4 de abril de 2015

Capítulo 3: A Lua Seguia Meus Passos


Não tenho muitas memórias de nossa vida em Várzea Nova. Sei que havia o bar do Lelinho, onde meu pai e minha mãe iam com frequência. As ruas eram de barro, e finalmente minha mãe e minha avó tinham algo em comum do que reclamar. Quando chegamos na cidade, eu já andava e falava pelos cotovelos, e meus pais gostavam de exibir o filho precoce me mandando pelado com um trocado na mão ir comprar qualquer coisa na venda da esquina.

Eu corria com o dinheiro amassado entre os dedos minúsculos. Entregava para o dono da venda, que me entregava um pacote de açúcar, arroz, feijão ou café, e eu o trazia correndo de volta, agarrado como se fosse um tesouro precioso. Entregava o pacote nas mãos de minha avó e voltava correndo para a venda para pegar o próximo pacote.

Mas a lembrança que permaneceu, uma recordação simples dessa época que até hoje me acompanha e me traz à mente a ideia de constância em meio a toda a volubilidade que me circundava, foi a imagem da Lua seguindo meus passos. 

Lembro-me de uma noite em que, ao correr para casa, olhei para cima e vi a Lua cheia e brilhante. Naquela época, a Lua despontava no céu gigante e amarelada. E a multidão de estrelas fazia da cena um espetáculo grandioso. Todos apontavam as manchas na Lua e contavam a história de São Jorge e o Dragão e eu ficava tentando reconhecer naquelas manchas disformes a forma de um homem em um cavalo branco cravando sua lança no monstro impiedoso. Mas naquela noite, o que mais me impressionou é que a Lua não parecia um corpo estático e indiferente no espaço. Ela parecia se mexer. Parecia estar me acompanhando. Não importava que direção eu tomasse ou quão rápido eu corresse, ao olhar para cima, lá estava ela, observando meus passos e seguindo-me de perto.

Eu corri para dizer aos meus pais que a lua estava me seguindo e eles riram. Meu irmão olhou pra cima e começou a andar, viu que a Lua também o acompanhava, ele achou que eu estava mentindo quando dizia que a Lua me seguia, pois era a ele que a Lua estava seguindo naquele momento.

Eu já roubava a atenção e o carinho de todos e agora queria lhe roubar a Lua!

Eu não dei muita importância às suas reclamações, pois sabia que a Lua seguia a mim e eram minhas impressões que me importavam.

Toda noite, quando olhava para o céu e via a Lua sobre mim, sentia algo nobre, como se ela estivesse esperando por mim para se mostrar em seu esplendor. Era como se ela me seguisse porque se importava comigo.

Talvez eu fosse novo demais para entender, mas suficientemente maduro para perceber o sentimento de segurança que desde então encheu minha alma, como se não pertencesse àquele mundinho empoeirado que me sufocava, como se meu lar fosse em alguma estrela distante e a Lua fosse uma mãe muito mais presente do que aquela que, com medo de ficar menos atraente, sequer me oferecera o peito. E, quando repetidas vezes criticada, tentara corrigir o erro amamentando o meu irmão, que à primeira mordida, fora lançado para longe e entregue aos prantos.


A Lua era um seio gigante e silencioso que me acalmava e me levava para longe daquele ambiente hostil que me forçava a amadurecer como uma fruta mirrada e verde arrancada do pé antes da hora.


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