15 de abril de 2015

Capítulo 15: Minha Saída da Caverna


Eu tinha quatorze anos quando minha mãe apareceu novamente.

Na época, eu estava fazendo minhas primeiras tentativas como escritor, usando uma máquina de escrever vermelha da Olivetti que ela tinha me dado de presente em sua segunda visita alguns anos antes.

Tinha começado a escrever um conto de fadas sobre duas irmãs que de tanta inveja que tinham uma da outra acabavam se tornando tudo o que mais odiavam em si mesmas.

Também tinha começado a escrever um livro infanto-juvenil sobre um adolescente que lutava para libertar-se da influência de uma família de vampiros que se escondia no sótão de sua casa.

Comecei ainda outras duas histórias, dois romances históricos, esses escritos à mão em cadernos de anotação. O primeiro contava a história do Engenho de Tracunhaém e do romance proibido entre a filha do cacique Iniguaçu e um mameluco que, para casar-se com ela fez um acordo com os índios potiguaras de morar em sua aldeia, mas na primeira oportunidade, fugiu, levando Iratembé consigo. Esconderam-se no engenho de Diogo Dias, que se tornou o alvo de uma infame emboscada e resultou na morte de mais de 600 pessoas. O massacre deu origem à capitania da Paraíba.

O segundo livro era baseado nas histórias que ouvia de meu avô sobre a ação dos cangaceiros no Olho D’água, as terras de sua família.

Não cheguei a terminar nenhum dos livros.

Também comecei a escrever um manual de instruções de desenho artístico e um livro de diálogos simples em inglês para ajudar estudantes do idioma. Eu já falava inglês fluentemente (tinha aprendido sozinho vendo filmes em VHS legendados, e lendo livros na biblioteca), e meus desenhos haviam progredido consideravelmente, desde que traçara os primeiros esboços aos oito anos de idade na casa de Odete e Detinha.

Desde a sexta série, eu tinha parado de levar cadernos e livros para a escola. Percebi que prestar atenção ao que o professor explicava me fazia aprender mais facilmente do que escrevendo. Em parte também porque, mesmo sentando na primeira fileira, já não enxergava claramente o que os professores escreviam na lousa, devido a um astigmatismo que se agravava em ambos os olhos.

Estudei em escola pública, mas tive professores excelentes. Lembro ainda com detalhes as aulas de história de Darlene que fazia-nos viajar no tempo e no espaço abrindo nossos horizontes para um mundo muito maior do que aquele em que vivíamos; lembro-me dos exercícios de redação de Geilza que despertaram em mim o amor pela escrita e um profundo respeito às palavras da bela língua portuguesa que falávamos tão mal naquele lugar esquecido pelo tempo; lembro-me do cuidado minucioso de Massilon em explicar-nos as leis da física ao escrever com zelo de letrista no quadro negro enquanto cobria o nariz com um lenço para proteger-se do pó do giz; lembro-me das aulas de Ivete, Thelma, Jacilda, Gorete e Cida, e de tudo o que aprendi com estas professoras exemplares, que a despeito de um salário miserável, e de uma total falta de recursos, faziam de cada aula um simpósio de conhecimento.

Meu pai havia casado novamente. Sua terceira esposa, Marinete, era uma mulher séria, diretora de escola, gostava de ter o controle da situação, e foi uma excelente influência para tirar meu pai da vida desregrada que levava. Ele parou de beber e começou a se dedicar mais ao trabalho.

No entanto, quanto mais meu pai entrava nos eixos, mais o meu irmão saia deles.

Como eles trabalhavam juntos, meu irmão começou a ficar com o dinheiro que arrecadava dos clientes de meu pai.

Passou a usar drogas mais pesadas e precisava do dinheiro para comprar as tais drogas, e quando não conseguia, tornava-se muito violento.

Quando voltava bêbado de suas farras, todos ficavam com medo dele. Uma dessas vezes, ele chegou a atirar uma faca em mim que por pouco errou meu pescoço e espetou a porta. No dia seguinte, como um cordeiro, ele acordava sem lembrar de nada que tinha acontecido. E se mostrávamos alguma evidência do que ocorrera, ele achava que estávamos mentindo.

Meu irmão era um espelho de tudo o que vira meu pai fazer. De fato, sua própria aparência sofria as mesmas alterações: o sangue saltando das veias, o rosto vermelho, as pupilas mais claras, o suor, o bafo, a voz alterada, os movimentos bruscos, a violência de um cão de guarda que acabara de arrebentar as correntes.

A situação foi ficando cada vez mais grave e ele mesmo teve a iniciativa de contatar nossa mãe e pedir para ir morar com ela sem mal conhecê-la. Mas eu o conhecia bem, e sabia que ele acabaria desistindo.

Quando ela apareceu com a passagem de volta já comprada, ele sumiu de casa para não ir com ela.

Surpreendi-me quando vi-me embarcar com minha mãe para a sua casa na Bahia em lugar de meu irmão. (Fiz isso porque não achei justo que ela perdesse o dinheiro que havia investido na passagem e talvez porque estava farto de ser o pai de todos naquela casa, a voz da razão que falava em ouvidos surdos).

Eu sempre fora uma pessoa extremamente sensata e comedida. Apesar da pouca idade, era suficientemente maduro para pensar cuidadosamente antes de tomar qualquer decisão. Às vezes, pensava tanto que perdia muitas oportunidades. Eu não tinha motivos para partir com minha mãe para um outro estado longe de tudo o que conhecia, mas também não tinha motivos para ficar.

Meu pai implorou para que eu ficasse, sua esposa também, minha avó chorou muito quando arrumei as malas, e minha tia se escondeu para não se despedir, mas eu disse que iria, e cumpri o que decidira fazer.

Agora estava numa casa estranha, numa cidade distante, morando com pessoas completamente desconhecidas para mim.

A casa tinha um cheiro bom. Minha mãe tinha mania de limpeza.

Milton, seu esposo, trabalhava num posto de gasolina e quando chegava em casa com as roupas cheias de graxa, ela só o beijava depois que ele tomasse um demorado banho. No entanto, eram aquelas roupas de graxa que pagavam as contas da casa.

Não demorei a entender o motivo de minha impulsividade em segui-la: havia sido puxado por mãos invisíveis para fora da jaula dos pastores bravos; e pelas mesmas mãos invisíveis, empurrado para fora de minha caverna.

Minha mãe, sempre vaidosa, ia com frequência a um salão de beleza perto de sua casa, o salão de Gil, uma moça que voltara recentemente de uma missão de proselitismo por sua igreja, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (mais conhecida como igreja mórmon).

Gil amava sua religião e sempre tentava falar no assunto quando surgia uma oportunidade, mas eu raramente dava muita atenção. Especialmente porque eu achava que religiões eram todas tentativas humanas falhas de entender a natureza divina (se é que existisse alguma divindade real neste mundo ou fora dele).

Ela me convidou várias vezes para ir com ela às reuniões de sua igreja, mas eu sempre declinava o convite. Até que um dia, ela me pediu para fazer um cartaz para uma reunião de integração que aconteceria no salão cultural da capela da Kalilândia.

Eu fiz o cartaz e no dia da reunião, ela me chamou para ir junto. Eu, como sempre, disse que não iria e ela retrucou: "Como você pode fazer um cartaz convidando todo mundo para ir para uma reunião que você mesmo não pretende ir?" Eu não tinha um contra-argumento para isso e acabei indo com ela.

A reunião foi superdivertida, cantamos, brincamos, comemos. Nada daquelas pregações veementes que eu fora acostumado a ouvir nos cultos sabatistas que frequentara em minha infância.

Depois das atividades culturais, tivemos uma aula. Na aula, falaram de um livro escrito em placas de ouro na América Antiga e eu fiquei curioso a respeito do tal registro. Ela disse que possuía um exemplar, e quando chegamos na sua casa, ela o entregou a mim.

Li-o durante toda a noite, e no outro dia, e durante os dias que se seguiram. A leitura enchia-me a alma e respondia perguntas antigas que não calavam em meu peito. Perguntas que sempre tinha feito e para as quais nunca tinha achado respostas satisfatórias. Eu sabia que se aquele livro não viera de Deus, era sem dúvida a tentativa humana mais acertada de entender a mente divina.

Conhecer "O Livro de Mórmon" foi como deixar de olhar as sombras na caverna e voltar-me para a luz do sol que, mesmo cegando-me a princípio, revelava objetos reais que eu podia tocar e sentir.

Entre outras coisas, o livro falava de uma Igreja que Cristo fundara na América antiga quando visitou aquele povo, pouco depois de sua ressurreição em Israel. Ele disse naquele continente que tinha outras ovelhas para visitar que não eram daquele aprisco e o povo do livro de Mórmon eram algumas dessas ovelhas.

Repetidas vezes, o livro falava sobre o batismo como requisito para ser aceito em tal Igreja e a porta de entrada para trilhar o caminho que nos levaria de volta à presença daquele Pai que nos havia criado, mesmo antes de nascermos nesta Terra.

Nunca estive tão certo de uma coisa quanto estava de que deveria batizar-me em tal Igreja.

Fui contar minha decisão para Gil, mas ela não estava no seu salão de beleza. Encontrei, no entanto, os missionários da Igreja que estavam indo para sua casa. Eu os acompanhei. Gil também não estava em casa. Os missionários decidiram compartilhar uma palestra com a mãe de Gil e eu os acompanhei na mensagem. Eles falaram sobre a "palavra de sabedoria" (uma lei de saúde Mórmon que sugere que os membros não façam uso de álcool, café, chá preto, cigarro e drogas ilícitas). Como eu sempre odiei álcool, cigarro e drogas, por causa das experiências que tive com meu pai e irmão, falei para Dona Vivi sobre como eu me sentia sobre aquela lei de saúde. Coincidentemente, eu tinha acabado de fazer um trabalho na escola sobre os malefícios do café e do cigarro, e compartilhei alguns dados que havia pesquisado. Eu disse por fim que tinha lido o livro de Mórmon e que sabia que ele era um livro de origem divina e que estava disposto a me batizar na Igreja e ficaria muito feliz se ela fizesse o mesmo comigo.

Os missionários se entreolharam assustados. Dona Vivi disse que faria um esforço sim, mas claro que ela não estava dizendo a verdade. Ao sairmos da casa de Gil, eles me perguntaram se eu estava falando sério e eu disse que sim. Eles disseram que era preciso que eu ouvisse uma série de seis palestras, fosse entrevistado por um representante autorizado da igreja e, como eu era menor de idade, precisaria da autorização escrita dos meus pais.

Eu disse que não havia lido nada disso no Livro de Mórmon, até citei uma situação no livro em que um missionário batiza mais de cinco mil pessoas num rio após fazer um discurso que moveu seus corações. Eles não sabiam o que fazer e me pediram que os acompanhasse à Igreja. Quando chegamos lá, eles falaram com um de seus líderes, ele chamou duas missionárias que fizeram em uma hora um resumo das seis palestras usando um flipchart.

Depois disso eu fui entrevistado por um dos missionários e ele disse que no dia seguinte eu trouxesse uma toalha e a autorização de meus pais.

Eu fui para casa. Contei para minha mãe e ela ficou louca. Falou que eu não faria isso de jeito nenhum. Disse que ela não autorizaria. Eu disse que não estava pedindo autorização, que estava apenas comunicando.

No dia seguinte, levei a toalha. Gil não estava na capela durante a reunião. Eu queria muito que ela assistisse o meu batismo. Fiquei triste que ela não estava, mas por outro lado achei bom, pois eu sabia que aquela era uma decisão que eu havia tomado por mim mesmo e seria bom fazê-lo sozinho. Os missionários não me pediram a autorização de meus pais e eu também não falei nada a respeito. Fomos para a sala batismal. A reunião começou. Quando finalmente chegou a hora de me levantar para seguir para a piscina, Gil entrou na sala e caiu no choro.

Entre a noite em que recebi o livro das mãos de minha amiga e a tarde em que entrei nas águas do batismo, haviam-se decorrido somente quatro dias.

E assim deu-se o início de minha iluminação.

2 comentários:

  1. Nossa em meio a N's blog parei aqui.
    Meu post atual tem tudo a ver com seus ultimos post.
    Mito da caverna.
    Confira o meu blog. Veja q coincidência.
    Abraços \o/

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