4 de abril de 2015

Capítulo 5: O Início dos Tombos


Minha avó estava muito abalada com sua separação e embora amasse meu avô e ele ainda viesse visitá-la de vez em quando desde que fora morar com a outra, não conseguiria mais continuar morando em Várzea Nova. Meu pai havia conseguido um trabalho na cidade e não pôde acompanhá-la de volta. Voltamos somente ela, minha tia, meu irmão e eu. Fizemos uma parada em Campina Grande porque eu estava passando muito mal. Depois seguimos para Nova Floresta.

É engraçado como a mente guarda algumas lembranças e deixa outras enevoadas. Esta, no entanto, sempre foi absurdamente nítida em minha mente. Eu tinha vomitado todo o trajeto. Tinha vestido uma camisa polo com listras marrons, amarelas e brancas. E o vômito amarelado manchara toda a camisa.

Minha madrinha, Dolores, esposa de Silvino, que era irmão de minha vó e fora prefeito da cidadezinha, estava regando seu belo jardim. Deixou a mangueira cair no chão e correu ao nosso encontro.

Minha avó pediu para ficar uns meses na casa de seu irmão. A casa tinha duas grandes garagens. Colocamos a mudança na garagem de trás e ficamos lá por um tempo.

Silvino tinha muitas filhas e algumas delas tinham filhos da minha idade. Lembro-me dos almoços de domingo. A casa cheia de gente. A mesa enorme mal cabia todas as filhas de meu tio-avô com seus respectivos maridos. As crianças ficavam todas no chão com seus pratos na mão. A mesa estava sempre farta e o clima era sempre festivo. Eu já nem lembrava mais da minha mãe ou meu pai.

Os seis meses morando na casa de meu padrinho pareceram uma eternidade na minha percepção de criança. Passava o dia brincando no pomar com meus primos, escalando goiabeiras e oliveiras, comendo fruta tirada do pé, fazendo castelos de barro, e abrindo estradas para fazer passar seus carros de brinquedos.

Eu não tinha brinquedos.

No dia que meu pai voltou da Bahia. Saí correndo pela cidade ao seu encontro. Ele trouxe uma pequena bicicleta com rodinhas e eu me senti a criança mais feliz do mundo.

Meu pai encontrou uma nova esposa e não demorou a nascer a primeira filha do jovem casal. Ele nutria um grande amor pelas duas.

Meu tio também retornara do Rio de Janeiro e casara-se recentemente e sua esposa tivera uma filha e todos estavam finalmente se encontrando de algum modo.

Nessa época, meu pai foi convidado por um amigo a gerenciar uma chácara não muito distante da cidade. Meu pai foi morar com sua esposa na chácara e nós permanecemos com nossa avó. No entanto, íamos à chácara com certa frequência.

Havia ali um morro muito íngreme, irregular e pedregoso.

Eu estava aprendendo a pedalar a bicicleta que ganhara de meu pai. Durante algum tempo, ficara ansioso para retirar as rodinhas de apoio.

Finalmente, meu pai atendeu às minhas súplicas e retirou-as.

Sentindo-me livre, seguro e confiante, decidi que desceria o morrinho pedalando.

A despeito dos conselhos de meu pai sobre aonde deveria ir ou não, subi com esforço o morro. Eu tinha grande confiança na minha capacidade de ciclista e ignorava completamente as condições e possíveis consequências de minha ação.

Vi as pedras deslizarem quando subia com a bicicleta, mas também ignorei. Eu estava disposto a passar por aquela prova. Sabia que não seria fácil, mas, como já andava sem as rodinhas de apoio, eu achava que poderia fazer qualquer coisa!

Cheguei no topo e senti um friozinho na barriga quando olhei para baixo e percebi o que faria.

Ainda assim, iniciei o grande desafio.

Nos primeiros instantes, eu parecia ter controle sobre tudo e senti-me orgulhoso. Entretanto, na metade do trajeto, um pequeno desequilíbrio seguiu-se de um grande tombo. Desci rolando no chão de pedras e vi-me completamente ferido e machucado ao pé do morro.

Fiquei decepcionado com o meu desempenho. No entanto, não era esse o meu maior problema: eu havia desobedecido meu pai e desafiado a sabedoria de seus conselhos e agora teria que me apresentar diante dele com as marcas de minha desobediência.

Meu pai não me bateu. Ele me olhou com um olhar sério e pesado que me fez cair no choro.

Sofri muitos tombos durante a infância.

Quando cresci, achei que cessariam, mas não foi assim.

Obviamente, houve uma mudança na natureza dos tombos; mas aprendi algo que, desde cedo, tem-me ajudado: é necessário levantar para continuar.

Não importam quantas vezes você venha a cair; o que realmente importa é que mesmo caído, você tenha forças para se levantar, sacudir o pó e prosseguir sem medo.

2 comentários:

  1. Acho q todos nós temos uma história na infância de um grande tombo de bicicleta. Eu achava quando eu crescer não iria cair mais e esse tombos não iram mais me machucar. Pobre jovem, tenho saudades desse tombos de bicicleta que eram muito mais fácil de encar. Excelente leitura

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    1. Fato! Saudades dos tombos que curavam com mertiolate!

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