20 de agosto de 2017

Capítulo 37: Novos Inícios

20 agosto Escrito por Eliude Santos , , 2 comentários
“Filho de Adão, aproxima-te para que te veja.” Disse eu, à entrada do nosocômio.

Abel levantou-se do leito coberto em linho branco e veio ao meu encontro.

“És Udiel, o contador de histórias?” Perguntou-me curioso.

“Sim, sou Udiel. No entanto, cabe-me mais o título de ouvidor de relatos do que o de contador de histórias. Não te lembras de mim?” Perguntei, já sabendo de antemão a sua resposta.

“Perdoe-me, meu senhor, mas já nos vimos antes?” Indagou-me o pastor. “Não me recordo de haver conhecido outros homens além daqueles de minha casa. De fato, julgávamo-nos os únicos de nossa espécie até que o filho das águas e sua irmã foram, pela providência divina, trazidos ao nosso convívio a fim de que nossa semente se espalhasse pela Terra.

A propósito, não posso demorar-me em vosso meio, pois hoje é o dia de minhas bodas e Nod aguarda a minha chegada no arraial para que a despose.”

“É assombroso o efeito do Véu!” Exclamei em voz alta, mesmo sabendo que ele não entenderia a natureza daquela interjeição. “Diz-me, filho de Adão, se vasculhasses em tua mente os registros de tua primeira infância, qual seria a lembrança mais antiga que encontrarias? Quando exatamente percebeste que existias?”

“Lembro-me vagamente dos dias de minha primeira infância, meu senhor. Não consigo recordar exatamente do momento em que tomei consciência de minha existência.” Respondeu Abel. “É como se eu sempre tivesse existido. Ainda assim, sei que meus pais já existiam antes de mim. E eu mesmo já existia antes das experiências mais antigas das quais consigo de fato me lembrar.”

“E não é isto a vida: uma poderosa sensação de existência, ainda que não saibamos quando exatamente ela começou, ou quando terá de fato um fim?

No entanto, se a tua consciência fosse, por alguma disfunção de tuas faculdades, embotada a ponto de não te lembrares o que acabaste de me dizer, o que pensarias de tua vida?”

“Imagino que não havendo lembrança, o pensamento não se concluiria e a mente vagaria perdida entre uma e outra imagem sem saber exatamente aonde chegar. A vida seria um sonho confuso e, por vezes, angustiante.

Sendo acometido de tal letargia, decerto que nem pensaria estar vivo. Não tendo consciência da vida, não poderia sequer reconhecer a morte.”

“Sim, nada é mais letárgico que o esquecimento, e ele acomete a todos. A não ser que registros sejam mantidos, tudo se perde tão facilmente. As memórias são, afinal, nosso bem mais precioso.”

“Mantemos registro de todas as coisas no arraial. Nosso pai nos ensinou desde cedo a importância de cultivarmos nossas memórias para que, instruindo-nos a partir das experiências uns dos outros, sejamos abundantes em boas obras.”

“Fez bem. Vê-se que és um homem bem instruído.”

“Esforço-me para sê-lo, afinal, a instrução afeta nossa percepção da vida e, consequentemente, o modo como reagimos às experiências que ela nos reserva.”

“Em verdade, é a memória de tais instruções que o faz.” Corrigi-o.

“Sim, a memória de tais instruções.”

“E minha tarefa é coletá-las.” Acrescentei.

“Das tarefas, a mais nobre, meu senhor; afinal, coletar memórias é manter acesa a chama da existência.”

“És um homem admirável, Abel. Certamente alargarás o caminho e clarearás os passos dos muitos que vierem depois de ti. Serás a luz que muitos buscarão na escuridão.

Como estão os teus ferimentos?”

“Estou bem.” Disse ele. “Sabes que caminho tenho que tomar para voltar à casa de meus pais?”

“Não estamos muito longe do vale. Levo-te lá logo mais.”

“Disseram-me que haveriam festividades em vossa casa. Diz-me o caminho e seguirei sozinho, não quero privar-te de teus afazeres.”

“Sim. Hoje é um dia grandioso. Mas não te preocupes, cada um celebra este dia a seu modo.”

“O que celebrais?”

“Celebramos a vida seguindo seu curso.”

“Ficaria de bom grado para as festividades, afinal, sou muito grato por tudo que aqui foi feito por mim. Nunca vesti roupas tão brancas ou deitei em um leito tão confortável. Nunca vi tantas luzes nem tantos maquinários tão meticulosamente forjados, nem decorações e mobília esculpidas e dispostas com tamanha perfeição. Devo confessar-te que me é penoso partir.”

“Tudo o que fazemos, fazemos com esmero.”

“Decerto que sim.”

Eu, Udiel, conduzi-o a uma das fontes que decoravam o jardim do nosocômio, donde corria um veio que descia por uma escadaria de pedras perfumadas que dava para um denso bosque ao sul dali.

“Segue este veio e encontrarás o vale donde vieste.”

Despedi-me de Abel e ele seguiu caminho.

Pedi a um dos arcanjos que servia ao meu lado que o acompanhasse de longe e voltasse com um relato de sua jornada.

Abel seguiu a corredeira sem dar-se conta que seus pés não tocavam o chão. Estava tão alheio à sua nova condição que nem estranhava o fato de que os cardos do caminho já não lhe feriam.

Tampouco estranharia se a porta de um dos salões da grande cidade de Havillah dessem para um dos aposentos da casa de seu pai.

Naquele estado quase letárgico em que se encontrava, tudo lhe parecia natural.

Havia deixado o mundo dos viventes há muito tempo. No entanto, para ele, era como se não houvesse transcorrido tempo algum e ainda cria ser aquele o dia de suas bodas.

De fato, presente, passado e futuro haviam-se tornado, sem que ele disso se desse conta, apenas diferentes frequências de existência naquele seu novo estado. De modo que poderia, atravessando as paredes do tempo, descer rumo às profundezas do abismo quando a Terra era somente um mar de fogo e enxofre onde as estrelas caídas choravam seu exílio; ou subir ao topo dos montes da dispensação da plenitude dos tempos quando a engenhosidade dos filhos dos homens haveria de se assemelhar a dos arcanjos criadores.

No entanto, estava tão apegado àquele tempo, que, no caminho de volta ao arraial, por pouco pensou ter visto a si mesmo sendo escoltado por seu irmão Caim para o lugar de seu abate.

Confuso diante daquela visão, correu na direção dos dois espectros, que sumiram na névoa branca daqueles Campos Elíseos.

Depois de algum tempo, ele já nem se lembrava atrás do que estava correndo. Foi quando deu de cara com um exército de símios e bestas selvagens, liderados por dragões e serpentes que pareciam ir na direção do arraial.

Ele se pôs diante deles e ordenou-lhes que parassem, mas as hostes enfurecidas sumiram ao seu comando, como que se dissipando naquela névoa láctea e espessa.

Ele olhou ao redor, e viu um grande dragão levantar-se das águas diante dele.

Lembrou-se das histórias de seu pai e soube que aquele era Kundalini. Suas asas estavam dilaceradas e muitas de suas escamas pareciam ter sido perfuradas por garras afiadas.

Com violência, o dragão bateu sua cauda contra o chão e ergueu-se imponente em posição de ataque.

Abel tremeu diante daquela figura assustadora.

Kundalini aproximou suas narinas, fungando e exalando um ar pútrido e quente que, por um instante, petrificou o filho de Adão.

O dragão, no entanto, parecia não conseguir enxergá-lo, ainda que se mostrasse profundamente incomodado com sua presença.

Abel pensou que talvez aqueles gigantescos olhos cor de fogo que avidamente procuravam por ele tivessem perdido a capacidade de enxergar. Isto, no entanto, não impediria a besta enfurecida de abocanhá-lo e devorá-lo ali mesmo.

Movido pelo medo, cobriu o rosto e encolheu-se esperando o bote.

Quando voltou a abri-los, o dragão já não estava mais lá.

Abel se levantou e continuou seguindo a corredeira que se alargava à medida que se aproximava do arraial.

Ouviu passos e correu por entre as árvores do bosque. Viu seu irmão Caim que parecia subir um monte íngreme e pedregoso mais adiante.

Tentou acompanhá-lo para alertá-lo contra a ameaça do dragão que avistara a caminho do Vale.

Caim, no entanto, parecia ignorá-lo.

Abel ouviu uma outra voz.

Quando finalmente chegou ao topo do monte, seu irmão, Caim, estava ajoelhado diante de um belo homem trajado com vestes negras e elegantes que lhe dizia, “Levantarei para ti uma grande nação, de modo que os filhos de Adão viajarão grandes distâncias para provarem dos teus manjares e para conhecerem as majestosas construções que erguerás em nome do Altíssimo. E tu cobrarás altos tributos a todos que entrarem em teus domínios, exceto àqueles que se ajuramentarem contigo para participarem deste grande segredo.

Farás para ti um trono e nele te sentarás para deliberares sobre os atos daqueles que te servem. Com pulso firme, serás um bom regente aos olhos de teu povo. Mas cabe àquele que porta o cetro da justiça não ser bom todo o tempo, pois a justiça só existe na oposição, de modo que só há paz se houver guerra; só há lucro se houver extorsão; só há conquista se houver opressão.

Diante dos homens, sempre honrarás com tua palavra, que é teu bem mais precioso. Se ensinares aos teus súditos os princípios de lealdade e fores um exemplo público de tuas palavras, todos confiarão em ti. Com astúcia, te aproveitarás desta confiança em teu próprio benefício, nem que isto exija sacrifícios e vilipêndios feitos à calada da noite, longe dos olhos daqueles que te apoiam.

Não questionarás se estás certo ou errado, pois saberás, pelos frutos de tuas obras, que estás certo, pois grande será o teu êxito.”

Abel assombrou-se diante daquilo que ouviu, e sem que os dois percebessem, correu na direção do Vale, descendo pelas encostas do que pensou ser o Monte dos Sacrifícios para alertar seu pai contra os apuros que corriam todos no arraial.

Na pressa, tropeçou e desceu rolando para uma vala estreita que dava para uma caverna espaçosa, onde símios diferentes daqueles que vira com o dragão rodeavam dois espectros desnudos e maltrapilhos, acorrentados a troncos de ébano fincados na rocha igualmente escura.

Esgueirando-se, aproximou-se dos troncos.

O homem que estava sendo mantido em cativeiro era Abu, seu irmão. Abel não sabia se ficava feliz em descobrir que o pastor não fora devorado pelas bestas selvagens, como os de sua casa já tinham por certo que tivesse acontecido; ou se enchia-se de tristeza diante daquela aflição horrenda que ora testemunhava.

Num repente, muniu-se de algumas pedras e levantou-se com grande ira de seu esconderijo a fim de socorrer a seu irmão. Mas bateu a cabeça contra o teto da caverna que, de tão baixo, obrigava todos a andarem curvados.

A batida forte fez com que desfalecesse e caísse por terra.

Ao levantar-se, viu que a gruta se enchera de luz e gravações espalhavam-se pelas paredes. Passou os dedos pelos veios da rocha, ainda tentando manter-se de pé, quando ouviu uma voz que lhe era muito familiar.

Virou-se para ver de onde vinha o som e viu Nod, amamentando duas crianças de colo. Aproximou-se dela confuso diante de tudo o que vira e ouvira.

“Nod, onde está nosso pai? Hostes de símios raptaram nosso irmão Abu e marcham em direção ao Vale sob o comando de Kundalini, a serpente do Jardim. Uma grande desgraça está para se abater entre os filhos dos homens.”

Nod, no entanto, não se movera diante de suas palavras.

Uma das crianças estendeu-lhe a mão, e ele tocou os dedos minúsculos do infante, que sorriu para ele. Por um instante, Abel sentiu uma profunda paz.

Ao olhar para Nod, ela não estava mais lá, nem os infantes, nem as paredes decoradas da caverna. Tudo havia sido novamente tragado por aquela névoa densa e sufocante que agora o envolvia.

Ouviu passos novamente.

Aquele homem de vestes negras que vira há pouco conversando com seu irmão surgiu diante dele.

“Ave, Abel.”

“O quê?”

“Apenas um cumprimento que logo há de se tornar muito comum entre os homens.”

“Quem és tu?”

“Sou Lúcifer, o filho da Manhã.”

“És o demônio que tentou meus pais no Paraíso?”

“Sou, na verdade, o anjo que os ajudou a cortar os grilhões que os prendiam àquela bela gaiola.”

“Afasta-te de mim.”

“Não fosse por mim, nem terias nascido. A humanidade é mesmo um poço de ingratidão.”

“O que querias com o meu irmão?”

“Com qual deles?”

“Caim. Vi-te falando com ele agora há pouco.”

“Neste lugar onde estamos tu e eu, ‘agora há pouco’ é um tempo que não existe.”

“Que lugar é este?”

“Não te disseram?” Lúcifer caiu na gargalhada.

“Do que ris?”

Naquele instante, Abel pareceu notar o que lhe sucedera e sentiu um estupor de pensamentos, como se fosse tragado para um poço escuro e profundo dentro de si.

Abel esforçou-se para se mover, mas seus pés não lhe obedeciam. Tampouco sua garganta acatava sua vontade de gritar por socorro.

Ele percebeu que seu calcanhar não tocava o chão. Seu corpo parecia ser puxado na direção de uma luz incandescente.

À medida que sentia o calor daquela luz aproximar-se, seu coração acalmava-se.

Um personagem no centro da luz aproximou-se dele e estendeu-lhe a mão. Seu rosto, ofuscado pela luz forte, não lhe parecia ter feição alguma.

O personagem o abraçou e ele pôs-se a chorar.

“Não chores, Meu filho. Este é o dia de teus novos inícios. E uma obra grandiosa há de ser executada através de ti, e daqueles que te seguirem.”

“Senhor, meus pais precisam de mim. Quem conduzirá os seus rebanhos?”

“Teus rebanhos serão todos os homens da Terra, e tu irás atrás deles quando vierem para este lado do Véu. Muitos se deixarão ludibriar pelas artimanhas dos filhos de Perdição, mas teu é o dever de conduzi-los das trevas para a luz.”

O personagem de luz sumiu e Abel viu-se novamente no bosque, às margens da corredeira.

Ele virou-se e seguiu de volta à fonte do nosocômio de onde havia partido.

23 de julho de 2017

Capítulo 36: Ouro, Incenso e Mirra

23 julho Escrito por Eliude Santos , , Comente aqui
O cortejo seguiu em direção à Caverna dos Tesouros. Adão ia à frente levando o corpo de seu filho envolto em uma fazenda de linho branco. Eva e sua prole seguiam com vasos de incenso e mirra, cestas de sal grosso e ramalhetes de ervas aromáticas.

Um silêncio solene acompanhava a marcha fúnebre.

Ninguém se deu conta da ausência de Nod, que se desviou do cortejo um pouco depois de deixarem o arraial.

Ao chegarem ao local do sepulcro, Adão depositou o corpo sobre um leito de pedras negras à altura dos olhos de seus outros filhos e descobriu os panos que o envolviam.

“Perdoa-me, meu Pai, por ter falhado em minha vigília.” Disse o patriarca de joelhos. “Construí um belo salão para guardar os tesouros que me ofertaste no Jardim, mas os pecúlios que eram de fato preciosos corriam soltos pelo campo, e deles me descuidei. Olho para minhas mãos calejadas e os vejo escapando pelos meus dedos como areia fina do deserto.”

“Não abraces sozinho o fardo desta culpa, meu querido.” Disse Eva, aproximando-se dele. “Se erraste, também eu tomei parte neste erro. Tua dor é minha dor. Por nossa transgressão trouxemos a morte ao mundo e, em nossa inocência, pensamos que o desconforto de arrancar de nosso corpo a essência que o mantém vivo seria a dor maior que nos adviria. No entanto, hoje percebemos que um pesar ainda maior recai sobre aqueles que se despedem dos que partem para o outro lado desse misterioso véu que, por nossa culpa, a todos aguarda.”

Juntos, pai e mãe, deram início à preparação do corpo para o sepulcro. Sete lâmpadas de azeite foram acesas à cabeceira, cada vela simbolizava um dos arcanjos portadores das chaves do poder do Altíssimo, sendo o próprio Adão o primeiro deles — a lâmpada central, cujo ardor alimentado no azeite de suas desventuras iluminaria a muitos dos que viriam depois dele.

Ao seu redor, hastes de incenso queimavam como que em lembrança da natureza volátil da chama que antes ardera naquele corpo e que ora se desprendia em uma essência suave e impregnante, como as boas lembranças devem ser.

Daquele corpo, como das hastes queimadas, só restariam cinzas.

Primeiro lavaram as feridas com água e sal grosso e, em seguida, besuntaram a pele descorada e fria com azeite, mirra e essência de eucalipto.

Um corte reto feito na altura do umbigo permitiu que as entranhas fossem cuidadosamente removidas e todo o interior agora vazio fosse preenchido com sal e especiarias. Outros cortes foram feitos em caráter ritualístico sobre os mamilos e em um dos joelhos.

O corpo nu e dilacerado foi então vestido com um manto de linho branco.

Sobre os olhos e a boca, e sobre os cortes nos mamilos, umbigo e joelho foram colocados emblemas sagrados gravados em pequenas placas de ouro que selavam aquele vaso sem vida como propriedade perene da semente divina que nele fizera habitação.

E tudo isso fizeram afim de que, naquele dia ainda tão distante, este vaso frio e silente que haveria de se quebrar em minúsculos cacos — que de tão minúsculos se haveriam de confundir com o pó da terra donde surgira — pudesse ouvir a voz de um novo Selador que o chamaria pelo nome, dando ordem aos ventos que ajuntassem os odores que dele exalassem; às águas, para que devolvessem o barro pútrido de suas entranhas decompostas; e à terra, o que restasse dos ossos e da carne que em sal grosso seria conservada. De modo que, unindo-se pó ao pó e lodo ao lodo, aqueles minúsculos cacos retornariam à sua antiga forma, dando novamente substância física àquela entidade etérea que, de entre os mortos, reclamaria sua porção de vida, sabendo então com certeza plena quem de fato foi, é e será para sempre, pois naquele dia a morte já não haveria de ter poder algum sobre si.

Com um beijo sobre o selo labial, todos despediram-se daquele vaso sem vida.

Findas as oblações, orações e cânticos, Adão rolou a pedra à entrada da Caverna dos Tesouros e todos subiram ao topo do monte que se erguia sobre aquela gruta.

Com o martelo e o cinzel, Adão cortou um longo bloco de mármore na forma de uma gigantesca agulha e, com a ajuda de seus filhos, ergueu-o sobre o sepulcro. Na base da imponente coluna de pedra, entalharam suas memórias e orações a fim de que todos os que viessem após eles soubessem o quão justo havia sido aquele valente pastor, e o quanto todos lamentavam por não terem sido bons guardadores de seu irmão.

Diferente das outras colunas e pilares que serviam de apoio às construções de Adão, esta era mais longa, e terminava em forma de pirâmide, cujo cume, banhado em ouro, parecia perfurar o Céu.

E tal obelisco foi por eles erguido para que, num certo momento das conjunções astrais, apontasse para a posição exata daquela Estrela de onde vieram as suas essências imortais — o gigantesco astro que iluminava o trono do Altíssimo, cuja localização na Expansão fora revelada pelo próprio Criador ao velho patriarca.

Por seis dias Adão trabalhou para erguer aquele monumento e, no sétimo, descansou.

E tão ocupada estava sua mente na obra de suas mãos que, de algum modo, o peso em seu coração foi-se dissipando. E aos poucos, o sorriso dos filhos menores começou a encontrar reflexo no seu.

A vida parecia retomar seu curso como um rio que transborda uma barragem em dias de cheia.

Eva, no entanto, parecia regurgitar o sumo daquele fruto amargo que há tanto comera no Jardim. O mundo parecia ter perdido as cores, os cheiros, o viço.

Ela já não queria deitar-se com seu esposo nem cuidar dos filhos pequenos.

Ainda na Caverna dos Tesouros, Eva notou a ausência de Nod. E, por um momento, a aflição de não saber o seu paradeiro tirou-lhe da mente a imagem do filho dilacerado.

No entanto, tão logo todos regressaram ao Vale e perceberam que os rebanhos haviam sido roubados, deduziram que Nod fora cúmplice de Caim naquele furto e, quiçá, no próprio assassinato de Abel.

Diante de tais evidências, o coração de Eva voltou a esvaziar-se de sentidos de modo que seus olhos sequer conseguiam verter qualquer sinal de tristeza, como se estivessem já cansados de tanto pranto. De fato, só lhe restara um cansaço profundo e devastador.

Caim e Nod já estavam longe quando o cortejo voltou ao Vale.

Caim fizera conforme fora instruído por seu mentor. Quando seus pais se distanciaram do Vale, ele foi ao redil e arrebanhou todos os cordeiros e novilhos, todos os porcos e aves que conseguiu, e trouxe-os às margens do Pison. E ali esperou por mais instruções.

Nod estava inquieta, pois temia que os filhos de Adão descobrissem o seu furto e viessem atrás deles.

Naquela noite, um vento quente e seco vindo do leste derrubou algumas árvores às margens ribeirinhas. O vento era forte e as gotas d’água pareciam rasgar a pele como grãos de areia numa tempestade no deserto.

As árvores se acumularam no ponto mais estreito do rio, criando uma ponte de uma margem à outra.

Cobertos com peles de lã felpuda, Caim e Nod forçaram os rebanhos a caminharem contra o vento, até que todos cruzassem para a outra margem em segurança.

Tendo atravessado o leito do Pison, seguiram o caminho do sol nascente até que encontraram uma caverna, onde ficaram por um tempo. Aquela mesma caverna onde Lilith habitara quando deixara o Jardim.

Acostumada aos confortos da vida no Vale, Nod não gostou de suas novas acomodações. Tão logo conseguiram ajuntar provisões para se aventurarem numa nova jornada, ainda mais longa e atribulada que aquela que tinham acabado de fazer, seguiram caminho.

Caim, que sempre fora um homem da terra e se recusara a cuidar dos rebanhos de sua casa, agora levava um cajado à mão direita e pastoreava por terras inóspitas e estrangeiras.

A cada cordeiro que sacrificava pelo caminho para saciar a fome ou ofertar a seus novos deuses, lembrava-se da lâmina afiada com a qual tirara a vida daquele a quem tanto amava.

Caim já não reconhecia a si mesmo e a cada dia via-se como um reflexo obscuro das imagens que mais odiava ver em seu pai.

Talvez por um sentimento de autopreservação, culpava a Abel por todas as intempéries que ora enfrentava. E, enchendo-se de ódio, rasgava ainda com mais força a garganta dos cordeiros, como se quisesse repetir neles o mal que fizera a seu irmão.

O berro entrecortado das oferendas, o cheiro forte do sangue derramado subindo-lhe pelas narinas, o jorro fétido das entranhas quentes esparramadas sobre a terra fria, tudo aquilo causava-lhe uma profunda repulsa.

Por vezes, quisera ter sido ele mesmo o cordeiro daquele sacrifício.

Mas tão logo acendia o fogo, e depositava as carnes dilaceradas sobre as pedras aquecidas pelas brasas; o cheiro, antes nauseante, agora tornava-se suave e os despojos do sacrifício pareciam-lhe agradáveis ao paladar.

Saciada a sua fome, já nem lembrava do que fizera e seguia tranquilo o seu caminho.

Mas, Abel lembrava, com uma lembrança que lhe parecia ainda mais viva do que as lembranças que tivera enquanto habitara o mundo dos que esperavam a chegada da morte.

Quando a lâmina afiada de Caim rasgou suas carnes, Abel sentiu um tranco por dentro, seguido de uma sensação sufocante que cresceu rapidamente como se algo tenebroso inchasse dentro dele. Os ouvidos ficaram abafados para o mundo exterior e pareceram voltar sua atenção para dentro de si — naqueles poucos instantes em que ainda havia o que se pudesse chamar de dentro ou fora de si — sua vista falhou e seu corpo foi parando de responder aos poucos, à medida que engasgava-se com seu próprio sangue.

Num solavanco, sentiu algo despencar por dentro e, de repente, tudo ficou leve.

A dor e o desconforto passaram, mas também passaram todos os sentidos físicos que antes conhecera, de modo que a consciência de si mesmo lhe parecia distante, como acontece com um corpo cansado pouco antes de cair num sono profundo.

Uma névoa acinzentada cobriu-lhe os olhos, já não sentia o chão sob os pés, já nem sentia os próprios pés.

Vagou por um tempo como cego que estava naquele mar de leite que parecia ter inundado tudo à sua volta até que seus novos olhos se acostumassem ao brilho daquele novo mundo, ainda sem uma consciência plena de sua nova condição.

E caminhou por uma rua belamente pavimentada sendo observado com curiosidade pelos inúmeros habitantes daquele lugar.

No que parecia ser uma praça, um Conselho de Anciãos o esperava.

“Aproxima-te, Meu filho.”

Abel não reconhecia quaisquer daqueles rostos, por mais familiares que lhe parecessem. Ele permaneceu de pé, diante do Conselho.

“Senhores, podeis dizer-me que lugar é este?

Estava no campo com meu irmão e ele se levantou contra mim num ímpeto de fúria e me feriu. Estou tentando encontrar o caminho de casa para dar conta aos meus pais do que houve, mas me perdi no nevoeiro e vim parar nestas terras estrangeiras.”

“Não te preocupes com teus pais, nem com teus irmãos. Estás do outro lado agora. Senta-te conosco e come dos manjares de nossa mesa.”

“Do outro lado do rio? Como vim parar aqui?”

“Estás seguro, e é isto que te importa saber.

Diz-nos com sinceridade de coração, filho de Adão, és um homem de bem? Tudo o que desejaste, fizeste; e tudo o que não te agradava, evitaste, de modo que sabes diferenciar o que é bom e mal aos teus olhos?”

“Sim. Sou um homem de bem e sei o que me faz bem e o que me faz mal, mas ainda há muito o que desejo fazer.”

“Bem está, servo bom e fiel. Se tu, que conheces a ti mesmo, dizes que és um bom homem; quem somos nós para duvidarmos de ti? És, portanto, bem-vindo em nosso meio. Permite-nos cuidar destes ferimentos e dar-te algo limpo para vestir.”

Os curandeiros aproximaram-se dele e conduziram-no a um dos nosocômios para fecharem as feridas e imperfeições que a mortalidade lhe causara ao espírito. Foi despido das vestes manchadas de sangue que trazia sobre si e colocado sobre um leito branco e confortável.

Seu espírito foi entorpecido e os curandeiros que rodearam seu leito iniciaram os procedimentos.

Quando despertou, O que estava à cabeça do Conselho veio ter com ele.

“Como estás, Meu filho?”

“Nunca antes me senti tão bem. Agradeço pelo cuidado e pelas vestes novas que me ofertastes, mas preciso seguir caminho. Meus pais devem estar aflitos. Sabes que direção me seria melhor tomar para chegar ao Vale de Adão? Hoje é o dia de minhas bodas.”

“Hoje também é um dia de festividades entre nós, e não é justo que tu partas assim tão apressadamente em um dia tão solene.

A propósito, há alguém que quero que conheças.” Disse o Ancião. “Chamem o historiador.”

Os que estavam à porta do nosocômio, ao ouvirem as palavras de seu Senhor, vieram apressadamente ao meu encontro.

Quando eles se aproximaram, eu, Udiel, estava recolhendo os relatos dos espíritos que acompanhavam a família de Adão e daqueles que seguiam os passos dos cabeças dos dissidentes, bem como dos ajuntamentos de bestas-feras e das hostes de hominídeos que surgiam nas cavidades das rochas do Novo Mundo.

Ora, esta era a tarefa de uma terça parte daquela sétima de filhos do Altíssimo que haviam sido trazidos a esta Terra na primeira das dispensações do tempo enquanto aguardavam o dia glorioso de seu encarne; tarefa esta que era guardar um registro preciso de todas as ações dos filhos dos homens e dos filhos da terra — sendo, os primeiros, aqueles que descenderam e descenderiam dos lombos de Adão e seus filhos; e os segundos, os híbridos manipulados pelos espíritos dos dissidentes que associaram-se e haveriam de se associar aos filhos dos homens, causando mutações que dividiriam aquela raça em opressores e oprimidos no desenrolar de sua experiência na carne.

Embora sua memória de uma existência anterior àquele estado houvesse sido embotada pelo Véu do Esquecimento, em tal tarefa estes espíritos encontravam algum propósito para sua existência nesta nova esfera para onde haviam sido enviados.

E todos os que demonstraram interesse nesta obra foram chamados ao trabalho e transitavam pelas paredes do tempo entre o mundo etéreo e o mundo físico a fim de coletarem não somente um registro das ações dos homens, mas também de suas palavras e intenções.

E todos os relatos que colhiam eram compilados em um grande volume, conhecido como o Livro da Vida, do qual, este livro que ora escrevo é apenas um breve sumário.

Havia ainda o Livro do Grande Segredo, que era um relato do uso do poder divino e de todo o conhecimento compartilhado pelos arcanjos criadores na manipulação da matéria física para a criação deste mundo, e o Livro do Cordeiro, que era o registro de todas as interferências do Filho do Homem na criação e orientação de vasos escolhidos a fim de que o desenrolar da história humana se desse conforme os planos do Criador. Neste volume seriam gravados os feitos e ensinamentos do Cordeiro quando habitasse entre os homens na carne e, posteriormente, quando, vencendo a Morte, realizasse os primeiros ritos de ressurreição, primeiro dos justos e depois dos injustos, até que todos os dois terços dos filhos do Altíssimo que apoiaram seu plano recebessem como acréscimo de glória um corpo físico, infinito e eterno como o daquele Ser que os criou.

Havia ainda o Livro dos Espíritos, que registrava as ações de todos os espíritos trazidos de Kolob para esta Terra e que aguardavam o dia de sua encarnação, assim como um relato das hostes dos dissidentes que se haviam espalhado pela Terra e planejavam malograr os planos do Altíssimo.

Mas agora, um novo livro estava para ser escrito, o Livro dos Mortos, a fim de registrar os feitos e impressões de todos os desencarnados que adentravam aquela dimensão etérea de existência. E Abel, que outrora habitara conosco naquela esfera distante e que nos deixara para viver sua experiência num corpo físico como filho mortal de Adão e Eva, era o primeiro homem a voltar do mundo dos seres-viventes.

E eu, Udiel, fui, então, ao seu encontro.

1 de junho de 2017

Capítulo 35: Um Ponto de Onde Não Há Retorno

01 junho Escrito por Eliude Santos , , 2 comentários
“Onde vais?” Perguntou Lúcifer, tentando acompanhar os passos de Caim.

“Como ousas cruzar meu caminho depois do que me induziste a fazer?” Caim empurrou Lúcifer com o cotovelo. “Quão tolo eu fui em dar ouvidos às tuas palavras.”

Lúcifer caiu por terra, e Caim, em sua fúria, pôs-se a chutá-lo e amaldiçoá-lo com as palavras mais grosseiras que conhecia.

“Por que estás chutando estas pedras e fazendo o pó subir sobre nós?” Disse Lúcifer que agora estava de pé atrás de Caim, tocando-lhe o ombro numa curiosidade sínica.

Caim virou-se assustado e, vendo o tentador diante dele, caiu por terra.

“O que queres de mim? Por que me fizeste cometer tão grande mal àquele a quem tanto amava?”

“O que fizeste foi por escolha tua. Nada fiz senão apresentar-te opções, tal qual teu pai havia feito antes de mim. Não foi isso que te disse agora há pouco o Criador? Não deves culpar-me se o banquete de minhas palavras pareceu-te mais saboroso que aquele que o velho patriarca te havia servido.”

“Antes tivesse eu atentado para as palavras de meu pai.” Disse Caim amargurado.

“Mas não atentaste. E agora ele não perdoará tua ofensa. Se te apresentares em tua casa assim manchado de sangue, todos se levantarão contra ti para ferir-te em vingança ao teu ato vil.”

“O Altíssimo intercederá por mim.” Disse Caim.

Lúcifer riu.

“Do que ris?” Perguntou Caim enfurecido.

“Não passas de um joguete nas mãos desse Navegante cruel.

Não percebes que Lhe apraz que te tirem a vida? Desta forma, a morte do mancebo preferido é vingada e, com tua queda, ainda extermina o único oponente que de fato haveria de colocar em risco a concretização de Seu plano nefasto.”

“Tuas palavras são torpes. E vil é o intuito de teu coração. Afasta-te de mim, Satanás.”

“Tudo que quero é justiça. Se preferes arriscar tua vida indo apresentar-te aos teus pais conforme te instruiu o Altíssimo, não interferirei.” Disse Lúcifer estendendo-lhe a mão para ajudá-lo a levantar-se.

“Minha vida? Já não há mais nada em minha vida que me faça odiar a morte; ou evitá-la. Eu cometi um crime imperdoável. Entenderia se meus pais se levantassem contra mim para vingar a morte de meu irmão.”

“Não há dom maior que este dom que ora desprezas.”

“E mesmo sabendo disto, induziste-me a roubar tão precioso dom daquele que era mais merecedor dele do que eu jamais serei. Roubei-lhe a vida e o que lucrei com o que fiz? Perdi o gosto pela minha própria.”

“Esse Altíssimo tem mesmo o dom da palavra. Alguns minutos de tua atenção e distorceu toda a verdade, enfiando-te neste poço de miséria a fim de fazer-te presa fácil para quaisquer das armadilhas que reservou para ti.”

“Eu matei meu irmão.” Gritou Caim em desespero.

“E agora Nod já não terá que se deitar com ele. Não era isto que querias?” Completou Lúcifer. “Ademais, se te apressares, ainda hoje, ela estará em teus braços e tuas serão as bodas: o fruto de tua diligência.

E isto será somente o começo dos teus lucros.

O que fizeste foi para salvar a tua honra, e nisto estás plenamente justificado.”

“Não me importa a justiça se ela não consegue aplacar este sentimento que me corrói por dentro e rouba minha paz.”

“Mísero torrão de barro! Chego a me apiedar de ti. É isto que desejas que os outros sintam a teu respeito? És um príncipe, e príncipes não devem suscitar pena; devem insuflar temor. Levanta a cabeça, pois isso que fizeste perturbará a muitos, e fará com que eles todos tremam em tua presença.”

“De nada me importa o que os outros sentem por mim. Importa-me mais esta angústia que cresce cada vez mais em meu peito, fermentando o fel da amargura que sela minhas entranhas.”

“Uma amargura que foi plantada em teu peito por ti mesmo, porque não foste corajoso o suficiente para enxergares os degraus que subiste nesta hierarquia. Ou achas que tua vida se resumirá a este pedaço de terra árida, comendo pó e derramando teu suor como um condenado?

Se fosse eu o teu Criador, jamais permitiria que visses a ti mesmo com estes olhos de comiseração. Tu és um herói.”

“Não há nada de heroico no que fiz.”

“Então vai logo e diz ao teu pai o que fizeste. Se tirarem tua vida, o que se perderá, afinal? Um herói que não sabe de que lado está lutando pode ser mais danoso que um vilão que o sabe. Se te renderes, farás com que teu Opositor fique ainda mais forte e esta batalha estará fadada ao fracasso.”

“Tu és o meu opositor. Não há outro.”

“Não, Caim. Como podes ser tão cego? Sou teu amigo. Quero ver-te triunfar, pois teu triunfo é o meu triunfo.”

“Se esta luta é tão importante para ti, luta-a sozinho.”

“Não se vence luta alguma sozinho. Eu preciso de ti; e tu, de mim. E juntos diremos ao Todo-Poderoso que não aceitaremos este mal que Ele fez.

Não percebes que nasceste diferente de teu irmão Abel? Não percebes que Hapi era diferente de vós? E tais diferenças fizeram-vos agir de modos tão distintos, ainda que vivendo exatamente sob as mesmas circunstâncias.

Abu apareceu-vos falando sobre monstros no bosque, e tu te refugiaste no cultivo da terra para não teres de enfrentar tais bestas assustadoras caso fosses posto à frente dos rebanhos. Já Abel encheu o peito de coragem e subiu às montanhas levando os cordeiros pelos caminhos onde tais monstros supostamente estariam, pois em seu coração queria derrotá-los para, deste modo, ganhar algum crédito aos olhos de teu pai.

Ele não esperava que este monstro fosse surgir num rosto tão familiar. Nem tampouco imaginava que falharia em se defender contra os golpes certeiros desta besta feroz.

Tu também não esperavas tornar-te um monstro como aqueles dos quais fugias.

Tu foste prometido a Nod; e Hapi, a Ima. Tu esperaste as bodas para deitar-te com tua prometida. Já Hapi deitou-se com todas as tuas irmãs em idade para o coito. E nada teria acontecido a ele se seus atos ocultos não tivessem vindo à tona. Era reverenciado por todos até que, descobertos seus segredos, tornou-se odiado e rejeitado pelos mesmos que antes falavam de amor.

Mas quem vos fez assim tão imperfeitos?”

“Cada um é o que é.” Respondeu Caim.

“E todos são o que são, meu amigo, porque assim foram feitos por Aquele que os criou.” Disse Lúcifer. “No entanto, esse perverso Criador tortura os que não são tão corajosos como Ele gostaria que fossem, nem tão pacientes como Ele ordena que se tornem, ainda que Ele mesmo os tenha feito assim.

Não lucraria mais já fazendo a todos perfeitos?

No entanto, como um oleiro inexperiente, erra na criação de novos vasos. E por não saber consertá-los, esmaga-os sob Seus pés e alegra-se com o barulho dos cacos trincando.

Este é o Altíssimo a quem teus pais oferecem sacrifícios. Este é o Altíssimo que criou este mundo para colocar vários de Seus vasos malfeitos para serem humilhados por uns poucos vasos em melhor condição que por fim Ele usará para decorar Suas mansões infinitas e eternas, deixando os demais todos juntos, quebrando-se uns aos outros por não aceitarem as imperfeições uns dos outros ou as próprias deformidades, até que, caco contra caco, só reste o pó desses vasos.

De modo que nem mesmo o Altíssimo se lembrará dos erros que cometeu no passado, fazendo pela eternidade outros vasos com as mesmas imperfeições que antes fizera a fim de que estes sofram das mesmas aflições que acometeram os primeiros. Assim, do caos desses vasos quebrados, Ele sai criando seus universos imperfeitos.”

“Estás certo.” Admitiu Caim. “Eu não estaria sofrendo assim se Ele não tivesse me feito um homem tão fraco e capaz de nutrir tão torpes pensamentos.”

“Enxuga estas lágrimas e refreia teus passos.” Disse Lúcifer. “Não é sábio que contes ao teu pai o que fizeste. Antes, vai até Nod e diz-lhe que não é seguro ficarem no Vale. Ela seguirá contigo aonde quiseres ir.

Faze-o, no entanto, de madrugada, para que teus irmãos não te vejam.”

“Estás certo. Será melhor assim.”

“Agora, ajuramenta-te comigo de que não revelarás este segredo nem mesmo para tua esposa para que não sejas ferido na garganta como foi o teu irmão Abel.”

E Caim fez o sinal do juramento, conforme instruído por Lúcifer, passando o dedo de um lado a outro do pescoço.

“Farás, então, conforme o que eu te disser?”

“Sim. Obedecerei teus mandamentos e serei o guardião deste grande segredo.”

“Teu nome então será Mahan Usir, pois a partir deste dia tudo o que fizeres será para enfraquecer o reino Daquele que te fez fraco, a fim de que te tornes mais forte que Ele.”

“Como pode o vaso tornar-se mais poderoso que o Oleiro que o criou?”

“Revelo-te agora a chave de teus domínios. Atenta para o que te digo, pois nisto repousará o teu triunfo. Levantarei para ti uma grande nação, de modo que os filhos de Adão viajarão grandes distâncias para provarem dos teus manjares e para conhecerem as majestosas construções que erguerás em nome do Altíssimo. E tu cobrarás altos tributos a todos que entrarem em teus domínios, exceto àqueles que se ajuramentarem contigo para participarem deste grande segredo.

Farás para ti um trono e nele te sentarás para deliberares sobre os atos daqueles que te servem. Com pulso firme, serás um bom regente aos olhos de teu povo. Mas cabe àquele que porta o cetro da justiça não ser bom todo o tempo, pois a justiça só existe na oposição, de modo que só há paz se houver guerra; só há lucro se houver extorsão; só há conquista se houver opressão.

Diante dos homens, sempre honrarás com tua palavra, que é teu bem mais precioso. Se ensinares aos teus súditos os princípios de lealdade e fores um exemplo público de tuas palavras, todos confiarão em ti. Com astúcia, te aproveitarás desta confiança em teu próprio benefício, nem que isto exija sacrifícios e vilipêndios feitos à calada da noite, longe dos olhos daqueles que te apoiam.

Não questionarás se estás certo ou errado, pois saberás, pelos frutos de tuas obras, que estás certo, pois grande será o teu êxito.”

“E como erguerei este grande império se sequer tenho onde recostar minha cabeça?” Perguntou Caim.

“Quem é o pastor dos rebanhos de tua casa?”

“Abel era o pastor dos rebanhos da casa de meu pai.”

“E onde está teu irmão Abel agora?”

Caim entendeu o que Lúcifer sugerira sem que o tentador entrasse em mais detalhes.

“Como haverei de apossar-me dos rebanhos da casa de meu pai sem que ninguém me veja?”

“Teus pais e teus irmãos irão até a Caverna dos Tesouros para sepultar ali o corpo de teu irmão Abel. Quando eles se distanciarem do Vale, vai ao redil e arrebanha todos os cordeiros e novilhos, todos os porcos e aves, e traze-os até a outra margem do rio e eu vos ajudarei a cruzar as águas em segurança.

Uma vez que tenhas cruzado as águas do Pison, seguirás o caminho do sol nascente até que encontres uma outra caverna, onde habitarás por um tempo. E quando a ira de teus irmãos houver esfriado, seguirás em segurança com os teus para a terra de Nod, a terra em que teus filhos crescerão em segurança e onde tu iniciarás as obras secretas que farão de ti o mais poderoso dos homens.”

“Assim seja.”

Caim seguiu até o Vale e, conforme instruído pelo tentador, naquela noite, encontrou-se em segredo com Nod e disse-lhe que preparasse mantimentos e não seguisse com os demais à Caverna dos Tesouros, pois, levantando-se a névoa da madrugada, eles haveriam de deixar o Vale de Adão para não mais voltarem, pois aquelas terras já não eram mais seguras.

Caim falou de monstros meio-homens-meio-touros com chifres imensos que haviam rasgado de um só golpe a garganta de seu irmão. Disse que tentara protegê-lo, mas seu cutelo não se mostrara suficientemente forte para causar-lhes dano algum, de modo que ele fugiu para salvar a própria vida.

Disse ainda que os monstros estavam vindo a caminho do arraial e que logo chegariam ali.

“Apressemo-nos, pois, e avisemos a nosso pai Adão”, disse Nod, “para que ajunte também ele provisões e conduza a nossos irmãos em segurança para longe deste vale maldito.”

“Não há tempo para isto. Nossos irmãos mais moços atrasariam nossa fuga.”

“E deixarás que eles sejam feridos ou devorados por estas bestas feras?”

“Preciso que confies em mim, Nod. O Altíssimo apareceu-me no bosque e disse-me que Sua mão pesa em violentas punições sobre esta casa amaldiçoada pelas injustiças e transgressões que nosso pai cometeu contra a sagrada vontade Daquele que tudo conhece. Tu e eu sofremos o aguilhão destas injustiças e bem sabemos que o Altíssimo tem seus motivos para lançar seus julgamentos contra esta casa.”

“Sim, meu irmão. Estás certo. Mas deixa-me ao menos avisar às minhas irmãs que se detenham por mais tempo na Caverna dos Tesouros a fim de que lá possam encontrar algum refúgio contra tão severos julgamentos.”

“Faz como bem te aprouver. Só não lhes diz que estive contigo, pois conhecendo bem ao meu pai, sei que ele julga ter sido eu que tirei a vida de meu irmão. Ciente de que estou por perto, haverá de querer que eu me apresente perante ele para ser julgado e, fazendo-o, estaremos todos perdidos.”

“Estás certo.”

Nod fez conforme Caim lhe instruiu.

Quando todos seguiram em direção à Caverna do Tesouro para sepultar o corpo de Abel, ela desviou-se do cortejo e voltou ao arraial. Caim já ajuntava todos os rebanhos e, ao lado de Nod, seguiu na direção das margens do Pison.

Uma forte tempestade fez cair algumas árvores sobre o leito mais estreito do rio, criando uma ponte, por onde todos passaram.

Algumas aves, cordeiros e novilhos se dispersaram, mas finda a travessia, todos os remanescentes seguiram na direção daquela caverna que Lúcifer preparara para que lhes servisse de abrigo.