4 de abril de 2015

Capítulo 1: Meus Olhos Se Abriram Para a Luz Desta Terra


No dia 06 de agosto de 1978, meus olhos se abriram para a luz desta Terra. Pais inexperientes, mas cheios de esperança, me receberam em seu lar com grande alarde.

Ele era um boêmio recém-casado, apaixonado pela esposa, mas dividido entre as responsabilidades do lar e as farras com os amigos. Ela, uma adolescente inexperiente que fora criada por pais ortodoxos e enxergara no casamento uma oportunidade de fuga. Tivera apenas um namorado antes de seu esposo e rumores corriam de que ela nunca chegara a amar o esposo como amara aquele primeiro namorado. O tal namorado, no entanto, achava-se muito culto para levar adiante um relacionamento com uma moça do mato, que mal sabia escrever-lhe umas poucas linhas quando, a serviço da pátria, seguiu para a caserna. Ainda que magoada, foi o nome dele e não o de seu esposo que ela escolheu dar ao seu primogênito.

Quando fugiu da casa de seus pais, ela foi morar com sua tia, que era dona de uma danceteria na cidadezinha recém fundada. Ali conheceu Nadim, filho de Joaquim Antero, o marchante.

Ele tinha acabado de voltar do Rio de Janeiro, com seu irmão, e tocavam numa charanga pela cidade nas noites de carnaval. E para mocinhas de cidadezinha como ela, nenhum par lhes pareceria mais apropriado do que alguém que pudesse lhes arrancar as correntes e levá-las para o mundo.

Tudo o que ela queria era sair daquele lugar abandonado pelo tempo e banhado de pó e vento. No entanto, a liberdade que buscava não seria alcançada naquela aliança. E as consequências das frustrações de seus planos acabariam por afetar todos os envolvidos.

A ausência de atividade sexual do casal nos últimos meses que precederam meu nascimento, as alterações biológicas no corpo de minha mãe, suas mudanças de humor cada vez mais frequentes: Graça já não era mais a menina formosa e ingênua, recém-saída da casa dos pais, por quem Nadim havia se atraído nos bailes soirées de Zefa de Basto Mago.

Assim como ela mudara aos olhos dele, ele estava longe de ser o cara charmoso e “bem de vida” por quem ela havia se apaixonado: agora ele chegava em casa com bafo de cachaça das tardes e noites nos bares da cidade e de cidades vizinhas tirando no palito quem pagaria a próxima rodada de cerveja.

As roupas fedendo a mijo de cavalo e as botas deixando um rastro de barro e estrume pela casa que ela tinha acabado de limpar, abalavam-lhe os nervos.

Uma casa que, a propósito, não era dela. Nadim não tivera coragem de deixar a casa de sua mãe. Nem coragem, nem dinheiro, afinal, ele trabalhava com seu pai, e Joaquim nunca aprovara aquela aliança. E, por não aprovar, não ajudara em nada o novo casal.

Zefa, a esposa de Joaquim, já vinha enfrentando problemas com o esposo, que era bígamo e que havia, já há muitos anos, trazido sua segunda esposa para morar na mesma rua que ela.

Ele, que outrora fora um importante pecuarista na região, agora perdia nas mãos desafortunadas de buraco e relancinho, cada rês e cada porção de terra do que antes havia sido sua invejada fortuna.

Zefa, sua esposa, sofria calada. Quando muito, descontava as próprias frustrações na nova esposa de seu filho. Não que Graça fizesse muitos esforços para ser aceita, pois muitas vezes, preferia devolver na mesma moeda o tratamento que recebia. E o clima era de constante desconforto.

No entanto, quando se aproximavam do berço, tudo isso desaparecia. Eu era a luz que restaurara o equilíbrio daquela casa. Nos meus primeiros anos, fui amado e rodeado de atenção, carinho e cuidado. A dedicação dos que desde cedo cuidaram de mim ensinou-me mais do que qualquer outra lição que eu poderia aprender durante a vida.

Já meu irmão não teve a mesma sorte. Ao contrário da minha gravidez, a dele não havia sido planejada ou sequer desejada. Quando Nadim soube que eu havia nascido, bebeu como nunca antes para comemorar o nascimento de seu primeiro filho. Também estava comemorando o fim de um jejum sexual que já durava meses.

Com força e bafo de Velho Barreiro, o resguardo de Graça foi quebrado ainda no hospital. Mal dera à luz ao primeiro filho, já estava grávida do segundo.

Nove meses depois do meu nascimento, meu irmão nasceu.

Rejeitado desde o berço, Hércules chorava constantemente e tornou o clima de desconforto que já existia naquela casa cada vez mais pesado.

Impotentes, eu e ele assistimos a dolorosa separação de nossos pais, pouco antes de um ano depois.

A vaidade, os ciúmes e a falta de perspectiva de vida do jovem casal, aliados a um ambiente cultural avesso à empatia e ao diálogo contribuíram para a destrutiva decisão.

Não muito tempo depois, também meus avós paternos se separaram.

Pressionado pelas duas esposas, Joaquim Antero acabou optando pela segunda. E ela retribuiu dando-lhe muitos filhos e filhas.

Minha vó foi-se vendo derrotada em todas as suas batalhas e acabou se aprisionando primeiro dentro de sua própria casa e depois dentro de sua própria mente, rendida diante de uma vida que não lhe permitia manter perto de si as pessoas que amava.

Embora meu avô tenha continuado, pelos muitos dos anos que se seguiram, a fazer ocasionais visitas sexuais à minha avó, que nunca perdeu a esperança de reconquistá-lo, seu coração nunca deixou de pertencer à outra.

Desde então, e durante muito tempo, tanto meus pais quanto meus avós afogaram-se em desventuras que lhes sugaram a essência e azedaram a alma. Meu pai entregou-se ao vício para fugir da realidade que o consumia e lhe era tão difícil de enfrentar. Minha mãe procurou esquecê-lo noutros relacionamentos que não deram certo. Meu avô entregou-se ao jogo para evitar as cobranças de ambas as esposas e minha avó usava a casa como um escudo contra o dedo do escarnio que talvez nem estivesse apontado para ela.


8 comentários:

  1. Nossa meu amigo, emquanto lia seu artigo,parecia estar vendo tudo.Muito bom parabéns!

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  2. Finalmente vou pode conhecer a história de vida de uma das pessoas que eu mais admiro nesse mundo. Adorando o primeiro capítulo.

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    1. Você é um fofo, Nil!!!! Espero que goste dos outros capítulos também... Vou ficar acompanhando os comentários!!! hehehehehe

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    2. Hehehe pode deixar. Vai ser como caminhar por capítulos da sua história. Sem falar q a forma q vc escreve é muito gostosa de ser ler.

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  3. Vai comentando nos capítulos pra eu acompanhar a leitura junto com vc!

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