma cópia dos primeiros capítulos para todos os meus amigos do Facebook que estavam online.

Ele leu e respondeu, dizendo que tinha achado o capítulo incrível. Começamos a conversar.

Como ele trabalhava com educação física, mencionei que tinha criado uma tabela de acompanhamento de crescimento muscular baseada em medidas de estátuas de deuses gregos e perguntei se ele não queria passar no meu apartamento para tirar suas medidas e ver o quanto elas se aproximariam das medidas ideais em minha tabela. Ele veio.

A conversa se estendeu noite adentro. Vimos filme, comemos bolo para comemorar seu aniversário, tiramos as medidas, lemos mais alguns capítulos do livro que eu estava escrevendo, e ele ficou para dormir.

Ele poderia ter dormido no quarto de hospedes, mas ficou na minha cama. A energia sexual era intensa. Não dormimos pelas próximas doze horas.

Ele gostou tanto que no dia seguinte estava aqui de novo. E no outro, e no outro.

Nessa época, ele estava saindo com uma moça, que começou a desconfiar de suas ausências e desculpas. Investigando suas redes sociais, ela acabou me descobrindo. E mandou um recado para os pais dele, contando tudo.

Junior não sabia lidar com tudo aquilo e não voltou para a casa de seu pai. Sua mãe ficou alguns dias sem falar com ele. Sua madrasta também parou de responder suas mensagens. As irmãs ligavam para ele dia e noite para saber por que ele fizera aquilo.

Sem ter para onde ir, ele mudou-se para o meu apartamento.

A madrinha de Junior falou com sua mãe e disse que tinha visto as fotos dele ao meu lado e que ele parecia estar muito feliz, e sugeriu que ela me procurasse.

Marcamos de ir ao cinema. Foi um encontro perfeito. Ela me adorou e eu gostei muito dela. Começamos a sair juntos quase toda semana.

Aos poucos fui me aproximando dela, das irmãs e, por fim, do pai dele.

Mesmo tendo se reconciliado com sua família, Junior continuou morando comigo. Estávamos casados, um casamento sem cerimônia, sem alarde, sem acordos sociais, sem planos, sem ciúmes, sem brigas, sem cobranças.

Junior passou a fazer parte de minha vida e eu da dele e tudo o que fazemos, fazemos juntos.


Nova Página: Uma Página em Branco

E a história continua. Afinal, páginas não passam, elas viram para dentro de nós, elas nos constroem... Esquecer é bobagem... Temos é que lembrar... Há muito sofrimento nas entrelinhas, mas muita felicidade também... E que venha mais!!!



35 comentários:

  1. Que as próximas páginas sejam merecedoras da sua alma iluminada!

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  2. Embora haja muito sofrimento nas entrelinhas, tudo o que já vivi até hoje me ajudou a amadurecer e tornar-me quem sou. Sei que ainda há muitos espinhos por vir, mas se não me arriscar, não contemplarei a beleza do jardim.

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  3. Apesar de ter sido claramente usada na Décima Quarta Página, eu te perdoo...rs. E te desejo não somente uma a longa e cheia de amor, mas uma pagina em branco. É importante que ela ressalte o brilho dos detalhes e das palavras que lá estarão... Felicidade e paz. Te amo!

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  4. UAU! Quantas revelações, eu conhecia uma parte dessa história, uma que acho bem bonita por sinal. Afinal, através dela que nos conhecemos.
    Você realmente é uma pessoa admirável e que demonstra buscar a felicidade com muita vontade.
    Espero que essas novas páginas sejam repletas de muito amor e carinho. Sabe q te desejo somente amor amor amor!!! :)
    Um beijooo vc é lindo!

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  5. Fofinha... vc que é... e essa página a que se refere foi linda mesmo!!!

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  6. Que lindo, Eliudee! Quero escrever assim quando crescer *------* :D

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  7. Nossa Eliude estou sem palavras...
    Vc foi uma pessoa mto especial,aprendi mtas coisas com nosso relacionamento tenho um carinho mto grande por vc...
    Forte abraço

    Carlos

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  8. ótimo post.

    que a nova página nasça sem expectativas, isso sim. apenas que seja escrita por alguém que caminhe pra frente.

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  9. Laris, linda é vc... E sabe disso, pq não canso de repetir isso pra vc... hehehehehehh (Nesses dias me processa por assédio!! heheheheh)

    Carlos, você é um fofo... Tbm tenho um carinho enorme por você!

    Gu, pode deixar que controlarei minhas expectativas!!! Tentarei, pelo menos... hehehehehe

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  10. belissima historia, contada de um jeito encantador!!

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  11. Eli, mesmo que eu não te conheça pessoalmente, tenho grande estima e admiração por vc. Eu acho que vc é algum tipo de gênio das artes, sou fã dos seus trabalhos. E minha admiração aumentou mais ainda lendo seu relato, tem que ser mto "macho" pra expor assim os sentimentos a público. Todos nós vivemos experiências das quais nos envergonhamos tanto que escondemos elas num baú a 7 chaves, no entanto, as experiências que vivemos acontecem com mtas pessoas o tempo todo. Acho que não pode é fazer do medo de preconceitos ser maior que sua vontade de ser feliz. Bem, eu falo isso mas tem coisas que eu já fiz que não conto nem pra minha sombra kkk, mas vivo bem assim. Então parabéns pela sua coragem em se abrir para as pessoas, sinto inveja da sua sinceridade =].

    Ah, eu gostei mto dessa parte:

    "Eu tentei mostrar pra ele a importância de ser feliz acima de qualquer dogma ou princípio, mas ele só estava preocupado com o fato dos amigos ou da família descobrirem."
    ;)

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  12. Leo, tbm tenho uma baita admiração por vc, por sua mente aberta, seu coração puro, e seu talento... Obrigado pelas palavras... Vc é um amigão!!!

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  13. Eli....Adorei!
    Continue contando comigo qdo precisar!
    Grande beijo,
    Denys Rocco

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  14. Olha so ... sexy ao mesmo tempo ingenuo... penetrante e ao mesmo tempo intrigante ... kkkk
    quem nao passou por isso antes...

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  15. Uhul....adoro baphos e relacionamentos...hahaha. Brinks queridão! Adoro vc! Sempre bom ler o seu blog.

    Bjos.

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  16. Eliude, quanta história para contar... Momentos bons ou ruins te serviram de inspiração para uma nova era da sua vida. Seja feliz. Você mereçe, é possível e você pode ser feliz.
    Grande abraço,
    Augusto

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  17. Denys, vc também pode sempre contar comigo, exceto pro vôlei, porque sou uma negação nos esportes! heheheheh

    Paulo, amei a ideia que me deu no facebook para o próximo post. E obrigado por suas palavras aqui, conseguiu resumir bem nos adjetivos... (obrigado pelo sexy!!!)

    Mayk, tbm te adoro... muuitoooo. Precisamos combinar outra sessão de cinema... hehheheh

    Gu, obrigado. Pode ter certeza que farei o possível pra isso... felicidade é uma obrigação e um direito!!!

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  18. Olá Eliude...
    Adorei o resumão da sua vida amorosa...eu fiz parte dela..me identifiquei como "O Evangélico"

    Espero que eu esteja certo disto...
    Mas enfim Eliude,embora ficamos por pouquíssimo tempo, foi com vc que eu aprendi a dar valor a vida e de uma certa forma me valorizar também,aprendi a me amar acima de qualquer coisa.
    Foi difícil pr mim,vc sabe que foi...
    Mas eu lembro que vc mesmo falou que só o tempo iria resolver o meu problema.
    E de fato...
    Hoje eu encaro o mundo com outros olhos,mas não deixei meus princípios de vida.
    Sei que apesar de tudo...tem um ser superior que me ama(Deus), acima de tudo e de todos.
    E Obrigado por ser essa pessoa maravilhosa

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  19. Tive a sorte de ter pessoas incríveis fazendo parte da minha vida e vc foi uma delas. Com todos eu aprendi muito e pude também compartilhar um pouco do que sei.

    De fato ter uma visão que vai além das coisas naturais para enxergar a realidade que nos cerca é extremamente importante.

    Afinal, somos todos filhos de Deus, quer acreditemos ou não que Ele exista. E, se nosso Pai é divino, deve haver algo de divino em nós também. E enxergar isso faz toda a diferença.

    O grande problema, no entanto, é que as pessoas, ao ganharem essa consciência, se perdem num mundo de regras e leis e padrões de comportamento, cuja origem e propósito poucos conhecem ao certo, e acabam abraçando um mundo de culpas diante da incapacidade de se adequarem a tudo isso.

    O padrão e princípio fundamental, o filtro de tudo o que é de fato importante é: "Isso me faz feliz? Isso me faz melhor?" Se a resposta for sim, abrace esta verdade, pois será "sua" verdade, a despeito de ser diferente do que é verdade para os outros que lhe cercam.

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  20. Such a beautiful and fascinating story. I hope you'll soon be able to fill your blank pages with tales of love and much happiness, because you certainly deserve it

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  21. Ótima estréia no seu blog, Liu! Valeu pela indicação =)

    Parabéns pelo artigo, leitura fácil e gostosa, histórias contadas de uma maneira muito interessante... E quem lê com certeza se identifica com o texto... Todos temos páginas a serem esquecidas, recordadas, celebradas... Fascinante como você ressalta com facilidade os bons momentos das experiências com finais não tão felizes... Ah, se fosse tão fácil assim... hehe.

    Que a nova página em branco seja digna de mais uma bela história para você e para os leitores. Grande abraço!

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  22. Obrigadão, Pietro... aproveite os outros textos do blog... tem muita coisa legal pra ler por asqui... e quando acabar, me cobre mais... hehehehehehh

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  23. Maravilhoso! Como você está mais acostumado " This is Perfect". Só quem passa sabe o tamanho da dor, MAS depois de uma grande tempestade, vem um lindo arco-íris. Eliu, parabéns, AMEI! Continue sempre escrevendo, e sempre me avise. Serei sua leitora number one! =D

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  24. Brigado, Tau!!! To esperando esse arco-íris!!! heheheheh

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  25. belo texto Eliúde. Sua história, paixões,conflitos e desejos são muito comuns entre as pessoas, independentemente da sexualidade. Oq muda é a forma com que enchergamos a vida, é ver beleza mesmo em momentos de sofrimento, e acima de tudo aprender com erros e crescer com acertos. O importante é ser feliz. Sucesso e um grande abraço.

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  26. É exatamente o que eu tentei mostrar com esse artigo...

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  27. Admiro sua capacidade de descrever seus conflitos, sentimentos e suas dores em linhas tão bem escritas.

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  28. Dear Eliude,
    This is Rubén from Path! Althought I'm not skilled at all with Portuguese it was great for me to realise that I can understand a lot more I thought I would. All I can say for now is that I was quite impressed about the way in which you describe yourself. Your story seems to ring a bell in many ways, and yet different things have happened to us. I sincerely hope we can get to meet someday. I would love to meet the face behind the words. Have a lovely Subday!
    Rubén

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  29. Thank you guys, you're amazing! Since the article was written, other pages have been turned. Life is a river, always flowing on its ups and downs till it meets the ocean of existence.

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  30. Eli,
    Adoro biografias !!

    E depois de conhecer você, ler a sua biografia me fez sorrir, me entristecer, mas ao mesmo tempo me fez ver que a pessoa que eu conheço é muito mais forte e sensível do que qualquer pessoa possa imaginar.

    Eu já lhe disse pessoalmente o quanto você é especial, e quanto eu te admiro e tenho prazer em ter te conhecido ... e agora deixo aqui registrado esse mesmo sentimento pelo amigo que você é.

    Grande beijo, meu amigo querido !!!

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