28 de janeiro de 2016

Capítulo 1: A Barganha

28 janeiro Escrito por Eliude Santos , , 17 comentários
No princípio era o Caos. E o Caos fez silêncio diante de Sua presença. Ele entrou imponente espalhando luz em meio às trevas. Mas não deu muitos passos adiante. Apenas contemplou com pesar o abismo escuro e triste à sua frente. Deteve Seu esplendor à beira do precipício, porquanto as grandes porções de escuridão retorciam-se perturbadas com a claridade que lhes sufocava. Ele segurou as asas de Sua influência como quem segura as rédeas de um cavalo arredio a fim de não perturbar as inteligências agitadas.

“Quem é este que invade os meus domínios?” Gritou uma voz rouca de uma das porções de escuridão que relutavam contra a luz do Criador.

“Sabes quem sou e o que vim buscar, e sei o que em troca desejas. Apresenta-te para que negociemos o preço.” A voz ecoou solene no abismo sombrio.

Das trevas, uma gargalhada sinistra e perturbadora fez-se ouvir. “O que seria dos Arquitetos dos universos sem fim sem aqueles que lhes fornecem as pedras brutas para as Suas construções? Oh, a ironia da Criação! E o que foi outrora menosprezado faz-se grande aos olhos de todos afinal.”

“Nunca questionei tua importância e papel, nem tampouco venho a ti para comparar grandezas.” O Criador estendeu Sua mão de carne e ossos. Mas a voz que vinha do abismo manteve-se oculta na escuridão.

“Afinal, não colocarias em risco Tua respeitada posição!” E o vapor de fumaça escura veio alardeando em trovões e chamas incandescentes na direção do Criador, que manteve-se silente e sereno à beira do abismo, enquanto o ouvia gritar aos quatro ventos: “Todos sabem que entre uma partícula e outra das obras de Tuas mãos há um Caos infinito de tudo e de nada que as sustenta em sua órbita. Eu sou o Senhor do Caos e nenhuma destas inteligências que nos ouvem duvida de minha grandeza.”

Ao que o Criador replicou: “Todos veem o que querem ver, entendem o que querem entender e obedecem a quem querem obedecer; pois a beleza da existência está na liberdade de ser o que de fato se pretende ou pode ser.”

A este ponto algumas porções da relutante escuridão já haviam cedido à luz do Criador, e o Caos aquietava-se aos poucos, o que parecia perturbar profundamente a voz do que falava das trevas.

Os olhos dele brilharam em meio à névoa escura e, dando um passo à frente, ele apresentou-se com a empáfia de um tirano.

“Ó tolas e volúveis criaturas! Continuem dando ouvidos à voz mansa e delicada Deste que vos espreita à beira do abismo e tereis de pagar um preço demasiado alto pelas promessas grandiosas que Ele vos fará. A um cascalho dirá que pode se tornar castelo. E o cascalho sorrirá confiante diante de tão pomposa promessa. Mas quando o tal se tornar choupana, chorará ansioso por uma grandiosidade que nunca terá. Conhecerá a tristeza por não ter alcançado a felicidade que lhe foi prometida.”

Ao ouvirem as palavras de seu mestre, uma a uma, as partes iluminadas do abismo apagaram-se novamente. O Caos retomou sua aparência escura e disforme.

Um ar de desapontamento tomou a face do Criador. Embora sempre lidasse com a leviandade de inteligências inferiores, a dor de Sua decepção era aparente. E não é que fosse surpreendido por elas, pois tal reação já era esperada por Aquele que tudo sabe. Mesmo assim, a dor estava lá. Talvez fosse a proximidade do abismo. Mas, Ele não cedeu. Não poderia! Deu um passo à frente e estendeu a mão alva e brilhante na direção da Velha Serpente, que atemorizada, escondeu-se novamente na nuvem de fumaça.

Com a voz embargada, o Criador voltou-se para as inteligências em desordem, e disse, “Não deem ouvidos a esta debochada criatura. Pois se digo a um cascalho que pode tornar-se castelo é porque o conheço e sei que é isso que de Mim precisa ouvir para que deixe de ser somente cascalho e lute por uma glória maior. E se haverá de tornar-se castelo ou choupana, de minha vontade em nada depende; mas de sua liberdade somente.”

E outra vez parte do Caos aquietou-se e permitiu-se iluminar pela influência do Criador. A luz tênue tomou parte do abismo e as trevas recuaram.

Outra gargalhada fez-se ouvir. “Liberdade é uma palavra que enche os ouvidos e o coração dos tolos. Foi só falar nela que as inteligências assanhadas já se permitiram novamente iluminar por Ti. Mas o que quer dizer essa tal liberdade que lhes ofereces? Já comunicaste a estes que aceitaram Tua luz o preço que haverão de pagar por ela? Falaste de todo o sofrimento e dor?”

O Criador sentiu o medo crescer no âmago dos elementos em desordem e adiantou-se: “Não vos preocupeis com o preço. Apenas confiai em Minhas palavras e tudo irá bem convosco.”

Enquanto o Criador falava, um torvelinho se formou ao redor do que vinha das trevas, como se já esperasse tal resposta: “Ele sempre se recusa a apresentar toda a verdade de uma vez, pois sabe que se vos disser tudo desde já, vos encheríeis de temor e não seguiríeis com Ele. Então prefere dizer-vos que sereis livres, mas que deveis fazer conforme cada palavra que sai de Sua boca para conservardes tal liberdade. Que espécie de liberdade é essa que só se pode ter com rédeas e chicotes?”

E quando novamente os elementos do Caos, ludibriados pelas artimanhas da Velha Serpente, perdiam o brilho que até então se permitiram receber, o grande Criador ergueu Seu manto e assentou-se à beira do abismo. As inteligências, ocupadas em sua confusão costumeira, nem atentaram para a cena incomum que se dava diante delas.

O Arquiteto do universo começou a entoar a mais suave e sublime canção. E a música era tão bela que a melodia quebrou as barreiras da escuridão e preencheu os mais distantes e relutantes recônditos do abismo. A luz do Criador comunicou-se com a luz das inteligências de tal modo que brilharam todas. E, naquele momento, a claridade no abismo excedia a do sol do meio dia.

“Vinde a Mim, ó pequeninos, e vos farei perceber a beleza da harmonia que ora abraçais. Nela encontrareis a verdadeira liberdade. Pois se o cascalho se torna castelo ou choupana, pouco importa. A plenitude está em reconhecer a perfeição da própria criação. Sim, pagareis um preço. E será um preço amargo, não vos minto! No entanto, vosso sofrimento será triste e doce como esta canção, fazendo tremer e estremecer as trevas diante de vós, pois percebereis e fareis resplandecer uma beleza que o Caos jamais vos poderia oferecer.”

A luz preencheu os confins do abismo e as partes relutantes da escuridão fugiram diante da grandiosidade do Criador. A Velha Serpente não podia questionar o resultado da barganha. Mas prometeu que cobraria o preço exigido.

Na Mansão Celestial, das inteligências trazidas das trevas, nasceram os primeiros gêmeos, envoltos por hostes celestiais que cantavam o triunfo da Criação.

Sua Mãe segurou-os em Seus braços, beijando-os com ternura: “Porque existes desde sempre, teu nome será ‘Eu Sou’, e porque aceitaste a luz do Criador e resplandeceste em meio às trevas, tu te chamarás ‘Luz da Manhã’”.

Com lágrimas nos olhos, Seu Esposo abraçou-a feliz. 


17 comentários:

  1. Se algun concurso não escolheu este conto, é porque o mesmo mereça um livro exclusivo. Imagino um daqueles com figuras, fotos de cada linha, em uma página, tipo livros de Max Lucado.

    "A luz preencheu os confins do abismo e as partes relutantes da escuridão fugiram diante da grandiosidade do Criador."

    Assim é também o sentimento quando se lê algo que você escreve. Os outros tornam-se tão... 'normais'.

    Keep the good work!

    Sabe que sou sua fã número 1. Sempre.

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  2. Fofinha... Obrigado pelos comentários, Chris... Também sou seu fã!!! Adorei a ideia... heheheheh...

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  3. Muito bom Eliude! Acompanho os seus trabalhos, ideias e verdade têm tempo. Está evoluindo. Abração.

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  4. Estou com saudade de ler o que você escreve... estou tentando sacudir a poeira e sair do anonimato. Você não precisa de muito esforço pra isso porque tem um talento imensurável.
    Vamos, força, ânimo minino! Quero ler você :)

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  5. Já faz um ano que não escrevo nada. Não sei o que aconteceu. Acho que preciso encontrar um ponto de equilíbrio antes de voltar a tentar produzir algo de qualidade. Não sei o que fazer pra sair do anonimato, e nem tenho tido tempo pra isso.

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  6. Que lindo! Eu ainda não tinha lido! Amei!

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    1. Que bom que gostou, Erika! Logo, logo escrevo mais!

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  7. Absolutamente encantado, Eliude! Prosa e poesia de misturam como parceiros de uma dança cuja a melodia vem de longe... Do Infinito, talvez...

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    1. Obrigado, Jorge. E obrigado por compartilhar no seu Facebook. Espero que continue lendo o livro e goste dos outros capítulos tanto quanto deste.

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  8. Q coisa mais liiindaaa!!! Arrepiou meu coração e minah alma PARABÉNS!!!
    GRATIDÃO!!

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    1. Obrigado, Marizia! Comentários como esse também arrepiam meu coração. :)

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  9. Muitas vezes, procurei um texto sobre o tema. Eu procurava algo ousado, sem meias palavras, sem meio termo, e que falasse de religião de uma forma mais imparcial. Com a sua obra, eu encontrei o que procurei várias vezes.

    Leitura leve, com o texto rico em detalhes, metáforas e principalmente, envolvente. Daquele tipo de texto que as pessoas perderiam horas lendo.

    Parabéns!

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    1. Sei que há muita gente que busca o mesmo e por isso conto com todos vocês para divulgar e ajudar mais pessoas a conhecerem os livros que escrevo.

      Obrigado!!!!

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  10. uma pergunta: pq colocar deus como o herói e o caos como o vilão? e se o ponto de vista fosse invertido? o maniqueísmo sempre me preocupa...

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    1. O maniqueísmo também me preocupa. Qualquer extremo é perigoso, na verdade. Mas o livro não é maniqueísta. Todos têm voz e podem defender seus argumentos. #spoiler alert# Na história, este livro foi escrito por Udiel, um arcanjo que participou dos eventos da Criação. No começo, seu relato parte de um ponto de vista bem parcial, visto que ele só conhece a versão dos vencedores da Guerra nos Céus que funciona como um prólogo para a trama; mas quando Udiel se aproxima dos anjos exilados e começa a conviver com eles, sua visão vai-se abrindo para entender seus motivos e acaba se confrontando com suas próprias fraquezas e ganhando um melhor conhecimento de si mesmo. Nesta história, a luz e as trevas não são forças opostas, mas sim complementares.

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    2. já dizia Lulu Santos: "Não existiria o som se não houvesse o silêncio. Não haveria luz se não fosse a escuridão."

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    3. Esta paráfrase do Lulu é o argumento principal que rege toda a trama do livro. :)

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