8 de abril de 2015

Capítulo 11: Uma Visita Inesperada


Minha avó e minha tia ficaram muito magoadas com a separação de meus pais, especialmente pela possibilidade de uma traição ter sido a razão daquela separação, e tomaram esta possibilidade por fato.

Talvez para proteger-me de uma futura decepção, ou porque elas mesmas tinham aquilo por verdade, sempre deixaram claro o quanto minha mãe não "prestava", o quanto ela nunca gostou de meu irmão, e o quanto ela foi irresponsável quando nos deixou para se "amancebar" ao tal motorista do caminhão.

Elas sentiam um prazer vil ao contar que numa das poucas vezes que ela deixou meu irmão mamar em seu peito, deu um berro e atirou o bebê contra a parede, pois seus mamilos estavam rachados e meu irmão mordera um pouco mais forte do que ela estava esperando. (Elas omitiam a parte em que minha mãe correu para socorrer o pequeno que estava já perdendo o fôlego de tanto chorar quando num impulso impensado o deixara cair.)

Foi num momento de grande confusão causada pela ausência de informações e uma torrente de especulações a seu respeito que, quando nem mais os traços de seu rosto ocupavam espaço em minha memória, minha mãe veio fazer-nos uma visita.

Eu tinha sete anos. Já não a via desde os quatro.

Três anos são uma eternidade na mente de uma criança.

Eu estava em casa brincando com Jeiel, o filho de Nita, quando ela entrou.

Eu não a reconheci. Alguém disse que era minha mãe e eu gritei: "Sua puta!" E saí correndo. Entrei na casa da vizinha, que estava passando roupa. Esbarrei-me nela e acabei queimando o antebraço no ferro quente. Nem senti a dor direito, entrei no quarto e me escondi embaixo da cama.

Minha mãe entrou na casa da vizinha e falou pra eu deixar de bobagem e vir falar com ela. Eu continuei xingando. Ela se abaixou e falou, "Olha o que eu trouxe pra você". Tinha nas mãos um Redoxon, sabor laranja. Claro que aquilo não era o melhor atrativo para me tirar de debaixo da cama, mas era a única coisa que ela tinha no bolso.

Eu continuei chorando. Só queria que alguma força do mundo invisível fizesse aquela indesejada aparição voltar às brumas do esquecimento de onde havia saído.

A queimadura no braço começou a incomodar muito e acabei saindo do esconderijo.

Minha mãe sofrera muito todos aqueles anos que se haviam passado desde nossa separação. Ela quase morrera esquecida numa mesa de cirurgia por causa de um aborto irresponsável. Ficou na rua alguns dias e foi acolhida por uma família de médicos que se condoeu de sua situação. Viajou para São Paulo, pois na cidadezinha onde morava todos viraram as costas para ela, inclusive seus pais. Em São Paulo, trabalhou como empregada doméstica. Durante a semana, dormia no quartinho de empregada na casa onde trabalhava; nos fins de semana, quando chegava sua folga, ficava vagando pelas ruas, pois não tinha nenhum outro lugar para ir. Voltou finalmente para a Bahia, onde conheceu um dono de uma farmácia que gostou dela e ela acabou indo morar com ele. E agora que começava a reerguer-se das cinzas de seu triste passado, esperava apoio, compreensão e carinho. Entretanto, o salário que recebeu foram desaforos de um menino ignorante e incompassivo, que não compreendia o peso das próprias palavras.

Muitos anos passaram-se até que nos encontrássemos outra vez.

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